Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
3

O dia em que o Ocidente acordou

A efeméride não serve apenas para honrar os mortos. Serve também para alertar os vivos: a História é a prova de que os recordes existem para serem batidos.
6 de Setembro de 2009 às 00:00
Atentado no coração dos Estados Unidos. O impensável aconteceu a 11 de Setembro de 2001
Atentado no coração dos Estados Unidos. O impensável aconteceu a 11 de Setembro de 2001 FOTO: Direitos reservados

1. O chão estremece. Onde é que estavam no 11 de Setembro? A pergunta não é para todos. Só para alguns: companheiros de geração, nascidos depois do 25 de Abril, e que tiveram no 11 de Setembro o momento histórico das suas vidas. Desconfio que todas as gerações têm momentos assim: um acontecimento que faz estremecer o chão onde vivem.

No 11 de Setembro, eu estava em casa, à mesa. Sentado e aterrado. O primeiro avião chocara com a primeira torre e os meus velhos medos de voar regressaram à superfície. A tecnologia pode ser o único deus a que os descrentes se permitem. Mas a tecnologia é operada por humanos. E os pilotos são humanos. Os pilotos erram.

Engano meu: depois do primeiro avião, um segundo entrava em cena. Durante segundos, ou milésimos de um segundo, o intelecto humano fica suspenso sobre o abismo da realidade. Até cair nas profundezas. O segundo avião era a prova de que não havia erro humano, mas maldade humana. O segundo avião era a prova de que o mundo presenciava o início de algo de novo. Mas o início de quê?

A resposta verdadeira seria dizer: o início de nada. Mentes apressadas desataram a opinar em jornais ou televisões, declarando aberta uma nova época na história do mundo: a chegada do terrorismo suicida e niilista, capaz de ameaçar e destruir as nossas mais básicas rotinas.

Acontece que esta interpretação ignorava tudo o que sucedera na década anterior. O 11 de Setembro, apesar da monstruosidade evidente, era apenas uma continuação, não uma inauguração: de Israel à Indonésia, da Turquia ao Paquistão, da Austrália ao Quénia, havia pegadas de horror e sangue que o mundo não via. Que o mundo preferia não ver. Quando os talibãs tomaram Cabul; quando o Sudão era usado como base para a 'guerra santa'; quando embaixadas americanas eram atacadas e bombardeadas em África, o que estava o Ocidente a fazer?

Obviamente, a festejar.

2. O FIM DA HISTÓRIA?

O ano de 1989 foi um ano feliz. A 'Guerra Fria' desabava com o Muro de Berlim; e a mentalidade desse período desabava também. O Ocidente já não precisava de temer a desacreditada potência soviética, que a prazo estaria condenada. A própria NATO pensou seriamente se não seria hora de fazer as malas e fechar a loja: para quê continuar, se o inimigo não continuava? Francis Fukuyama, com patético e confrangedor optimismo, expressava o espírito do tempo ao afirmar que a alternativa liberal não só era universalmente válida como universalmente apelativa. A História chegara ao seu termo.

A arrogância hegeliana de Fukuyama é hoje motivo de riso ou escárnio. Mas ela não é totalmente singular na longa história da arrogância humana. Em 1914, as potências europeias marchavam para as trincheiras com o simpático propósito de terminar com todas as guerras.

Sabemos hoje que a Primeira Guerra não terminou com todas as guerras. Podemos até dizer que a guerra, em rigor, não terminou em 1918, mas em 1945. Qualquer manual de História o dirá: a Primeira Guerra, reforçada posteriormente pela Grande Depressão e pela fraqueza das democracias que emergiram depois de 1918 em lidar com esta, acabaria por gerar a Segunda.

Existe, porém, uma história insuficientemente contada, passada mais a Oriente: a Primeira Guerra não destroçara apenas os velhos impérios da Europa. Ela marcaria o princípio do fim do poder otomano, que se esboroava perante os olhos horrorizados de quem sempre prezara a unidade do Califado. A Primeira Guerra não lançava apenas as bases da Segunda; ela produzia as sementes do Islamismo: nos escritos de Hassan al-Banna, Sayyid Qutb ou Abdul Ala Mawdudi, emergem os princípios de um visceral e endémico 'ocidentalismo': o horror do Islão à contaminação 'herética' do Ocidente em terras do Profeta.

A Europa continuou o seu destino; e, em 1939, reabria-se um novo episódio de horror e mortandade bélica. Todos conhecemos os resultados da aventura: a derrota do nazismo e a vitória dos 'Aliados', o que naturalmente incluiu a vitória da URSS (apesar do pacto Molotov-Ribbentrop) e o domínio soviético a Leste.

