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O eclipse das mulheres peladas

A ‘Playboy' brasileira já não mostra as estrelas das novelas em nudez integral. As vendas caíram e a revista está em risco.
23 de Junho de 2013 às 15:15
Capas da Playboy Brasil
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A submissão de cada edição da ‘Playboy' brasileira ao exame do censor da ditadura militar envolvia rituais tão inventivos quanto o ‘boi de piranha'. Sabendo que praticamente toda a nudez seria vetada, os responsáveis pela publicação - então chamada ‘A Revista do Homem', pois o ministro da Justiça, Armando Falcão, implicara com o nome e a marca criados pelo norte-americano Hugh Hefner - apresentavam fotografias excessivamente explícitas, para aumentar as hipóteses de as que realmente pretendiam poderem ser vistas pelos leitores.

Trinta e oito anos após a fundação, o problema da ‘Playboy' é igualmente grave e não se resolverá com alterações políticas no país sul-americano: cada vez menos brasileiros assinam a revista ou vão procurá-las às bancas - ‘para ler as entrevistas', como é óbvio... -, pelo que as vendas caíram a pique nos últimos anos. Em vez de ultrapassarem a fasquia do milhão de exemplares - sucedeu duas vezes em 1999 -, as revistas mais recentes ficam aquém dos 150 mil, chegando a ser noticiado o encerramento da revista, poucos dias após a morte de Roberto Civita, líder do Grupo Abril e principal responsável pelo seu nascimento.

Clique na foto em baixo para ver a fotogaleria das capas da Playboy brasileira que fizeram sucesso  

O encerramento ainda não foi assumido pelos novos homens-fortes da Abril, Giancarlo Civita e Vítor Civita Neto, representantes da terceira geração da família com raízes ítalo-americanas que publica, entre muitas outras revistas, a ‘Veja', ‘Caras' e ‘Exame'. Perante a necessidade de uma reestruturação do grupo, que já terá implicado o despedimento de dezenas de chefias, a ‘Playboy' tem sido apontada, num rol de que também fazem parte a ‘Capricho' e a ‘Contigo', como uma das sacrificadas. Contactada pela Domingo, a Abril não confirmou, ou desmentiu este plano.

NÁDEGAS A DECLARAR

Muito antes da internet, que pôs termo à necessidade de comprar revistas para ver fotos de mulheres nuas, e dos cachês literalmente milionários que inflacionaram os custos da revista - a ‘Playboy' chegou a pagar um milhão de reais (340 mil euros) a algumas das estrelas que se apresentaram tal qual vieram ao Mundo, juntando a essa soma percentagens generosas do preço de capa -, ‘A Revista do Homem' lidava com as regras impostas por um regime que via no erotismo uma ofensiva comunista para subverter os valores da família.

Depois de cortados os ‘bois de piranha', enviados para os censores verem em tudo o resto um mal menor, sobravam entraves irónicos perante o que seria feito nas décadas seguintes: as nádegas só podiam aparecer de perfil e os dois seios não deviam ser visíveis em simultâneo - isto, claro está, com os mamilos devidamente cobertos. Para os editores da revista, o desafio era esticar o limite todos os meses, mesmo que fosse preciso contorná-lo. "Especializámo-nos em tirar fotos de menina bonita de camiseta molhada", gostava de recordar Roberto Civita.

"Não acho que a ‘Playboy' tenha afetado ou sofrido muito com a ditadura. Na época da censura, houve coisas ridículas, como o número de seios que era permitido aparecer em cada número, mas a censura moralista é sempre ridícula, seja feita por uma ditadura ou por outros grupos de pressão", defende, em entrevista à Domingo, o escritor brasileiro Luis Fernando Verissimo, de 76 anos, concordando que a versão brasileira da revista, que conheceu desde o primeiro número, pois residia nos EUA quando Marilyn Monroe foi convencida a aparecer na capa, prima por ser "mais bundófila do que peitófila".


