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Os 53 limianos que morreram no Ultramar

Mário Leitão foi furriel miliciano em Angola e quis perpetuar a memória dos camaradas
Marta Martins Silva 23 de Junho de 2019 às 15:30

O 1º cabo radiotelegrafista 405264 Amândio de Faria Matos morreu aos 23 anos, no dia 26 de janeiro de 1967, baleado na cabeça quando a sua unidade se encontrava estacionada na margem sul do Rio Dange, em Angola.

O 1º cabo atirador 4699966 António Fernandes de Sousa morreu em combate ao entardecer do dia 30 de agosto de 1968 numa emboscada, vítima não só de uma rajada inimiga, como da falta de luz que impediu o helicóptero Alouette 3 de o retirar do mato e de tentar sarar-lhe as feridas antes de sucumbir a uma anemia.

O soldado atirador 5012867 Celestino Gonçalves de Sousa morreu afogado no desastre do rio Corubal, na Guiné, precisamente quando a sua unidade retirava para um território menos conturbado depois de treze meses debaixo de fogo em Madina do Boé.

O soldado de artilharia 344863 José Araújo Sendão caiu em combate, vítima de uma mina antipessoal na região de Cobué, junto ao lago Niassa, em Moçambique, no dia 14 de junho de 1965. As histórias destes homens que não viveram para as contar estão descritas no livro ‘Heróis Limianos da Guerra do Ultramar’ (edição do autor), da autoria de Mário Leitão, antigo furriel miliciano na Farmácia Militar de Luanda, que quis perpetuar a memória dos 53 combatentes de Ponte de Lima que perderam a vida na guerra em África.

"Durante muitos anos estive apático, tal como todo o povo português, em relação à guerra colonial. Nos primeiros vinte ou trinta anos andámos todos a leste e mesmo eu, ex-combatente, nunca mais liguei à tropa, nem queria saber. Tinha as minhas recordações diárias da vida militar em Luanda, mas não eram objeto de conversa com os amigos nem com a família", partilha agora.

Mas em 2013, um furriel seu amigo, de nome Óscar Ferraz, que estivera em Moçambique, perguntou-lhe: "Não achas que já chega de tanto alheamento acerca dos rapazes nossos camaradas limianos que morreram lá fora no Ultramar?" Àquela pergunta, feita em tom de desafio, outras perguntas se juntaram e, em 2013, nascia uma comissão para a conservação da memória de Ponte de Lima na guerra colonial, que nos últimos sete anos tem homenageado os mortos da terra.

"Neste contexto, apercebi-me que era uma falha tremenda alguém morrer pela pátria, fardado, a lutar pelos nossos valores, e depois ser esquecido. E comecei a ver que a nível nacional havia monumentos em várias terras com os nomes dos ex-combatentes e em Ponte de Lima só havia uma lápide muito simples e incompleta e precisávamos de perpetuar e transportar de geração em geração esta memória", recorda Mário Leitão, farmacêutico e professor reformado, que, sem saber muito bem como, deu por si "no meio dos familiares dos mortos", a recolher informação sobre eles e a pôr as suas histórias no papel. "É um tributo de sangue", explica.

De volta do arquivo
A empreitada começou em 2013. "Falei com irmãos, cunhados e sobrinhos destes homens. Ainda conheci duas mães desses heróis e comecei a ganhar consciência de que isto tinha que ficar para a história. Esta dor e este luto continuado, esta tristeza terrível, tinham de ser perpetuadas e comecei a recolher elementos".

Numa segunda fase, que começou já em 2014 e durou um ano, Mário juntou-se a um amigo coronel e desbravaram o Arquivo Geral do Exército, no Largo de Chelas, em Lisboa, à procura de todo o tipo de informações sobre estes homens e sobre a guerra que os levou.

"A emoção de estar a consultar um relatório assinado por um jovem furriel que levou um tiro na cabeça e que morreu em combate na noite do acontecimento... Pelas nove horas da noite, no meio do mato, o furriel a escrever num papel, à mão, para o comandante dele a dizer: ‘Comunico hoje que no itinerário tal fomos emboscados e o soldado tal morreu ferido…’ Foi aflitivo estar com estes dossiês na mão", confidencia Mário Leitão, que acredita que Ponte de Lima se tornou, com o livro que escreveu, o primeiro concelho do país a deixar para a história a biografia dos seus mortos em África.

A relação com as famílias que tiveram a missão de dar corpo às memórias que viriam a ser entrelaçadas com as fontes oficiais "foi traumática". "A primeira vez que fui para a estrada, a irmã de um falecido falou-me de cima de uma janela, nem abriu a porta e disse: ‘Isso já passou, a guerra já lá vai’, e vim-me embora. Passados 15 dias, a senhora já saiu da janela e veio para a beira do portão conversar comigo sobre a mágoa que trazia na alma, o martírio que tudo aquilo foi para a família. De tudo isso o que mais ressalta, além do trauma, foi a dor dos pais. Todos os irmãos e cunhados relatam com muita nitidez o que foi o calvário dos pais. Não foi uma semana de luto, um mês ou dois - foi a vida toda, até morrerem. Mulheres que vestiram de preto até ao fim, que nem queriam conversa com os vizinhos nem com quem quer que fosse, porque não sabiam como iriam conversar sobre um filho que morreu na guerra."

