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O conselheiro trotskista

Ex-coordenador bloquista aconselhará quem tanto criticou. Vai para o Banco de Portugal dar bitaites pagos a almoços.
Miriam Assor 19 de Março de 2017 às 15:00
Francisco Louçã
Francisco Louçã FOTO: Miguel Ganhão

No dia mais longo do ano, a porta da sua casa na rua Duque de Loulé abre para os amigos. Num primeiro andar, descalços, na maioria, todos comemoram o momento em que o astro-rei atinge a maior declinação em latitude.

Um convidado, de tantos anos, jura que a pureza do Homem dispensa sapatos e diz que a festa em honra do Solstício de Verão é uma iniciativa cultural onde, entre outros segredos, se come bem. Francisco Anacleto Louçã, 60 anos, não é só um perito em Economia. É também um especialista em bacalhau espiritual. Nas suas mãos, o espírito do paladar fica no ponto. Um comunista saudoso da RDA brinca com um tempero diferente: "Desenxabido, minha senhora, é ver um partidário de Trotsky no Conselho Consultivo do Banco de Portugal (BdP)".

Em 2016, o forno aquecera no que toca ao governador Carlos Costa, considerado por Francisco Louçã "um perigo para Portugal". Este primo de Vítor Gaspar gosta de sabores exóticos vindos da Tailândia e Vietname, é um acérrimo cinéfilo e pode ser visto num filme de contradições. Para alguns, o seguidor de Ernst Bloch, o filósofo da Utopia e da Esperança, estará perdoado se as senhas de presença e as ajudas de custo, previstas na Lei Orgânica do BdP, afinal, forem meras alienas. Miguel Beleza, membro do referido Conselho, deixa-se ser citado: "Nunca recebi nada. Só almoços".

Francisco Anacleto Louçã, saído da direcção Bloco de Esquerda pelo próprio pé, nos bancos de escola sentava-se na primeira fila. Pedro Santana Lopes preferia a última. Padre Armindo Garcia, que leccionava Religião e Moral no Liceu Padre António Vieira, em Lisboa, ainda ri desse pormenor.

NETO DE DEPUTADO DO PPD
Aluno atento, bem comportado, foi suspenso com alguns colegas por causa de uma greve. No recreio recusou 20 tostões do colega que viria a ser o mais breve primeiro-ministro. Para os receber deveria dizer um palavrão, e dos feios, em voz alta. Aos 10 anos como agora, as palavras chegam-lhe de uma racionalidade glacial que jamais o converterá num homem emotivo. Dizem que não perde a cabeça. Dizem igualmente que as notas máximas que obteve ao longo da biografia souberam-lhe domar as estribeiras. Em tempos, no Parlamento, irritou-se tanto com Paulo Portas que lhe atirou a faca de que já tinha visto um riso de uma criança. Viu o da filha, Joana. A mulher terá visto muitos mais: é directora do serviço de obstetrícia da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.

Neto de um deputado da bancada do PPD e descendente de um militar e de uma aluna de Marcelo Caetano, a religião não teve papel relevante na sua vida ao contrário da Igreja Católica. Francisco Pereira de Moura, seu professor, que fora com ele preso na vigília da Capela do Rato, levou três livros para a eternidade, um deles é a tese de doutoramento de Louçã.

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