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O poder libertador do palavrão

Cerca de uma em cada 100 palavras que usamos por dia são ‘asneiras’.
Marta Martins Silva 29 de Março de 2020 às 11:00

Sabe como nasceu a palavra pu**? A ideia não era começar o texto com um palavrão mas, se o tema é este, não conseguimos fugir-lhe durante muitas linhas. E a verdade é que não resistimos a contar-lhe já que a palavra pê-u-tê-a tem origem na palavra latina ‘menina’. E que havia uma palavra igual, em tempos mais antigos que a mais antiga profissão do Mundo, que significava ‘pura’, ou seja, mais distante não podia estar do significado entretanto atribuído.

Mas não é de agora esta total inversão do significado inicial da palavra, uma vez que já em 1712, Rafael Bluteau – no seu monumental ‘Dicionário do Vocabulário Português e Latino’ - explicava que p*** chegou a ser "um vocábulo honestíssimo, sinónimo de moça puríssima e limpa", que passou a significar prostituta para "encobrir a fealdade do vocábulo meretriz ou de outro igualmente feio".
Certo é que no século XVII já se tentava banir as palavras indecorosas, tanto que em 1696, na livraria do conde da Ericeira, foi proposto que ao inseto luzente, vulgarmente chamado cagalume, se daria em papéis ou discursos sérios outro nome mais decoroso – pirilampo ficou. Por aquela altura, o lexicógrafo Bluteau também escrevia que era preferível utilizar os sinónimos assento traseiro e pousadeiro em vez da palavra cu. 

"Por estranho que pareça, nos dicionários mais antigos, do século XVII e XVIII, é fácil encontrar algumas informações sobre estas palavras. Por um lado, as palavras aparecem descritas ou explicadas em latim. Se a palavra está escrita em outra língua, parece que não tem o mesmo poder de chocar ou incomodar... Além disso, o público dos dicionários era muito restrito, maioritariamente homens que frequentavam colégios religiosos e destinados ao serviço religioso. Para eles, nenhum pecado ou desvio poderia passar sem ser descrito ou explicado em palavras... Era um público necessariamente bem informado do ponto de vista lexical. Os dicionários do jesuíta Bento Pereira, por exemplo, publicados a partir do século XVII, estão bem preenchidos de termos e descrições que os dicionários posteriores começam a evitar", explica o linguista João Paulo Silvestre. "No século XIX, os dicionários já são dirigidos a um público bem mais abrangente e, naturalmente, o discurso é modelado", acrescenta o professor de Língua Portuguesa e Linguística na Universidade de Aveiro.

"Também a palavra co** vem do latim ‘cunnus’, que também deu origem à palavra ‘coño’ do espanhol, ‘cony’ do catalão, ‘con’ do francês. Curiosamente, em latim, a palavra chegou a ser usada, sem malícia, para designar apenas mulher", exemplifica por sua vez o linguista Marco Neves, autor do livro ‘Gramática para Todos: O Português na Ponta da Língua’ (Ed. Guerra & Paz), sobre as reviravoltas nos significados das palavras.

Como a palavra grelo, "que tem origem na designação do vegetal e terá ganho, a certa altura, o novo significado", embora não seja possível descortinar quem lhe terá dado essa reviravolta semântica. Marco Neves, professor da Universidade Nova de Lisboa, lembra uma história que ficou famosa e que se passou no município galego de As Pontes, que promove anualmente um festival do grelo (vegetal, entenda-se). Tudo teria corrido dentro do previsto se o município não tivesse resolvido traduzir o website do festival para espanhol a partir do original galego.

"Pois aquilo que aconteceu foi um autêntico acidente de tradução. Com feridos graves! O nome do festival — ou da feira — era bastante claro em galego: ‘Feira do grelo’. Já a tradução para espanhol ficou, no website, com este lindo aspeto: ‘Feria clítoris’. Não contente, o texto continuava: ‘El clítoris es uno de los productos típicos de la cocina gallega.’ — o que, imagino, deve surpreender bastante os peregrinos que chegam a Santiago…" O que se passou tem uma explicação simples: "O município decidiu poupar na tradução e foi ao nosso amigo Google Translate. Ora, a Google usava o português para alimentar o motor de tradução de galego para espanhol. Resultado? O inocente grelo galego deu uma guinada, transformou-se na palavra portuguesa e foi embater num muro a grande velocidade, deixando os responsáveis do município com as faces bem ruborizadas de vergonha", recorda Marco Neves, sublinhando que a proximidade linguística pode dar asneira… literalmente.

