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Nuno Bragança: Sexo, boxe e revolução

Do berço de ouro às orgias surrealistas e muito mais.
João Pedro Ferreira 29 de Março de 2020 às 10:00

Nuno Manuel Maria Caupers de Bragança (1929-1985) foi um escritor que, em três romances, trouxe uma lufada de ar fresco à literatura portuguesa. ‘A Noite e o Riso’ (1969), ‘Directa’ (1977)’ e ‘Square Tolstoi’ (1981) aliam um ritmo narrativo cinematográfico a um humor fino, em que se destaca um erotismo ora cru, ora terno, ora anárquico - nas descrições de orgias surrealistas -, tudo servido em português escorreito.

Filho de um médico descendente de reis, começou por estudar Agronomia mas logo trocou a agricultura pelo Direito. Foi diplomata na representação de Portugal na OCDE, em Paris, onde se empenhou nos meios de oposição ao regime de Salazar. Defensor da luta armada para derrubar o Estado Novo, colaborou com as Brigadas Revolucionárias de Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Foi boxeur, cineclubista e crítico de cinema. Fundou, juntamente com outros católicos progressistas, a revista ‘O Tempo e o Modo’, onde escreveram Mário Soares, Jorge Sampaio, Jaime Gama ou Vasco Pulido Valente. Foi companheiro da psicanalista Maria Bello, mais tarde eurodeputada e grã-mestre da maçonaria feminina. Foi condecorado, a título póstumo, pelo então presidente Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada.

Os três romances e ainda um livro de contos (‘Do Fim do Mundo’), a novela ‘Estação’ e a peça de teatro ‘A Morte da Perdiz’ estão reunidos no volume ‘Obra Completa 1969-1985’ (ed. Dom Quixote).

 Do livro ‘Square Tolstoi’, ed. Assírio e Alvim
"(...) Entrei devagar num espaço onde havia uma só luz acesa, roxa. Na penumbra, onde o fumo era suficiente para pedrar um urso, o chão alcatifado estava parcialmente coberto de pessoas nuas de todos os sexos, que se remexiam em ritmos diferentes e nas posições mais variadas.

(…) Vi, de pé no meio da sala, uma rapariga loira-palha que afagava o berbigão com o ar sonhador com que um português coça os tomates. Ela tinha uma expressão tão despassarada que lhe acenei, cá do fundo do meu despassaramento (esses ambientes nunca me tinham entusiasmado). Veio até mim em passo e expressão de sonambulismo. Em menos de um credo começou a sugar-me o índio.
(…) Fui atraído por uma voz francesa que gritava ‘Ah non, ah non, au secours.’ Era uma morena a quem um oriental estava minetando, devastadoramente. Interessado, sentei-me nos calcanhares para ver bem o rosto dela: estava contorcido de tal modo que o meu pirilau se pôs nos bicos dos pés.

Procurei onde enfiá-lo e topei a loira-palha, que se levantava, levando novamente a mão à pássara como que para certificar-se de que ainda a tinha. (...) Fui buscar a loira-palha e deitei-a de costas, ao lado da francesa a quem o oriental estava realmente incendiando. Coloquei a dita loira-palha em posição, com o desrespeito com que o canzanador a tinha tratado, e enfiei-a à missionário.
Recomecei a contemplar o rosto bonito da francesa arfante. Afaguei os cabelos pretos dela, e pus-me a beijar-lhe o pescoço e as orelhas. Lá para sul das nossas cabeças aproximadas, o oriental acelerava, sábia e implacavelmente, o seu trabalho de língua e lábios, enquanto as mãos se enclavinhavam nos seios da francesa.

Fui indo na loira-palha tentando apanhar o crescendo da morena. Um pouco como um bombo a tentar uníssono com uma flauta. Mas enfim. Quando a francesa começou o seu gemido final, interminável, eu vim-me nele – por interposta loira-palha; que fez ‘ah’ mas acho que sentindo muito pouco ou nada."

"(...) Claro que ela começou a dizer não, de voz e empurrões. O seu espanto não tinha nada de fingido. Com a velocidade requerida, meti-lhe dois dedos na boca do corpo e lá encontrei o escorrer magnífico que não deixa mentir. (…) Foi mesmo ali no chão sobre os almofadões. Segurando-a rijamente pelas ancas, mantive os nossos corpos afastados, evitando qualquer contacto que não fosse o das línguas, cada vez mais desvairadamente ousadas. Demorei nessa postura até ela gemer – com a voz e os movimentos. Enquanto isso, a minha erecção crescera a ponto de doer. Por fim e com uma lentidão medida arremeti pela Alice dentro. Fui acolhido por uma vagina das que mordem bem.

Apertei a Alice nos meus braços enquanto a beijava como quem devora: nas orelhas, no pescoço, nos seios, nas axilas. Em baixo ia penetrando e penetrando como se lhe quisesse desfazer a vulva. Começou a gritar ainda no limiar do orgasmo. Consegui aguentar-me firme até ela atingir a crista do seu auge. E só então dei rédea solta a um vir-me aparentemente interminável."

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