Mas seria um erro acreditar que a derrota dos nazis significou uma derrota do nazismo como visão totalitária das sociedades políticas. O anti-semitismo do Reich; o seu desprezo visceral pelas democracias liberais; e o seu fulgurante anti-racionalismo, expresso na adesão fideísta ao 'líder' e à 'causa', mudaram apenas de palco e continuaram no Islão, com as inevitáveis adaptações regionais. O filósofo John Gray resume o fenómeno quando afirma que o islamismo, que emergiu com força inaudita no 11 de Setembro, é o resultado de uma doença que ele próprio pretende curar. Essa doença é a ilusão utópica, e paradoxalmente 'moderna', de que é possível recriar um estado perfeito e redimido por mãos exclusivamente humanas. O islamismo deplora o mundo moderno e pós-iluminista; mas ele é um produto desse mundo na sua ambição totalitária.

3. O DIA EM QUE O OCIDENTE ACORDOU

O Ocidente acordou no dia 11 de Setembro de 2001. Mas, como sucede quando o sono é brutalmente interrompido, os contornos da realidade eram ainda difusos. O que se entende: o 'fim da História' mais não era do que o fim das grandes ideologias. Esse era o problema: um Ocidente pós-ideológico encontrava-se subitamente confrontado com um inimigo poderosa e fanaticamente ideológico. Como sucede com certas notícias fatais, o Ocidente tentou negar e racionalizar essa evidência. Numa sofrível recusa da literariedade, o terrorismo declarava os seus propósitos em palavras ou actos: punir os infiéis. O Ocidente desculpava a agressão verbal e real dos seus inimigos com as autoflagelações da praxe: a fome de petróleo; os crimes do colonialismo; a simples existência, e sobrevivência, de Israel. Tudo servia para apagar a certeza tenebrosa da mentalidade islamita: a de que nós amamos a vida; eles amam a morte.

Oito anos passaram. Oito anos de histerias, medos e erros. O maior de todos os erros talvez tenha sido o Iraque, e não pelos motivos usualmente citados. O território é uma colecção de tribos que se abominam mortalmente? Verdade. Mas o erro iraquiano é mais primário e, no sentido verdadeiro do termo, mais radical: a destruição da estrutura política sunita no Iraque permitiu a ascensão do Irão xiita, que será a prazo a primeira potência islâmica e teocrática com capacidade nuclear. Uma potência que expressa publicamente os seus intentos genocidas, pela boca paranóica e anti-semita de Mahmoud Ahmadinejad, recentemente reeleito. O Ocidente, uma vez mais, recusa-se a ouvir, muito menos a acreditar.

De certa forma, é compreensível: oito anos depois do 11 de Setembro, continuamos em negação. Como se isso nos permitisse regressar ao dia 10. Infelizmente, o tempo não recua, não pára e só conhece um sentido: o futuro. Recordar o 11 de Setembro não serve apenas para honrar os mortos. Também serve para alertar os vivos. Como na velha piada judaica, a História da Humanidade é a prova funesta de que os recordes existem para serem batidos.

UM FILME: ‘MAN ON WIRE/HOMEM NO ARAME’ DE JAMES MARSH

O filme, já disponível em DVD, venceu o Óscar respectivo em 2009. Mereceu. ‘Homem no Arame’ é o relato de uma aventura nas nuvens: a aventura do trapezista Philippe Petit que, em Agosto de 1974, caminhou sobre o arame entre as Torres Gémeas. Verdade que o filme não refere o 11 de Setembro uma única vez. Mas o 11 de Setembro paira sobre o filme do primeiro ao último minuto: ao narrar a sua odisseia 'ilegal' para passear entre as torres, Philippe Petit demonstra como podem existir 'crimes perfeitos' no mesmo local onde a selvajaria islamita cometeu a atrocidade de 2001. Ao vermos Petit entre as duas torres, somos capazes de substituir o horror estético daquela manhã de Setembro pela beleza de um passeio matinal e aéreo que deslumbrou o mundo.

UM LIVRO: ‘THE SECOND PLANE’ DE MARTIN AMIS

Os textos de Martin Amis sobre o 11 de Setembro na imprensa britânica e norte-americana foram crucificados pela intelligentsia politicamente correcta. Amis, provavelmente o melhor prosador inglês de hoje, agradeceu as críticas e, como resposta, resolveu reeditar os textos em livro. Vale a leitura: pela qualidade literária do produto mas também pelo essencial da reacção de Amis, que foi capaz de ver no islamismo moderno uma emanação da mentalidade revolucionária (e totalitária) do século XX.

UM NOME: DAVID ANGELL

Todas as vidas humanas têm igual dignidade. As vítimas do 11 de Setembro não devem ser hierarquizadas por importância social ou intelectual. Mas minto se não lembrar que um dos aviões que embateram nas torres levava a bordo um dos mais talentosos argumentistas e produtores americanos do nosso tempo. Falo de David Angell, que criou e produziu a melhor comédia televisiva dos anos 90, essa década arcádica: ‘Frasier’, eis o título; ou a história do psiquiatra de Seattle que fala e se comporta como as personagens de Noël Coward. Quem viu, não esquece. Quem não esquece, não perdoa.

 

Ver comentários