Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

O lado negro da pandemia

Não nos podemos dar ao luxo de pensar que as democracias liberais são eternas
Maria Filomena Mónica 10 de Maio de 2020 às 06:00

No meu último artigo mencionei os homens e mulheres que me têm dado consolo nos tempos difíceis que atravesso. Mas há outros casos de bondade. Estou a pensar na médica Inês que não pode ir dormir a casa porque tem de cuidar de doentes atacados pela Covid-19, da aluna Constança que, com umas amigas, se ofereceu para ir para um lar em Trás-os-Montes, na jovem Joana que transporta comida, como voluntária, a quem não se pode deslocar. Todavia, estes factos não nos devem fazer esquecer que, ao lado do Bem, existe o Mal. Há quem especule com o preço das máscaras, do álcool e das luvas.

Há quem assalte as casas dos velhos. Há quem aproveite a quarentena para ver filmes pornográficos na TV. Há quem, por egoísmo, despreze as regras sobre o confinamento social.

Como se isto não bastasse, as teorias da conspiração multiplicaram-se. Note-se que não tenho Facebook nem frequento as redes sociais, mas isso não tem impedido de me chegarem a casa teorias sobre os ‘culpados’ da pandemia.

Durante semanas, li estes disparates com sobranceria até que recordei o que Peter Gay nos diz na sua obra ‘Weimar Culture: The Ousider as Insider’, ou seja, que não nos podemos dar ao luxo de pensar que as democracias liberais são eternas.

Eis um exemplo do que circula nalgumas mentes: "Estou fartíssimo da pandemia maoista e da porcaria das notícias dos media onde só falam obedientes e incompetentes sobre o nº de mortos, os quais nos vão levar à 4ª bancarrota em ‘democracia’ (1979, 1983, 2011 e 2020) com o País com um deficit de 130%, funcionários públicos que passaram de 190 mil em 1968 para 700 mil em 2018 que não pagam a crise nem vão para ‘lay-off’ e impostos como nunca se viu depois de terem delapidado todas as reservas acumuladas e do crédito de Portugal estar ao nível do lixo, com todos os corruptos à solta.

Alguém tem de ser responsabilizado. (…) Espero que seja o ‘expurgo’ das ‘irmandades’, ingenuidades e culturas da treta lendo jornais. Muito poucos serão aproveitados. A actual juventude nada tem a haver com a antiga. Sabem muito bem que foi a geração post 25/A que lhes deixou, e aos filhos, uma ‘pesadíssima herança’ que vai demorar dezenas de anos a pagar após ter sido espatifada a riqueza deixada anteriormente e ter vendido a soberania a troco de um prato de lentilhas a que chama ‘solidariedade europeia’ mas que se paga com juros. Com a intelectualidade ‘democrática’ a apoiar regimes ‘socialistas’ que nada criaram, pelo que nada havia a redistribuir. A História o confirmará."

Eis um caso, apenas um, que há dias surgiu no écran do meu computador. Evidentemente que, na mente destes frustrados, a culpa é dos judeus. Sabemos como isto acaba. E é por isso que temos de impedir que o Inimigo se apodere da cidade.

Livro: Reler um ensaio de George Orwell
Neste momento de reclusão social, pode escolher livros que a façam rir, como, por exemplo, ‘I Feel Bad About My Neck’, de Nora Ephron, ou, desde que livre de pieguices, relatos sobre doenças, enfermarias e hospitais. Hoje, escolhi reler o ensaio de G. Orwell ‘Como Morrem os Pobres’. É uma obra-prima.

Livro: Portugal em Moçambique durante a Grande Guerra
Acabo de ler ‘A Guerra Que Portugal Quis Esquecer’. Sabia alguma coisa sobre o que, durante a I Grande Guerra, se tinha passado com a tropa portuguesa na Flandres, mas nada sobre o que ocorrera nas colónias. O autor teve
a sorte de ter encontrado numa arca o manuscrito de um combatente, o que não lhe retira o mérito.

Pandemia: Um aplauso para as empregadas de limpeza
Tendemos a louvar os médicos e os enfermeiros. Mas é preciso não esquecer as empregadas da limpeza que contribuem para que a infeção se não propague. Recordei-as por há dias ter lido a resposta de Filomena Simões, uma das responsáveis pela limpeza da UCI do Curry Cabral: "Temos de limpar. É o nosso trabalho".

Fugir de…Trump e não só
Na China, a chefe das Urgências do Hospital Central de Wuhan, Ai Fen, desapareceu após ter dado entrevistas nas quais declarava que tanto ela como colegas seus haviam sido impedidos de alertar para o perigo do coronavírus. Por seu lado, o Presidente da República D. Trump aconselhou os americanos a curar a doença ingerindo detergente ou lixívia, após o que, perante as críticas, declarou que estava a ser "sarcástico".

+ info
Sem notarem o "sarcasmo" do presidente, muitos americanos apressaram-se a seguir o conselho. Nos dias imediatamente após a declaração de Trump, o centro de informação antivenenos norte-americano reportou centenas de casos. Por todos os EUA, milhares de pessoas pediram informação sobre o assunto e muitas ingeriram detergente.

Trás-os-Montes Inês Bem TV Covid-19 Constança Joana Mal Portugal Trump questões sociais política
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)