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O BRASIL A SEUS PÉS

A vida de Sílvio Santos vai dar um filme. Chama-se Era Uma Vez…no Brasil, e conta a história do Citizen Kane brasileiro desde a altura em que vendia carteiras na rua, até ao sequestro na sua mansão de luxo.
16 de Agosto de 2002 às 21:04
Ele é tão milionário e forreta como o Tio Patinhas, tem uma sorte maior que a do Gastão e um espírito de “desenrascanço” semelhante ao do Zé Carioca. Ele é Sílvio Santos, o “homem do sorriso”, o “craque da lábia”, o maior comunicador do Brasil e quem mais paga impostos no país do samba.

Aos 12 anos, Senor Abravanel (seu verdadeiro nome) fugia das salas de aula para jogar à bola e ir ao cinema com um dos seus cinco irmãos, Leon. Numa tarde, os berros da mãe surtiram efeito e Senor teve que ficar em casa. Foi a sua sorte. A sala de cinema onde pegou fogo e muitos ficaram feridos.

O clã Abravanel era remediado até ao momento em que o chefe de família se viciou no jogo. O dinheiro deixou de aparecer e Senor teve que ir trabalhar como camelot, vendedor de rua ilegal. O fluminense de 14 anos apregoava carteiras e canetas e chegou a ganhar cinco salários mínimos num só dia. O segundo golpe de sorte surgiu quando um fiscal da câmara em vez de o prender, como fez com todos os outros camelots, deu-lhe a hipótese de participar num programa na Rádio Guanabara, depois de reparar na sua voz e bom aspecto. Senor disputou a vaga com 300 candidatos, entre eles Chico Anísio, e ganhou. Mas o parco salário não o convenceu e um mês voltou a vender bugigangas.

O Baú da Felicidade, a sua primeira empresa, nasceu quando já tinha mais de 20 anos. Sílvio vendia brinquedos por catálogo. Mas ele atacava em todas as frentes: lançou uma revista, fez circo e apresentou um programa na TV Paulista. O esforço seria recompensado, em 1966, quando Roberto Marinho, patrão da Rede Globo, comprou a TV Paulista e pediu a Sílvio para apresentar a maratona do Domingão Global, que entraria para o Guiness Book. Do meio-dia às oito da noite, dava o litro em programas como Show dos Caloiros, Show da Loteria e Quem Sabe Mais, o Homem ou a Mulher?.



O “pai” do Ratinho

Nascia uma estrela, que conseguia manter a custo a vida privada. A 15 de Março desse ano, casava com Aparecida Vieira. O matrimónio terminaria em 1973, altura em que ela morria, vítima de cancro.

No ano seguinte, Sílvio criava uma empresa de cinema e TV e comprava 50 por cento do capital da TV Record, sem o conhecimento de Roberto Marinho. A ruptura com a Globo deu-se a 5 de Março de 1976. Pouco depois, fundava o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), que apostava em programas baratos e populares, como novelas mexicanas e séries de baixo orçamento. Enquanto o canal ia conquistando o seu espaço próprio, Sílvio conquistava o coração de Íris Pássaro. O namoro transformou-se em casamento e, em 1981, jurou fidelidade à mulher de quem teve quatro filhas (Daniela, Patrícia, Rebeca e Renata).

No final de 1987, um tumor na pálpebra esquerda obrigou-o a retirar-se de cena. Quando regressou, era considerado quase um Deus para os milhões de brasileiros que não perdiam o seu Show do Milhão.

Só faltava mesmo dar uma perninha na política. O PRN tentou convencê-lo a ser vice de Fernando Collor de Melo, durante as eleições presidenciais de 1989. Sílvio respondeu: «Na minha vida nunca fui vice. Só Presidente.» Por isso, criou um partido só seu, o PMB, que seria impugnado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Ainda tentou a sorte em eleições para governador e presidente da câmara, mas seria sempre derrotado. Na década de 90, o seu canal passava a ocupar o segundo lugar na grelha de audiências, ameaçando a hegemonia da Rede Globo. Gugu, Jô Soares e Ratinho eram os craques do SBT e nem a saída de muitos para outras estações lhe abalou a moral. Atento às mudanças de gostos dos telespectadores, deu-lhes os reality shows por que tanto ansiavam - como o Big Brother e a Casa dos Artistas.

A sua vida podia ter terminado mal se Fernando Pinto, vilão que o sequestrou a si e à sua filha Patrícia, na sua mansão do bairro chique do Morumbi — em Setembro de 2001 — tivesse perdido a cabeça e os matasse. «Vamos resolver isto com calma», disse Sílvio ao criminoso, que acabou por se render. «Senti-me no filme A Vida É Bela. A guerra acontecia e eu estava mesmo ali», confessou no regresso a casa.

Aos 71 anos, a sorte continua ao seu lado.
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