A culpa é dos romanos
"Na verdade, grande parte dos termos que os falantes de português classificam como ‘palavrões’, não são palavras de origem portuguesa. Se prestarmos atenção às línguas europeias que nos são mais próximas, com facilidade reconhecemos equivalentes surpreendentemente parecidos. Podemos usar como exemplo três palavras de alta frequência em Português: puta / puta / putain; merda / mierda / merde; foder / joder / foutre. Todas estas palavras provêm do mesmo étimo latino e foram transmitidas pelos romanos. Em latim também eram palavras frequentes e, naturalmente, usadas para referir uma prostituta, os excrementos ou as relações sexuais. As novas línguas da Europa mantiveram estas palavras, com alterações fonéticas particulares de cada uma das áreas linguísticas", contextualiza João Paulo Silvestre.

Já a palavra cara*** tem origem incerta, o que significa que não há propriamente um antepassado a quem culpar.

"Em alguns casos, a etimologia nem sempre é clara, como é o caso de caralho (castelhano carajo, galego carallo, catalão carall ), que é uma palavra que pode ter uma origem ainda anterior à romanização da Península Ibérica", acrescenta o linguista, explicando que,  para suavizar o uso de algumas palavras, foram criadas formas eufemísticas, que alteraram a forma como a palavra é pronunciada, quase mascarando-a.

"Os truques para formar estas palavras são evidentes. Geralmente mantém-se uma ou duas das sílabas da palavra original: fónix, fosca-se, caraças, carago. Mas devemos notar que estas palavras evoluíram no que respeita ao seu uso e interpretação. Durante muitos séculos, mesmo quando usadas com o valor de interjeição, tinham um valor negativo, expressando irritação e indignação. Na verdade, quando são usadas como ‘palavrão’, não estão a invocar os seus referentes, mas apenas a expressar desagrado. No português moderno, estas interjeições já têm um valor diferente, podendo expressar surpresa ou admiração, com uma apreciação positiva. Veja-se o caso de ‘porra’ no Português Europeu, que se transformou numa interjeição".

Para o professor da Universidade de Aveiro, os casos de eufemismos mais bem-sucedidos "são os termos que foram adotados para referir os órgãos sexuais. Pénis, que significava causa, vagina, que significava bainha. Primeiro surgem como termos latinos, na escrita, mas depois passam ao português como termos técnicos e quase asséticos". Na história das línguas o que não faltam são metáforas eufemísticas. "Se no latim vulgar encontramos a palavra ‘coleonem’ para significar testículos (a origem de cojones e colhões), o sentido é bem mais claro se soubermos que a palavra em latim significava ‘saco’. Ou seja, hoje rotulamos colhões como palavra a evitar, mas já não temos memória da metáfora escondida na história da palavra". Ou seja, com a evolução das línguas e empréstimo de palavras, o eufemismo pode transformar-se de novo em tabu. "O que só prova que não há nada intrinsecamente mau ou errado em qualquer palavra", diz Silvestre.

1% são palavrões
"Um pouco menos de 1% do nosso vocabulário diário são palavrões – ou seja, em média dizemos 50 a 70 palavrões. A linguagem ‘suja’ é comum a pessoas de todas as esferas sociais, embora pessoas religiosas, introvertidas, com ansiedade ou culpa sexual não gostem de usar palavrões", explicou à ‘Domingo’ por email o psicólogo americano Timothy Jay, autor de seis livros sobre a psicologia dos palavrões – ele que defende que mais do que qualquer outra coisa as asneiras "são hábitos que se aprendem e que dificilmente se conseguem largar". O mesmo especialista fala do "poder libertador" de dizer um palavrão em alturas críticas: "É melhor fazê-lo com palavras do que fisicamente ou com uma arma."

E são os portugueses mais bem-educados – ou antes pelo contrário – do que os outros povos? "Do ponto de vista estritamente linguístico, somos tão bem-educados como qualquer falante em qualquer momento da história. Enquanto falantes somos desde cedo treinados para reconhecer as palavras obscenas da língua da nossa comunidade, sabemos em que situações sociais elas são desejáveis ou aceitáveis, proibidas ou até ilegais. Isto é válido para os falantes de qualquer língua. As palavras que designam o ato sexual, os órgãos sexuais e as manifestações do funcionamento do corpo (as ditas ‘necessidades’) são palavras tabu na generalidade das línguas. É também comum que essas mesmas palavras, por serem interditos linguísticos em muitas situações sociais, se convertam em termos para expressão de emoções e sentimentos, no grau máximo de intensidade", acredita João Paulo Silvestre.

Já Marco Neves acredita que "os palavrões parecem estar guardados num lugar especial, mais primitivo e instintivo, bem próximo das emoções mais básicas. Há quem tenha lesões cerebrais e deixe de poder dizer palavrões — e há quem comece a dizer palavrões sem controlo. Os palavrões parecem estar a meio caminho entre as palavras normais e os sons mais primários que fazemos: gritos, suspiros... Por exemplo, quando damos um pontapé numa porta, a primeira tendência é dizer um palavrão". Ou quando se está há muito tempo fechado em casa…

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