Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

Os Gaspar de Carvalho e os Pinheiro de Azevedo

Indiciado por 57 crimes, Bruno de Carvalho vai pagar 70 mil euros de fiança e fica sujeito a apresentações periódicas.
18 de Novembro de 2018 às 06:00
Bruno celebra com a irmã a libertação no processo de Alcochete. Fotografia tirada dentro do tribunal
Bruno celebra com a irmã a libertação no processo de Alcochete. Fotografia tirada dentro do tribunal FOTO: Twitter

Por Fernanda Cachão e João Pedro Ferreira

Bruno de Carvalho tem orgulho em ser sobrinho-neto do ‘almirante sem medo’. Citou-o na noite em que foi reeleito presidente do Sporting com 86 por cento dos votos, em março de 2017: "Vou citar o meu tio-avô, Pinheiro de Azevedo, que foi primeiro-ministro de Portugal: Bardamerda para todos os que não são do Sporting."

Voltou a referir-se-lhe duas vezes numa entrevista ao Expresso, dias antes da invasão de Alcochete: "Foi tudo como dizia o meu tio-avô Pinheiro de Azevedo: só fumaça." E mais adiante: "Tenho a máxima do meu plano e estratégia de comunicação que vem do meu tio-avô Pinheiro de Azevedo. Para ter sucesso, a primeira coisa a fazer é criar fama de maluco."

Mas quem foi este tio-avô materno tão inspirador para o ex-presidente do Sporting? Em 1975, quando veio de Moçambique com a família, Bruno de Carvalho ainda visitou S. Bento na companhia do almirante. "Era muito pequeno, mas lembro-me dessa fase, muito conturbada politicamente, e eu tive uma grande ligação a esse tio-avô", contou em 2011.

Os portugueses conheceram o capitão-de-mar-e-guerra José Baptista Pinheiro de Azevedo (1917-1983) na madrugada de 26 de abril de 1974, quando apareceu na televisão, juntamente com os outros membros da Junta de Salvação Nacional. Promovido a vice-almirante, coube-lhe assumir a chefia do Estado-Maior da Armada e pouco mais se sabia desse marinheiro além de que, durante a guerra em Angola, dirigira a defesa do porto de Santo António do Zaire (atual Soyo) e em 1972 fora nomeado comandante dos Fuzileiros.

Pouco mais de um mês depois de tomar posse como primeiro-ministro do VI Governo Provisório (19 de setembro de 1975), substituindo o pró-comunista Vasco Gonçalves, resolveu um problema espinhoso que trazia Portugal nas bocas do Mundo por atentado à liberdade religiosa. A Rádio Renascença estava desde maio daquele ano ocupada por ativistas da extrema-esquerda. A "emissora católica portuguesa" passara a estar "ao serviço da classe operária e do povo trabalhador".

O almirante mandou selar os emissores, mas os ocupantes retomaram as transmissões. Pinheiro de Azevedo mostrou então a sua fibra: deu ordem a uma força de paraquedistas para destruir à bomba os emissores da Renascença, na Buraca. A ordem foi cumprida na madrugada de 7 de novembro (poucas horas depois do célebre debate televisivo entre Mário Soares e Álvaro Cunhal). O silenciamento da Renascença acirrou ainda mais os comunistas (apesar de o PCP estar representado no governo) e a extrema-esquerda contra o primeiro-ministro.

Dois dias depois, Pinheiro de Azevedo, ladeado por Mário Soares e Sá Carneiro, presidiu a uma manifestação de apoio ao seu governo, convocada pelo PS e pelo PPD. O Terreiro do Paço estava cheio, apesar da presença intimidatória da Polícia Militar, afeta à extrema-esquerda. Enquanto o primeiro-ministro discursava deu-se um rebentamento, seguido de tiros de G3 para o ar e do lançamento de bombas de gás lacrimogéneo. A multidão agitou-se, houve gritos, correrias, muito fumo. A ameaça de pânico era real.

Imperturbável, Pinheiro de Azevedo não se afastou dos microfones. Da varanda onde se encontrava, junto ao torreão poente, acalmou a multidão com palavras que ficaram célebres: "O povo é sereno", disse e repetiu. "É apenas fumaça!", simplificada para "É só fumaça!", a frase valeu logo ali ao chefe do governo a alcunha de ‘almirante sem medo’.

Mas o melhor estava para vir. A meio dessa semana (12 de novembro), uma manifestação de operários da construção civil cercou a Assembleia Constituinte e a residência oficial do primeiro-ministro. Pinheiro de Azevedo recebeu uma delegação e até houve acordo mas, quando se dirigiu à varanda para falar aos manifestantes, foi vaiado com o insulto mais comum daquele tempo: "Fascista!" Respondeu-lhes sem papas na língua: "Bardamerda mais o fascista!"

Os manifestantes não arredaram pé de S. Bento e os deputados ficaram sequestrados durante 16 horas, com exceção dos comunistas, que confraternizaram com os sequestradores. No dia seguinte, Pinheiro de Azevedo tomou uma medida inédita nos anais da política mundial – declarou o governo em greve. "Estou farto de brincadeiras! Farto!", desabafou. "Fui sequestrado! Já chega. Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia, pá!"

