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Nuno Lopes: "A Europa foi uma cobradora de dívidas"

Ator espera que ‘São Jorge’ documente os anos em que diziam aos portugueses que viviam acima das suas possibilidades
Leonardo Ralha 18 de Setembro de 2016 às 16:00
Nuno Lopes, 38 anos, foi o melhor ator da secção ‘Horizontes’ do Festival de Veneza
Nuno Lopes, 38 anos, foi o melhor ator da secção ‘Horizontes’ do Festival de Veneza FOTO: Claudio Onorati/EPA

Distinguido no Festival de Veneza como melhor ator da secção ‘Horizontes’, graças a um pugilista que começa a fazer cobranças difíceis para sobreviver, Nuno Lopes diz que ‘São Jorge’, realizado por Marco Martins e com estreia marcada para 3 de novembro, é o retrato daquilo que a austeridade fez aos portugueses.

Se um alto funcionário da troika visse o ‘São Jorge’ passaria a acreditar que os portugueses são seres humanos e não apenas números numa folha de Excel?
Custa-me a acreditar. São totalmente desfasados da realidade. Como os nossos políticos. Quando estava a preparar o filme, no bairro da Bela Vista, com pessoas sem nada, ouvia políticos dizer que estávamos a viver acima das nossas possibilidades. Mostrar é fundamental. Se querem ver, isso é outra questão.

O dragão da austeridade de que falou em Veneza, ao receber o prémio, é quase um personagem do filme?
Há uma tragédia que paira, algo que impede o Jorge de triunfar. Vê-se que tenta o melhor que sabe, mas uma coisa maior do que ele impede-o de ter sucesso. E essa coisa é a troika e a austeridade. Há um lado metafórico, pois a Europa foi uma cobradora de dívidas a Portugal.

Com cobranças difíceis...
Tal como nas cobranças difíceis feitas em Portugal. Há uma ameaça constante e cobra-se por intimidação.

Como é que Marco Martins explicou o que queria com este filme?
O filme surgiu da vontade de trabalharmos juntos e foi discutido desde o início a dois. Fiz parte de todo o processo de criação. Não houve nenhum momento em que ele tivesse de explicar. Sabíamos os dois mais ou menos o que queríamos fazer.

Na preparação do personagem ganhou 20 quilos. Suponho que não se pode dizer que tenha engordado...
Não. Aliás, a contabilidade dos 20 quilos é assim: perdi dez quilos de banha para ganhar dez quilos de músculo.

Já conseguiu retirar o Jorge do seu corpo?
Felizmente, já. Mais ou menos... A parte boa é que estava em forma. Não me dou muito bem com ginásios. Pelo menos, tantas horas por dia.

Não é a primeira vez que interpreta alguém capaz de ser violento. Este Jorge é um negativo do Telmo de ‘Sangue do Meu Sangue’?
No sentido em que também é forte, está rodeado de violência, e vive num bairro difícil. Na personalidade são totalmente opostos. O Jorge não tem um pingo de maldade. E o Telmo era quase diabólico.

Já tinha ido ao bairro da Bela Vista ou ao bairro da Jamaica antes de começar a preparar este filme?
Só tinha ouvido falar. Fizemos uma grande pesquisa em vários bairros sociais da zona de Lisboa – entra também o Portugal Novo, numa cena pequena... – e escolhemos os que nos interessavam mais, pelas pessoas e por funcionarem melhor cinematograficamente.

O que se pode aprender nesses bairros?
Acima de tudo, trata-se de um mundo que nós, burgueses de classe média, a viver principescamente em comparação com estas pessoas, desconhecemos. Quando eu digo que o bairro da Jamaica, que são três edifícios inacabados, fica a 20 minutos do centro de Lisboa ninguém acredita. E há coisas surpreendentes: as pessoas recebem apoio social por terem vários filhos, e se vão trabalhar pelo salário mínimo fazem-no por apenas mais cinco euros.

Entre as inspirações para o ‘São Jorge’ mencionou o Travis Bickle de ‘Taxi Driver’ e não o Jake LaMotta de ‘O Touro Enraivecido’. Este filme não é, de todo, um novo ‘Belarmino’...
‘Belarmino’ é o meu filme português favorito. Sempre quis representar um ‘boxeur’ e, como pretendíamos falar de crise, falei ao Marco de um pobre que luta pela vida. Ainda por cima, o boxe não é bem remunerado em Portugal. Numa gala de boxe em Los Angeles o campeão fica milionário. Aqui, vai trabalhar como segurança à noite. Mas o filme é muito mais sobre a crise. O boxe é só um pretexto para falar de cobranças difíceis. É o ‘background’ de um tipo que sabe bater.

Espera que o ‘São Jorge’ possa ficar como um documento sobre anos muitos difíceis em Portugal?
Fizemo-lo com essa intenção. Era importante que alguém pusesse um documento destes cá fora. Através do Jorge descobre-se um mundo real, que não foi inventado por nós. A maior parte dos atores são pessoas do bairro e do meio do boxe. Não tinham guião. Falavam o que queriam. Há um lado documental do que era viver em Portugal nessa época.

Diria que é o filme que mais o marcou até hoje?
Sim. Pelo lado de construção. Marcaram-me muitos filmes, pois felizmente tenho tido a sorte de trabalhar com grandes realizadores. Mas ‘São Jorge’ é, acima de tudo, o filme que é mais meu. É um filme nosso, que construímos em conjunto.

Já disse que tem os pés bem assentes no chão. Mas tem orgulho em ver o seu trabalho reconhecido?
Ainda nem acredito naquilo que me aconteceu. Nem nos melhores sonhos pensava que um dia iria ganhar um prémio num dos grandes festivais de cinema do Mundo.

O prémio poderá ser uma lança de ‘São Jorge’ para combater a apatia das pessoas e levá-las a ir ver o filme quando estrear?
Gostaria muito que sim. E é o mais importante. A voz destas pessoas merece ser ouvida e gostava muito de contribuir para que acabe este estigma de que o cinema de autor português não deve ser visto. Há filmes de autor – e penso que o ‘São Jorge’ é um desses – que podem ser compreendidos e podem entusiasmar qualquer pessoa.

MAIS UM PASSO NUMA GRANDE CARREIRA

‘São Jorge’, história de um pugilista que faz cobranças difíceis para fugir à pobreza e evitar que a ex-mulher (Mariana Nunes) vá para o Brasil com o filho de ambos (David Semedo), é o mais recente filme de Nuno Lopes, que aos 38 anos é um dos maiores atores do cinema nacional. Nos últimos anos foi o colono de ‘Posto Avançado do Progresso’ (2016), o marido desavindo de ‘Cadências Obstinadas’ (2013) e o sargento que enfrenta as invasões napoleónicas de ‘As Linhas de Wellington’ (2012). Em ‘Alice’ (2005), também realizado pelo amigo Marco Martins, era um pai atormentado pelo desaparecimento da filha.

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