Fevereiro de 1980 foi o mês em que deixou de haver censura prévia para as revistas de conteúdo erótico, como aquela que entretanto fora autorizada a utilizar o nome ‘Playboy' - embora ainda hoje exiba ‘A Revista do Homem' abaixo do logótipo. Já antes tivera estrelas das telenovelas a enfeitar a capa e as páginas centrais - Betty Faria fora o destaque de agosto de 1978 -, mas a partir daí deu-se a descoberta de um mundo novo. Lucélia Santos, protagonista da telenovela ‘Escrava Isaura' fez a primeira das suas duas capas em abril de 1980, enquanto Vera Fischer lhe seguiria o exemplo em agosto de 1982 e Christiane Torloni avançaria em março do ano seguinte.

EM CASA DA TIA

A ‘Playboy' também tinha compradores em Portugal, mas saber qual foi a primeira edição que Francisco José Viegas teve nas mãos é difícil. "Lembro-me das primeiras, porque foi quase um ano de edições que descobri em casa de uma tia minha, no Porto. E há capas que ficaram na minha memória", diz o escritor e editor livreiro, de 51 anos, que destaca as "entrevistas notáveis" a Pelé, Nelson Rodrigues, Paulo Francis e Fernando Henrique Cardoso, sem deixar de referir que "as mulheres peladas é que eram fundamentais". E sublinhando o efeito de observar a nudez de Luiza Tomé, capaz de lhe provocar tremores à distância de duas décadas.

Pelo contrário, o humorista José de Pina, de 50 anos, garante que a relação que tinha com tais revistas "era a mesma que o Bill Clinton teve com a Monica - só folheava". "Nunca inalei esses produtos", afirma quem defende que "a ‘Playboy' brasileira estava para a ‘Playboy' original como estão agora as equipas B para as equipas principais".

Tanto assim que se recorda de uma única capa da revista importada do outro lado do Atlântico. Aquela em que aparecia Sónia Braga - a de setembro de 1984, após a atriz ter protagonizado o filme baseado no romance de Jorge Amado, que antes dera origem à telenovela que teve o condão de parar Portugal inteiro -, pelo que José de Pina tem uma tese quanto ao álibi a que todos recorriam. "Acredito que muitos homens na altura comprassem a ‘Playboy' brasileira com a desculpa das novelas: ‘Olha, comprei esta revista com a Gabriela.'"

Francisco José Viegas dificilmente poderia concordar menos com a desvalorização da revista. "Imagine-se o que era ver a Maitê Proença pelada, a Isadora Ribeiro, ou a Alessandra Negrini, ou a Paloma Duarte... Nessa altura, os intelectuais portugueses detestavam o Brasil, tirando a música do Chico [Buarque], do Caetano [Veloso] e do [Gilberto] Gil, por exemplo. Aquilo, aquelas fotos, eram uma vingança contra os aborrecidos de todas as gerações."

'BIGODINHO DE HITLER'

Produzida num país multirracial, a ‘Playboy' brasileira nunca primou por ter muito mais diversidade do que o original. Um estudo realizado pela publicação aquando do 35º aniversário deixava claro que a ‘Playboy' não se afastava muito do ‘ideal' da loira alta, de olhos azuis, bronzeada na praia e com a marca do biquíni. Apesar de haver ‘apenas' 743 loiras, contra uma maioria absoluta de 1152 morenas, as minorias étnicas - longe de serem assim tão minoritárias no Brasil - estavam representadas por apenas 87 negras, 15 orientais e duas índias.


 

Outra transformação foi subtilmente registada como a passagem "da floresta negra à serra pelada". Francisco José Viegas reconhece que sente "uma nostalgia brutal" dos tempos que precederam o triunfo do ‘brazilian wax' integral, mas a verdade é que alguns elementos da equipa da ‘Playboy' ficaram espantados quando Claudia Ohana revelou uma densidade de pelos públicos - ou pubianos, como se diz em terras de Vera Cruz -, que tornou inesquecível a edição de janeiro de 1985.

