Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM

Os estrangeiros em Portugal

Há quem apenas esteja interessado na aquisição de casas por “razões especulativas”.
Maria Filomena Mónica 16 de Fevereiro de 2020 às 11:00
Lisboa
Lisboa

Desde finais do século XVIII que a zona de Buenos Aires – como então se designava o meu bairro – era a preferida por estrangeiros. Quer o italiano Giuseppe Marc’Antonio Barretti, quer o poeta inglês Robert Southey, quer o botânico alemão H. F. Link deixaram testemunhos da sua admiração por esta parte de Lisboa. Seja como for, gosto da Lapa, um bairro onde os ricos habitaram desde sempre ao lado de gente de poucos recursos. Mas esta delicada equação está a mudar.

De início, olhando os prédios restaurados, pensei que a instalação de estrangeiros entre nós era útil, mas esta minha apreciação tem vindo a desvanecer-se. Numa conversa tida com um estrangeiro no Jardim da Estrela verifiquei existir quem apenas esteja interessado na aquisição de casas por "razões especulativas": o meu interlocutor disse-me que estava cá apenas para comprar "uns quarteirões no Cais do Sodré". Num mercado aberto, nada disto é censurável, mas compete ao poder político velar para que não aconteça cá o mesmo que em Veneza ou em Barcelona.

O aumento de investimento estrangeiro no setor imobiliário em Lisboa é impressionante. No primeiro semestre de 2019, investidores de 70 nacionalidades estrangeiras escolheram Lisboa para comprar casa, tendo gasto 343,9 milhões de euros. Em 2018, este número tinha atingido 694,3 milhões de euros, quase o dobro dos de 2017 e 2016. A freguesia mais procurada é a de Santa Maria Maior (Chiado e arredores), onde as compras de estrangeiros aumentaram de 80%.

O apetite estrangeiro resulta, em grande medida, de Lisboa ser uma cidade lindíssima e de ter um clima ameno. Mas isto não é tudo. Parte dos motivos para esta imigração deriva dos vistos gold (visível nas crescentes compras feitas por chineses) e das vantagens fiscais para os ‘residentes não habituais’ (especialmente no caso dos franceses).

Eis o que um quadro com a quota de mercado e com o preço médio da compra no 1º semestre de 2019 nos revela: 21% das vendas a estrangeiros foram efetuadas a franceses (que pagaram 4692 € por metro quadrado) e 14% a chineses (neste caso, por 5144 € o metro quadrado). Logo a seguir, as percentagens descem: as compras dos americanos são apenas 5%, o mesmo sucedendo no que diz respeito ao Reino Unido; as aquisições por suecos e por alemães não ultrapassam os 3% (‘Expresso’, 30.11.2019).

Custa-me aceitar o facto de um estrangeiro, usufruindo do estatuto de ‘residente não habitual’ ou de um ‘visto gold’, pagar menos impostos do que eu, mas o que mais fere a minha sensibilidade é o facto de isso de tal forma inflacionar os preços das casas que os meus netos jamais poderão adquirir uma casa na cidade onde nasceram e, acima de tudo, a possibilidade de certos ‘fundos de investimento’ estarem a empurrar os velhos dos bairros históricos para os subúrbios.

Figura: Uma dignidade rara
Ramalho Eanes fez 85 anos. Fiquei com respeito por este militar devido a um incidente em novembro de 1974, quando ele dirigia a RTP. O caso envolvia a minha reportagem ‘Nados e Criados Desiguais’ e a tentativa de uma potência estrangeira de que não fosse para o ar. Comportou-se com uma dignidade rara, facto que não esqueci.

Loja: Roupa à base de matérias-primas orgânicas
A doença tem-me impedido de ir a festas, o que levou a que não tivesse mudado de guarda-roupa nos últimos anos. Depois de ter falado com uma das minhas netas sobre o país onde havia estagiado, a Suécia, decidi ir comprar uma blusa. Na COS deparei-me com roupa feita à base de matérias-primas orgânicas, exibindo um design sóbrio. Um luxo.

DVD: Um docudrama fascinante
O título é de molde a afastar muita gente, mas não se deixe influenciar por isso. Há muitos anos que não via um docudrama tão fascinante. Mande já vir pela Amazon. Aparentemente, trata-se do relato do que aconteceu numa central nuclear na Ucrânia, em 1986, mas o que nos mostra é o funcionamento do sistema soviético.

Fugir de…Observatório da Ajuda
Nunca tive em grande apreço a Universidade de Lisboa, mas há limites ao desleixo em que deixou cair algumas das preciosidades à sua guarda: uma delas é o Real Observatório da Ajuda, imaginado pelo rei D. Pedro V. Não falo apenas dos instrumentos científicos - que apenas se podem observar em visitas guiadas - mas do belíssimo edifício neoclássico. Não é a primeira vez, nem será a última, que falo deste assunto.

+ info
O Observatório Astronómico de Lisboa é mais conhecido por ter a responsabilidade de estabelecer a hora legal em Portugal. A 30 de dezembro do ano passado foi noticiada a ocorrência de um incêndio num prédio devoluto na Tapada da Ajuda, mesmo junto ao Observatório e fazendo parte do conjunto classificado como de interesse público

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)