Mais difícil ainda é a situação para os familiares dos jovens cujos corpos não voltaram para a pátria onde nasceram e que nunca os puderam chorar nem velar--lhes a campa.

"É um trauma que nunca foi exorcizado. Há seis lutos em Ponte de Lima que estão por cumprir: cinco corpos que estão em Moçambique, sepultados em Nampula e Vila Cabral, e um na Guiné. Estão identificados, sabemos onde estão as campas, e agora vamos tentar juntar dinheiro e vontade política e familiar para as forças vivas do concelho conseguirem trazê-los de volta. Nem que seja um pedaço de terra onde fossem sepultados, para fechar um ciclo." "Nem o corpo me deram", "Levaram-mo de casa e nem o corpo me trouxeram de volta", disseram os familiares ao autor.

Como o soldado de cavalaria 106664 José Narciso Vieira Rodrigues, que partiu para Moçambique a bordo do ‘Pátria’ no dia 5 de janeiro de 1965 (juntamente com mais oito rapazes de Ponte de Lima) e que não regressou à terra que o viu nascer: foi sepultado em Mueda, depois de ter morrido em combate numa emboscada na mesma zona. Como escreveu Mário Leitão na página 171 do livro, o sagrado lema militar ‘Ninguém fica para trás’ não foi cumprido neste caso.

Ou o 1º cabo de infantaria 4390863 José Pereira Cerqueira, que morreu em combate na região de Vila Cabral e aí foi sepultado depois da explosão de uma mina anticarro, que também matou outro camarada com quem seguia viagem. Quase 50 anos depois, a irmã deste combatente contou ao autor do livro que o telegrama a anunciar a sua morte chegou ao fim da tarde, muito depois do giro habitual do carteiro, trazido por um homem de bicicleta. Há pormenores que não se esquecem, por muitos anos que passem.

Mortes ainda em Portugal
Dos 53 homens a quem o autor presta homenagem ficamos a saber não só as suas histórias no Ultramar mas também dos seus familiares – por exemplo, que o pai do furriel miliciano de infantaria 193363 Júlio de Lemos Pereira Martins (que morreu afogado a 12 de agosto de 1965 durante a travessia do rio Louvado, na Guiné, debaixo de fogo) abalou para o Brasil à procura de fortuna e de lá nunca regressou para junto da mulher e dos cinco filhos que deixara. E que o soldado atirador 7329871 Manuel Calçada Gomes Velho (morto numa emboscada à coluna onde seguia, entre Lumgadge e Magina, Angola) trabalhou na construção civil em Lisboa antes de ser chamado para a tropa. E que foi ao pai do soldado condutor João Gomes de Sousa que coube a dolorosa tarefa de ir a Braga levantar os pertences do seu filho: uma mala com roupa, sapatos, livros, um garfo e uma colher. Este soldado nunca chegou a embarcar - foi vítima de um acidente com a sua viatura militar em outubro de 1967, ainda na então metrópole. "Dos 53, 45 morreram em África e oito morreram em Portugal, em manobras da tropa. Pelo menos três morreram na véspera de embarcar. Eu considero que morreram na guerra também. Um morreu em Santa Luzia, conduzia um camião militar, despistou-se e caiu numa ribanceira. Dali a três dias ia para Lisboa para embarcar no cais de Alcântara. Não tem culpa, não podia ficar fora da história porque a guerra começou a matar antes da guerra", acredita Mário Leitão, a quem todas as histórias marcaram, mas duas delas ainda assim mais do que as outras. "O 1º cabo auxiliar de enfermagem 6235965 João Vieira de Melo foi ferido em combate. Levou um tiro, estava gravemente ferido com uma bala nas costas e com indicação para ser evacuado imediatamente, tanto que recebeu ordem do seu furriel para não sair do sítio onde estava e para se abrigar atrás de uma árvore, mas arrastou-se para o local onde o fogo inimigo era mais intenso ao saber que naquele local estavam camaradas a precisar de auxílio. Como era enfermeiro, com a espingarda na mão direita e a sacola de medicamentos na esquerda, rastejou 50 metros até à zona onde estavam cinco colegas caídos, dois dos quais a gemer, e foi lá prestar-lhes os primeiros socorros. Nessa hora levou um tiro na cabeça e ficou ali. Ele tinha legitimidade moral e patriótica para ficar escondido à espera da evacuação, mas decidiu sacrificar-se pelos camaradas", conta o autor do livro ‘Heróis Limianos da Guerra do Ultramar’.

Já a história do soldado atirador 72441868 António da Silva Capela marcou Mário Leitão porque, depois de uma emboscada na Guiné, que ficou documentada pela revista ‘Paris Match’ e pelo canal de televisão francês ORTF, que acompanhavam as tropas, soube-se que o soldado esteve 40 minutos em agonia, à espera que chegasse o helicóptero, enquanto gritava pela mãe. Esta tragédia terá levado o próprio general Spínola a deslocar-se ao local, acompanhado pelos majores Almeida Bruno (hoje general), e João Marcelino, que retiraram do local a jornalista da ‘Paris Match’ em estado de choque. Na mesma emboscada morreu também o soldado clarim Henrique Ferreira da Anunciação Costa, cuja história não está contada neste livro porque nasceu em Atouguia da Baleia, em Peniche. "Todos os concelhos do país deviam contar as histórias dos seus heróis, para não deixar que se esqueçam estes homens." Fica o repto.

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