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O pequeno grande negócio da música

Xana Toc Toc ou os Caricas são desconhecidos entre quem não tem filhos. Mas os ídolos dos miúdos são assunto sério
6 de Janeiro de 2013 às 15:00
Xana Toc Toc e David Alves com um (muito) jovem fã
Xana Toc Toc e David Alves com um (muito) jovem fã FOTO: João Cortesão

O auditório da Fnac Chiado, em Lisboa, fica pequeno quando uma multidão de famílias o toma de assalto para conquistar um precioso autógrafo da Xana Toc Toc. Quem é ela? O novo ídolo da gente de palmo e meio, que canta e vibra ao som das suas canções. Por causa dela e de outros produtos infantis, a indústria discográfica recupera o fôlego, sobretudo no Natal, pois quando é altura de os adultos fazerem contas, está provado que é nos filhos que menos cortam. Cinda, mãe de Nicole, de três anos, comprova-o: "Antes comprava música para mim, mas agora é só para ela. O dinheiro não dá para tudo e neste momento eles são a prioridade", confessa, depois de sair vitoriosa com o disco autografado na mão. Só Nicole não desgruda os olhos do palco, com a mão a teimar num prolongado e sentido adeus.

Os fãs de Xana Toc Toc são pouco mais do que um metro de gente, que em bicos de pés e equilibrando-se a custo, aguarda na fila para os autógrafos. Nas mãos, biberões e chuchas. Apesar disso, esperam estoicamente mais de duas horas pelo autógrafo, uma foto e um beijinho. Os sorrisos igualam as birras na hora da despedida. Ao final da manhã, a segurança da Fnac foi obrigada a barrar o acesso às famílias que não paravam de chegar, para poder pôr termo à sessão. O entusiasmo de Kyra, de cinco anos, ilustrava o pouco que sabe explicar: "Gosto muito da Xana... de cantar e dançar com ela." E mais não é preciso.

NÚMEROS DE OURO

Tamanha paixão justifica que os novos ídolos da pequenada tenham sido em 2012 reis e senhores das tabelas de vendas de discos, DVD e espetáculos, quer no período Natal, quer fora dele.

Longe dos tempos de Suzy Paula com o seu ‘Areias’ ou dos Queijinhos Frescos de Ana Faria, agora são projetos como Xana, os Caricas ou as ‘As Canções da Maria’ que dão música aos putos e muito lucro.

O primeiro vídeo da Xana Toc Toc surgiu no Canal Panda em Abril de 2011. Contava a história de uma menina que "chegou à Ilha dos Sonhos e foi à procura de uma casinha para morar". O sucesso foi estrondoso e o disco não se fez esperar. Chegou no verão (2011), acompanhado por um DVD. Uma semana depois açambarca o primeiro lugar das vendas. O DVD mantém-se ainda no top 5 de vendas até aos dias de hoje, 75 semanas depois. Já é tripla platina.


O segundo trabalho, lançado em Novembro de 2012, saltou diretamente para o número um. Os espetáculos, é certo e sabido, esgotam: em Outubro, mesmo com sessões duplas, os coliseus do Porto e de Lisboa viram-se a abarrotar de miúdos e graúdos, mesmo com o bilhete mais barato a rondar os 15 euros. Saíram ainda mochilas, livros, canecas, ganchos, bandoletes para o cabelo e t-shirts, para desafio adicional dos orçamentos familiares.

Entrevistas só podem ser dirigidas à personagem e não à artista, que na verdade se chama Alexandra Abreu, e, além das canções, também dá cartas na pintura, ilustração e design, credenciais que foram igualmente postas ao serviço do projeto, idealizado e executado em casa, em parceria com o companheiro, David Alves.

O SUCESSO DOS CARICAS

Os Caricas são uma banda composta por quatro jovens cantores e atores que para os mais pequenos assumem as personagens de Pipa, Clarinha, Matias e Pedro – nasceram em maio de 2012 em DVD e CD.

O vídeo conquistou o galardão de ouro duas semanas após a data de edição. A tripla platina foi atribuída seis meses após a data de edição. Em Dezembro, os Caricas andaram em digressão por todo o País. Em Lisboa, no Campo Pequeno, num único fim de semana fizeram três sessões consecutivas esgotadas. Números de fazer inveja a qualquer outro artista português.

A aposta no segmento é apetecível, explica Tiago Palma, A&R (responsável pela seleção de artistas e repertório) da editora Universal, que detém os direitos de ambos os projetos: "Havia uma lacuna de propostas para crianças com qualidade. A aposta passa por bons produtores para as músicas, bons realizadores para os vídeos, escolhendo repertório inédito que tenha tanto uma componente lúdica como uma componente educacional, dando assim origem a conceitos que possam ser apreciados pelas crianças, e que os pais também gostem de ouvir e que os filhos ouçam", justifica.

A vertente pedagógica dos conteúdos é muitas vezes o que leva os pais a concluir que um CD ou um DVD pode ser uma boa aquisição.


Prova disso é o sucesso do primeiro trabalho de música infantil (‘As Canções da Maria’) da psiquiatra e ex-radialista Maria de Vasconcelos. Os seus temas versam sobre matérias da escola: ‘Os Ditongos a Cantar’, ‘O Sistema Solar’ ou ‘Contar pelos Dedos’ são alguns títulos das suas canções.

Maria de Vasconcelos, que sempre escreveu músicas "a torto e a direito", conta que a entrada das filhas para a escola levaram-na a fazer músicas para que mais facilmente aprendessem a matéria. Daí até à edição do ‘método’ em disco foi um ápice e, entretanto, já prepara o segundo trabalho. "Trata-se de uma ferramenta escolar, acima de tudo. Aliás, ainda há pouco tempo, no final de um espetáculo, uma menina contava-me que a meio de um teste estava a bloquear até que começou a cantar para dentro, lembrou-se da matéria e foi assim que conseguiu responder ao teste", recorda. Com testes ou sem eles, a digressão durou um mês e meio, culminando num Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, completamente esgotado.

Outro projeto do género viu a luz do dia em Novembro último impulsionado por Catarina Furtado, que fez uma das letras do trabalho de Ricardo Reis Pinto (‘Vem Daí’). Logo no concerto de lançamento, teve plateia esgotada no auditório da Fnac.

Mas no que diz respeito aos ídolos da infância, a ‘veterana’ é Anita. Lançou o primeiro álbum em 2006 e tem uma marca de sucesso inigualável: é a artista portuguesa com o maior número de visualizações no site de partilha de vídeos YouTube.

Mais de 17 milhões que continuam a aceder a novas versões de clássicos como ‘Joana Come a Papa’ ou ‘O Balão do João’. Anita, que ganhou em menina o Festival Internacional dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz, dava voz a anúncios até que descobriu a sua vocação para o público infantil. Não se arrepende: "As crianças são o melhor dos públicos".

O segundo disco está a caminho, conciliado com o trabalho a tempo inteiro no Media Markt de Sintra e com os concertos, alguns em paragens tão distantes como a Suíça.


NOTAS

ANITA

É a artista portuguesa com o maior número de visualizações no YouTube.

PLATINA

‘As Canções da Maria’ conquistou o galardão de platina cerca de um mês depois do lançamento.

CONSUMO

Um estudo de mercado europeu mostrou que os produtos infantis foram os que sofreram menos quebra de vendas.

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