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O principezinho e a raposa

“(...) não passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil rapazinhos”
Tiago Rebelo 31 de Outubro de 2010 às 00:00
O principezinho e a raposa
O principezinho e a raposa

Noutro tempo não muito distante – quase ontem, na verdade – ele citava--lhe uma passagem d’O Principezinho a ouvir a raposa. Dizia-lhe: "Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta; é o preço da felicidade! Se vieres a uma hora qualquer não saberei quando hei-de arranjar meu coração, pô-lo bonito".

Em breve ela já não virá a hora nenhuma, prepara-se para partir, de vez. Num dia muito recente ela também estava de partida, mas ele pediu-lhe: Não partas hoje, fica comigo esta noite. E ela, só porque ele lhe pediu, suspendeu as responsabilidades, adiou a vida e ficou. E assim tiveram uma noite mágica, melhor do que a vida toda.

Saíram pela noite, passearam de carro pela cidade, apreciando as luzes da cidade em festa, passearam por ruas movimentadas, com multidões à porta dos bares; atravessaram outras adormecidas, vendo de relance montras de lojas iluminadas. Sentaram-se a partilhar uma bebida numa esplanada à beira do rio, reparando nos navios que passavam ao longe debaixo da ponte, no reflexo prateado da Lua nas águas calmas do Tejo.

Sentaram-se com as mãos dadas, escutando uma música deles, conversando olhos nos olhos, rindo-se juntos, observando-se com o deslumbramento da novidade, descobrindo-se um pouco mais. Dançaram abraçados numa discoteca uma música lenta, antiga, sentiram-se como se tivessem quinze anos, beijaram-se como adolescentes apaixonados e cheios de esperança um no outro. Namoraram, só os dois perdidos na noite, sem pressa para nada, seguros de que, enquanto prolongassem aquele momento, enquanto retivessem o tempo, tudo estaria bem.

Em contrapartida, voltaram para casa e amaram-se com urgência, tiveram-se com paixão.

Adormeceram juntos de madrugada, despertaram juntos na manhã seguinte, sorriram, pensaram aliviados ainda aí estás.

Um dia, não muito distante, ela também lhe citou uma passagem d’O Principezinho. Disse-lhe: "Para mim, não passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. Para ti, não passo de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se me cativares, precisaremos um do outro. Serás para mim único no mundo. Serei única no mundo para ti".

Depois ele cativou-a. Mas agora ela prepara-se para partir, vai para longe e já não estará a hora nenhuma. Vai com o coração vazio e ele fica, com o coração vazio. Ela já não esperará por ele porque a vida não permite, mas ele fica a pensar se voltares um dia, no dia anterior já eu começarei a ser feliz.

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