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O avô português que inspirou ‘1917’

Alfred Mendes, avô do realizador Sam Mendes, foi soldado na I Guerra Mundial.
Marta Martins Silva 12 de Janeiro de 2020 às 10:00

Quando era pequeno, o realizador Sam Mendes - que na última cerimónia dos Globos de Ouro levou para casa duas estatuetas pelo filme ‘1917’ – só deixou de se rir do hábito do avô estar constantemente a lavar as mãos quando o pai lhe explicou que ele o fazia porque se lembrava da lama das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, na qual combateu durante dois anos, e de como era difícil manter as mãos limpas naquele cenário sujo e desolador.

O jovem Sam não só deixou de se rir depois de perceber a razão, como começou a insistir com o avô - filho de um imigrante português que partiu da Madeira para escapar de perseguições religiosas, numa altura em que os ingleses deixaram de usar mão de obra escrava nas plantações das Caraíbas - para que lhe contasse mais sobre a guerra.

Alfred Mendes, conhecido por ‘Alfy’, tinha guardado um silêncio de cinco décadas sobre o tema, mas a pergunta do neto levou-o a abrir-se "e a contar muitas e muitas histórias, especialmente depois de um ou dois copos de rum. Ele era muito teatral e carismático. Também era bastante surdo, por isso falava muito alto", confidenciou o neto numa entrevista.

‘Alfy’ nasceu em Trindade e Tobago, em novembro de 1897, o mais velho de seis irmãos de uma família portuguesa. A sua ideia era seguir estudos universitários na área das Letras, mas o deflagrar da Grande Guerra, em 1914, quando tinha 16 anos, mudou-lhe os planos. Não descansou enquanto não viveu o conflito em primeira mão, mesmo contra a vontade do seu pai, e alistou-se para lutar do lado dos ingleses e seus Aliados. Esteve durante dois anos na Flandres, distinguiu-se no campo de batalha (tanto que foi condecorado com uma medalha de guerra) até que inalou o gás venenoso usado como arma pelos alemães e foi mandado de volta para Inglaterra para recuperar dos ferimentos.

"Nunca imaginou o que estava à sua espera. As suas narrativas passaram a ser sobre o sofrimento das trincheiras em vez de atos de bravura. Como era de baixa estatura, era frequentemente escolhido como mensageiro entre trincheiras, tanto que nunca esqueci essa imagem de um homem pequeno que deslizava num horizonte de neblina", contou também o realizador sobre o avô, que viria a morrer em 1991. Deixou uma vasta obra e foi considerado pelo Prémio Nobel da Literatura de 1992, Derek Walcott, como"o pai da literatura caribenha". Esteve muito envolvido na vida social da comunidade portuguesa que vivia em Trindade e Tobago e que era, segundo revela na sua autobiografia, intensa e vibrante no início dos anos vinte. Foi presidente da associação portuguesa e do clube português e quer o seu nome quer o de um dos filhos (teve três rapazes, um deles pai de Sam Mendes) figuraram na placa do clube português como membros fundadores.

As dores da guerra
O Saliente de Ypres – palco de algumas das maiores batalhas da guerra – "era um pântano de lama e um matadouro de homens. Uma área na qual incontáveis ?jovens, a flor da Grã-Bretanha e da Alemanha, perderam a vida, uma área na qual foram disparados incontáveis tiros de canhão, destruindo todas as árvores, plantas e arbustos ali existentes. Muitas crateras feitas por balas de canhão foram também armadilhas para sugar homens vivos e afogá-los - foi a esse setor que chegámos em outubro de 1917", escreveu o avô Mendes na sua autobiografia.

Foram os testemunhos escritos que deixou, bem como as memórias que transmitiu ao neto, que ajudaram Sam Mendes a retratá-lo no filme que é já considerado um forte candidato aos Óscares, depois de se ter sagrado o grande vencedor dos Globos de Ouro, batendo ‘Joker’, ‘Marriage Story’, ‘O Irlandês’ e ‘Os Dois Papas’ - uma escolha inesperada da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood. Sam Mendes já reconheceu em várias entrevistas que o filme nunca teria avançado se não tivesse tido acesso aos escritos do avô.

O argumento de ‘1917’, que Sam Mendes acumula com a realização, conta a história de dois jovens soldados britânicos encarregados de uma missão aparentemente impossível: atravessar o território inimigo e entregar uma mensagem de modo a impedir a morte de 1600 soldados, incluindo o irmão de um deles.

O filme foi rodado no Sudoeste de Inglaterra, onde foram cavados cerca de 760 metros de trincheiras - uma imagem de marca da guerra na Frente ocidental - para o cenário ser o mais realista possível. Um veterano do exército britânico serviu de consultor técnico, porque além da experiência profissional teve três familiares que, à semelhança do avô Mendes, combateram na Primeira Guerra Mundial, ensinou aos atores pormenores técnicos, como fazer continência e manusear as armas.

Paul Biddiss, assim se chama o veterano que ajudou Sam Mendes, também usou manuais de instrução militar da época para criar campos de treino destinados a dar aos soldados a sensação real de como era viver – e sobreviver – nas trincheiras. As personagens principais não são baseadas em pessoas que existiram na realidade. Os atores que deram corpo aos dois soldados que o filme acompanha, George MacKay e Dean-Charles Chapman, já revelaram que ensaiaram as suas cenas durante meses, repetindo movimentos e diálogos até que se tornassem naquilo a que chamaram "uma memória muscular".

Biddiss fez outra coisa: pôs os figurantes a trabalhar e deu a cada um deles cerca de três dezenas de tarefas que faziam parte da rotina diária dos soldados naquele conflito que marcou a história do Mundo. Alguns faziam inspeções aos pés e usavam velas para matar piolhos, outros faziam manutenção de valas, enchiam sacos de areia, prestavam cuidados médicos. E jogavam damas e xadrez usando botões como peças do jogo – para passarem a ideia de tédio que os soldados sentiam nos entretantos da guerra, quando não estavam a combater.

O filme usa uma técnica imersiva que causa a sensação de que o espectador acompanha ativamente a aventura dos dois soldados. "Sam Mendes cria um filme tenso, emocionante e profundamente comovente", disse a BBC. "Impressionante, emocionante, ensopado de sangue e lama, imersivo e inesquecível", resumiu o ‘Chicago Sun Times’. No dia 23 de janeiro poderemos concordar ou discordar: o filme chega às salas portuguesas.

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