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Os CTT

O “serviço postal universal” tem de regressar imediatamente à esfera pública.
Maria Filomena Mónica 19 de Janeiro de 2020 às 06:00

A privatização versus a nacionalização de serviços não é para mim um dogma. Tudo depende do setor e da eficiência. Mas áreas existem que, pela sua natureza, devem ficar sob a tutela do Estado. Os CTT são uma delas, uma vez que o seu fim é servir todos os portugueses e não obter o lucro máximo. Em Portugal, isto é tanto mais importante quanto muitos cidadãos têm parentes emigrados que ainda lhes escrevem usando o papel. Este laço não pode ser cortado apenas porque os avós vivem entre as montanhas. Além disso, o argumento de que existem telemóveis não me convence.

Os CTT eram uma das poucas empresas estatais que funcionava bem. À freguesia de Águas Belas, Ferreira do Zêzere, onde eu passava o verão, vinha todos os dias uma velhota que, a pé, entregava o correio na mercearia diante da casa do meu avô, onde os habitantes o iam levantar. As minhas idas àquele estabelecimento eram frequentes, uma vez que estava sempre à espera de cartas dos meus namorados.

Passaram-se décadas. No dia 21 de novembro, recebi um ofício dos CTT relativo a "OBJECTOS POSTAIS, Serviço Internacional, aviso para desalfandegamento". O remetente era um professor universitário americano que não conheço. Tendo lido alguns dos meus livros sobre Eça de Queiroz, dizia-me - por carta - que desejava oferecer-me uma obra sobre o romancista português. No ofício dos CTT especificava-se que eu deveria responder a 11 perguntas relativas ao "objeto". Tentei fazê-lo até ao momento em que notei que tinha de declarar o peso do dito. Liguei para o número de telefone indicado, tendo explicado à menina do ‘call center’ que, não tendo "o objeto", não o conseguia pesar, coisa que, presumindo que os CTT teriam uma balança, eles poderiam fazer.

Seguiu-se uma série de emails dos CTT (17). Num deles, a empresa exigia que fizesse "um printscreen" (?!?) da Declaração de Valor. No dia 31 de dezembro, eis o que os CTT me disseram: "Informamos que os seus documentos estão a aguardar validação no site do processo aduaneiro. Sugerimos que aguarde a validação dos mesmos." Até hoje, e já lá vão dois meses, nada recebi.

Há pior. Desde que, em 2014, a empresa foi privatizada fecharam 33 postos em sedes de concelho. Além disso, não entregam as cartas a horas, o que foi particularmente grave durante o último ato eleitoral. Os envelopes com os boletins de voto para os portugueses a viver no México foram entregues dois meses depois das eleições, tendo sucedido o mesmo na África do Sul. Se conto isto é para lembrar os poderes públicos que a concessão a esta empresa privada termina a 31 de dezembro. O "serviço postal universal" tem de regressar imediatamente à esfera pública.

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+ INFO
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