A chegada da nudez frontal aos ensaios fotográficos, muitas vezes assegurados pelo reputado J. R. Duran, permitiria observar de forma mais detalhada a evolução das modelos. No fim dos anos 80, começou a avançar a depilação íntima, ficando para a década seguinte o triunfo do ‘bigodinho de Hitler', designação para a pequena tira de pilosidade deixada acima da vulva. Mas também isso acabaria por ser considerado excessivo, e nos anos mais recentes aumenta o número de modelos com depilação integral. Não tão radical, mas marcante, foi a apresentadora Adriane Galisteu, ex-namorada de Ayrton Senna, que teve a capa mais vendida de sempre (961 527 exemplares em agosto de 1995) graças à fotografia em que se rapava com uma lâmina de barbear.

FEITICEIRAS E TIAZINHAS

Adriane viria a ser ultrapassada duas vezes em 1999, e por dois símbolos de uma viragem na revista. Primeiro foi a ‘Tiazinha', rainha do sadismo light, cuja venda e chicote fascinavam quem via o ‘Programa H'. A modelo, de seu nome Suzana Alves - hoje é instrutora de Pilates e casada com um tenista -, revelou-se aos ‘sobrinhos' e resultou na compra de 1 223 000 revistas em janeiro. Seguiu-se, já em dezembro, a ‘Feiticeira' - outra figura do mesmo programa, chamada Joana Prado, que vendeu mais 24 mil exemplares do que a rival.

A revista não deixou de desafiar estrelas da Globo a despirem-se - Deborah Secco, Juliana Paes e Flávia Alessandra foram três das últimas -, mas começaram a rarear ensaios como o que levou Maitê Proença a Itália em 1996. As bailarinas e participantes de reality shows aumentaram, enquanto as vendas iniciavam a curva descendente que põe a revista em risco.

Para o crítico e professor universitário Eduardo Cintra Torres, que assume nunca ter comprado ou sequer visto a revista, a decadência da ‘Playboy' deverá residir na junção da aposta em mulheres que "estão em todas as publicações baratas" e no facto de depender de um erotismo que "deixou de ser transgressor, novo ou provocador".

"Hoje, quem quer pornografia vai à net, e o sexo está em todo o lado, do telejornal às outras revistas de família", defende Francisco José Viegas, lamentando que a omnipresença do sexo tenha destruído "aquela pontinha de hipocrisia deliciosa".

Cáustico, José de Pina responde com um "ainda existe?" à pergunta sobre a possibilidade do encerramento, enquanto Eduardo Cintra Torres não vê razão para o Grupo Abril manter um dos seus símbolos: "A revista é um negócio, não é um serviço público. Se dá prejuízo é porque não atrai leitores: os donos fecham-na e passa-se à frente."


Pelo contrário, Luis Fernando Verissimo pensa que, se acabar, "certamente fará falta: "Embora poucos leitores a comprassem por outra razão que não as peladas do mês, a revista cultivava uma certa sofisticação, alguns bons textos e muito humor." Tanto que o levou ao México em 1986. "O que um correspondente da ‘Playboy' estava fazendo numa Copa do Mundo?", perguntavam-lhe.

CRIADOR DA REVISTA MORREU NO ANO PASSADO

Roberto Civita tinha o sonho de fazer as versões brasileiras das revistas ‘Time', ‘Fortune' e ‘Playboy'. Tanto tinha que convenceu o seu pai, Victor Civita, primeiro líder do Grupo Abril, a fundar a ‘Veja', revista de informação geral que continua a ser a mais influente do país sul-americano - e a mais odiada pelo Partido dos Trabalhadores, devido à investigação de escândalos como o ‘Mensalão'. Também viu nascer a ‘Exame' e empenhou-se na atribulada criação da ‘Playboy' num país governado por uma ditadura moralista. Faleceu a 26 de maio, aos 76 anos, deixando aos filhos um grupo editorial em dificuldades.

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