Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM

O amor como revelação mágica

Duas obras essenciais do surrealismo, com bastas doses de associações espontâneas e automatismos psíquicos.
Adolfo Luxúria Canibal 24 de Novembro de 2019 às 14:00

Quando em 1924 André Breton, cortando definitivamente com Dada e o seu niilismo radical, publica o ‘Manifesto Surrealista’, que viria a ser o primeiro dos três manifestos teóricos fundadores e enquadradores do surrealismo como corrente artística de vanguarda, ele vai enfatizar a prática do automatismo psíquico e das associações espontâneas como forma de libertação das convenções literárias e sociais e de quebrar a ditadura da lógica e da moral.

Havia já publicado em 1920, com Philippe Soupault, numa fase em que ainda navegava nas águas Dada, ‘Os Campos Magnéticos’, uma primeira experiência do que ficou conhecido como escrita automática, procedimento literário criado pelos dadaístas, mas posteriormente assumido e desenvolvido pelos surrealistas, e que consiste na escrita ao ritmo do fluxo do inconsciente, quase como em estado de hipnose, evitando qualquer controlo do pensamento consciente.

Mas mais do que a recusa da intervenção castradora do consciente e das ideias de bom gosto e de razão que lhe estão inerentes, Breton pretendia a superação da contradição entre objetividade e subjetividade através da ampliação da consciência, criando uma poética da alucinação onde sonho e realidade se fundem numa espécie de realidade absoluta ou de sobre-realidade (surrealidade, na grafia original francesa).

E aqui enfatiza o acaso e as relações que este cria, cabendo ao poeta o papel de decifrador ou revelador das ligações secretas assim geradas. São estes os pressupostos de ‘Nadja’ (1928), que narra a tempestuosa relação com uma misteriosa mulher que o leva numa deambulação por Paris que é simultaneamente uma busca por si próprio, fundindo diferentes géneros, utilizando fotografias e misturando sonho e realidade, ou de ‘O Amor Louco’ (1937), a história de uma mulher escandalosamente bela com quem se perde nas ruas de Paris, numa sucessão de coincidências, presságios e memórias que lhe dão a certeza de que há uma ligação mágica entre o homem e o universo.

Dois livros fundamentais da história da literatura, finalmente reeditados.

disco

UMA CATEDRAL SONORA A RASGAR AS NUVENS

Ao décimo primeiro álbum em 25 anos de carreira a banda de Chicago continua sem passos em falso, conseguindo um novo marco no seu country, aqui mais espacial e texturado do que nunca, com destaque para a riqueza rítmica e tímbrica da bateria mas mantendo a guitarra acústica no centro das operações.

disco

QUANDO O BELO SUPLANTA A RAIVA CATÁRTICA  

À terceira encarnação a banda nova-iorquina deixa de compor apelando a longas e intensas performances ao vivo, imagem de marca dos seus últimos discos, para passar a fazê-lo a partir de esqueletos ditados por Michael Gira e completados por convidados escolhidos, resultando num álbum de extrema beleza.

filme

NUNCA NOVA IORQUE FOI TÃO ENCANTADORA

Maravilhosa declaração de amor a Nova Iorque, numa reivindicação do direito à fantasia amorosa, e que se torna num clássico instantâneo de Woody Allen, com humor, diálogos soberbos, piadas a rodos e imagens inesquecíveis de uma Manhattan de sonho, à chuva, e com a luz perfeita para nos encantar.

FUGIR DE:

Fernando Medina

Para além da polémica que envolve a AIA do novo aeroporto de Lisboa e da suspeição de que a vontade política se sobrepôs à avaliação técnica, há um quesito a montante bem mais importante e que devia ter sido colocado pela Câmara Municipal de Lisboa: a cidade tem capacidade de carga para o acréscimo de pessoas que a nova estrutura vai gerar? Basta pensar nas queixas quotidianas sobre o inferno que a cidade se tornou e ver o exemplo de Barcelona, onde um novo aeroporto foi recusado devido ao aumento de turistas que iria criar...

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)