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Correio da Manhã

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O tempo que foge e que voa

Uma viagem pelas angústias da passagem do tempo.
Adolfo Luxúria Canibal 23 de Fevereiro de 2020 às 13:00

Se dúvidas ainda houvesse, ao 4.º álbum torna-se evidente que Tame Impala não é uma banda, mas o alter-ego do australiano Kevin Parker – tudo é composto e gravado por ele, que é o único membro constante do grupo de amigos de adolescência que toca habitualmente ao vivo sob a designação Tame Impala.

Este 4º álbum, ‘The Slow Rush’, surge cinco anos depois de ‘Currents’ (2015), disco onde os Tame Impala abandonaram as premissas estritamente psicadélicas que primeiro os notabilizaram e que, na sequência de ‘Innerspeaker’ (2010), fizeram de ‘Lonerism’ (2012), e de Kevin Parker, uma referência absoluta no movimento de renovação do género que dominou o underground da segunda década deste século.

Mas com ‘Currents’, Kevin Parker colocou os Tame Impala mais direccionados para as pistas de dança, com influências hip-hop e R&B e um maior peso dos sintetizadores, em detrimento das guitarras, e com isso obteve um êxito comercial nunca antes alcançado, apesar de todos os elogios críticos com que os discos anteriores haviam sido recebidos.

Este ‘The Slow Rush’ continua embrenhado na electrónica, mas não contém uma música tão imediata – mais próxima do rock progressivo do que das pistas de dança, necessita de várias escutas para a sua melancolia nos contagiar e viciar, numa indolência a que não é alheia a temática que perpassa por todo o álbum: o desgaste do tempo e da memória e o pouco que conseguimos recordar, como imagens espectrais, de um passado que perdemos.

É este o novo Kevin Parker, ainda a tentar saldar as contas e as feridas de uma relação complicada com o pai, falecido em 2009, e sobretudo consigo próprio, depois de em 2018 ter escapado de um incêndio florestal em Malibu, na Califórnia, onde se encontrava em retiro a compor o disco, e no qual perdeu o grosso de todo o material de estúdio, e de ter agora 34 anos, uma casa comprada em Miami e um casamento fresco para cuidar, longe portanto, da despreocupação juvenil de outros tempos. Mas está onde queria estar e este ‘The Slow Rush’ irá alargar ainda mais a audiência dos Tame Impala…

O efeito mutação como incitação criativa
Quando pareciam sem soluções para o seu ‘garage rock’, cujo expoente criativo tinha sido ‘Let It Bloom’ no já longínquo ano de 2005, os americanos surgem com meia banda mudada
e um surpreendente nono álbum todo virado para o country, que lhes dá uma nova pertinência e que é o seu melhor disco de sempre.

Um violento retrado do mal-estar moderno

Vencedor surpresa dos óscares 2020 para melhor filme e melhor realizador, ‘Parasitas’ é um filme sobre a luta de classes, focada
na realidade sul-coreana mas facilmente importável para a do ocidente, não à maneira marxista, de pobres contra ricos, mas de pobres contra pobres pelas migalhas dos ricos.

A literatura como processo de construção
O primeiro romance de Rui Manuel Amaral não podia ser mais entusiasmante,
e estes cadernos de notas soltas que relatam os dias, os pensares ou os sonhos
do narrador – desde logo o de escrever o livro último – deixam-se contaminar pelo escorrer, inexorável, do vazio quotidiano, tal cosmos de ninharias.

FUGIR DE: RACISMO
Foi preciso um atleta tomar a atitude radical de abandonar o jogo em que participava para finalmente ser um facto a existência de racismo em Portugal, cuja exteriorização no futebol é apenas uma amostra mais extrema e descarada.

Mas antes de Marega se insurgir já ele por cá andava, no futebol, negligenciado por árbitros e dirigentes, e fora dele,
inclusive
no seio das forças policiais, mas sempre negado como delírio de militantes paranoicos – vício negacionista que ainda entorpece algumas mentes mais obtusas, mesmo face à evidência!

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