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“Onze morreram e 18 ficaram gravemente feridos”

Éramos uns miúdos quando, logo no início da comissão, fomos chamados para a operação ‘Nó Górdio’
Marta Martins Silva 24 de Março de 2019 às 01:30

Assentei praça em Aveiro, a 21 de outubro de 1969, depois fui tirar a especialidade a Évora, no Regimento de Infantaria 16, em janeiro. Fui mobilizado em março de 1970, depois fomos para Faro. Embarcámos no dia 20 de maio de 1970 no ‘Niassa’, em Lisboa, faz agora 49 anos. Fizemos escala em Luanda, chegámos a Lourenço Marques a 10 de junho, subimos  direitos à Beira, fomos a Nacala e desembarcámos em Porto Amélia, no dia 18 de junho de 1970.

Era  noite  e  fomos pernoitar a Montepuez. Continuámos direitos a Nairoto, onde ficámos mais uma noite,     em seguida continuámos para Mourite e dali para diante já era a guerra. Fomos ficar a Nacatara e dali seguimos para Mueda, onde chegámos a 22 ou 23 de junho – fomos render outra companhia. Nós éramos uma companhia independente, a companhia de caçadores 2730, cerca de 120 operacionais, os outros estavam no quartel. Saímos logo no dia 1 de julho – autênticos maçaricos sem qualquer experiência, uns miúdos que não tinham pedido para ir para a guerra  –  e  logo para   a  operação ‘Nó Górdio’, a maior operação realizada     em     Moçambique, para fazer proteção e patrulhamento. No dia 7 de julho, tínhamos nós sete dias de mato, às sete da noite, confrontámo-nos pela primeira vez com a guerra a sério: tivemos uma emboscada e uma viatura rebenta minas, com vários feridos, um deles ficou em estado muito grave. Isto ao fim de sete dias foi logo para começar, para não termos ilusões de que ia ser fácil. Estivemos 33 dias a dormir no chão, no mato, e a comer ração de combate. Ao fim desses 33 dias voltámos ao quartel.

Quando  vínhamos  de regresso ao     quartel     tivemos     uma     vítima mortal provocada por uma mina pessoal anticarro. Nós,  com 30 dias de guerra, vimos aquilo sem palavras. O camarada ficou completamente desfeito e os seus restos  mortais  ficaram pendurados numa árvore. Lá prosseguimos e chegámos a Mueda. O mais marcante para mim, que nessa altura era soldado, foi ter ido com o cabo para     ajudar     a     colocar     os  mortos nos caixões.

Ao longo dos dois anos de comissão houve muitas coisas marcantes, é impossível esquecer. Como aquele     dia     em     que     tivemos     um grupo que foi praticamente todo desfeito     numas     armadilhas     que eles tinham montado no meio da picada...     da     minha     companhia morreram onze homens, houve 18 feridos muito graves: camaradas que ficaram cegos, outros sem pernas e ainda 56 feridos. Esta emboscada foi no dia 21 de julho de 1971, impossível esquecer esta e outras datas do Ultramar. Também tivemos 13 viaturas minadas.

Não voltaria a combater

De     qualquer     forma     não     foi     tudo mau, não posso pintar tudo negativo porque estaria a faltar à verdade. Depois de 21 meses nesse sítio mais complicado mandaram-nos para a capital, Lourenço Marques, o     tempo     restante,     e   aí   foi  mais tranquilo,  quase  parecia  férias. Ficámos muito próximos porque éramos como  uma  família,  isso também  foi   a  parte  positiva  no meio de tantas coisas más. Tanto que nos reunimos todos os anos para lembrar aquilo que vivemos e que nunca conseguiremos esquecer. Somos pessoas de bem e fomos para lá obrigados, não fomos  de  livre vontade. Podiam dar-me a cidade do Porto toda para eu ir novamente para Moçambique fazer o mesmo que lá andei a fazer e não ia.

Acima de tudo lamento muito que os governos todos que passaram pelo nosso país e que continuam a passar não     olhem     pelos ex-combatentes, esta é a mágoa maior que tenho.

Não para mim, que graças a Deus não preciso, mas para os meus camaradas     com     problemas     resultantes da guerra, que nem dinheiro  têm para  pagar os remédios e  as consultas. Ninguém  que esteve a servir o país devia passar dificuldades.

nome
Abílio Pereira Marques dos Reis

comissão
moçambique (1970-72)

força
companhia de caçadores 2730

* Info
tem 70 anos, é casado, pai de três filhas e avô de três netos

a minha guerra Moçambique
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