O comunicado à imprensa explicava: "Com vista à necessária e inadiável clarificação da situação política e militar indispensável à resolução da gravíssima crise que o País atravessa, resolveu o governo suspender o exercício da sua atividade governativa até que Sua Excelência o Presidente da República e chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas lhe possam efetivamente garantir as condições indispensáveis ao exercício das suas funções de autoridade."

Perante o insólito da situação, um jornalista perguntou-lhe: "E agora?" Resposta pronta: "Eh pá, agora vou almoçar!"

Pinheiro de Azevedo manteve-se como primeiro-ministro e foi candidato a Belém nas primeiras presidenciais da democracia. Um ataque cardíaco interrompeu-lhe a campanha, em junho de 1976, obrigando-o a ser internado. Mesmo assim teve mais de 14 por cento dos votos. Mal recuperou, deu uma entrevista desbocada: "Deitaram-me uns pozinhos no whisky…"

Busto em Manteigas

Se ao tio-avô materno, o ‘almirante sem medo’, pediu emprestada a fanfarronice do cognome para se chamar a si próprio "presidente sem medo", foi com o avô, irmão do primeiro-ministro, que se educou no clube, razão pela qual agora responde na Justiça. O escritor Eduardo de Azevedo, autor de ‘História e Vida do Sporting Clube de Portugal’, tinha por hábito ler ao neto capítulos da obra.

A fundamental obra leonina saiu em três volumes com 320 páginas cada, ao ritmo de um fascículo por mês, cuja receção sportinguista acabaria mortalmente abalada devido ao valor pedido pela leitura. A edição de luxo em papel couché, com capa de relevo debruada a ouro paga à parte com 500 escudos – a low cost, ainda assim, 170 -, custava 25 escudos o fascículo. E mesmo que o avô de Bruno de Carvalho tenha recusado ser pago, nem sequer pelos direitos de autor, a "débil adesão de assinantes" colocou em causa a viabilidade financeira da obra, como refere o ‘Jornal Sporting’ de 14 de junho de 1968.

Conta-se que pelo centenário do clube, Bruno de Carvalho assentou arraiais durante 20 dias diante da Porta 10 A do Estádio José de Alvalade, reivindicando uma homenagem do clube ao avô. Ironia do destino, em maio de 1995, durante a homenagem que finalmente lhe fizeram, Eduardo de Azevedo agradeceria ao homem que anos mais tarde se sentiu agastado com a "palhaçada" do seu neto: "Devo à Direção de Sousa Cintra a satisfação de ver reconhecido o meu trabalho, que contou com muitas horas de investigação e de estudo do espólio de consagrados sportinguistas." E acrescentou, venenoso: "O Sporting é o único clube que tem a sua história passada a livro, porque os outros têm anedotários."

Naquela altura, o sócio nº 39 504 - que sonhava com a presidência desde que aos seis anos de idade foi a Alvalade e chorou - embrulhou a família e o clube sob o mesmo manto verde-e-branco: "Sinto um amor muito grande pelo meu avô e pelo Sporting." O autor da bíblia sportinguista tinha defendido nesse ano a reedição, mas numa edição menos luxuosa que a original. A obra estava há muito esgotada. Em 2005, Bruno de Carvalho cumpriu a seu modo o desejo dele quando criou o site Centenário Sporting, o qual incluía o livro ‘História e Vida do Sporting Clube de Portugal’, com o texto quase na íntegra e em acesso livre.

A doença começou, portanto, cedo, ajudada pela clubite deste avô materno, nascido em Luanda, que rejubilava quando o gaiato enchia os ouvidos dos três irmãos mais velhos com os nomes dos jogadores do plantel. Já não pôde ver a eleição do 42º presidente, mas foram dele estas palavras que certamente só o neto está habilitado a compreender: "O sportinguismo é um fenómeno que resulta de factos. O ideal, outra coisa abstrata apoiada também por factos. Sempre com factos."

Em Manteigas, no distrito da Guarda, as ruas levam o nome dos seus familiares paternos. Francisco Esteves Gaspar de Carvalho, seu tio-avô, merece até um busto. Foi o industrial de lanifícios e provedor da Santa Casa da Misericórdia da região que no domínio político chegou a vice-presidente da Comissão Concelhia da União Nacional, a presidente da Câmara de Manteigas de 1958 a 1970, sendo sucedido pelo seu irmão Adelino Esteves Gaspar de Carvalho até 1974. Em 1969 foi deputado à Assembleia Nacional.

Já o avô paterno, Miguel Esteves Gaspar de Carvalho, juntamente com António, um dos seus nove irmãos, criou um grupo de cantares e danças, dedicou-se à exibição de filmes e à organização de peças de teatro em Manteigas, mas foi no ofício da fotografia que acabou por se distinguir - as fotografias que tirou da região figuraram em postais ilustrados. Desaparecido em 1975, quando o neto tinha três anos, deixou um vasto espólio fotográfico.

O pai, Rui de Carvalho, também nascido em Manteigas, foi ainda jovem para Lisboa, sem nunca esquecer a terra onde a família tem pergaminhos - nos anos 80, chegou a ser candidato à presidência da câmara. Escreveu também e com regularidade no ‘Notícias de Manteigas’.

Rui de Carvalho e a mulher, Ana Paula, mudaram-se para Moçambique quando o engenheiro foi fundar o Laboratório de Hidráulica do Laboratório de Engenharia de Moçambique. A mãe acumulava as funções de professora com as de funcionária no Banco Nacional Ultramarino. Desses tempos ficaram as fotografias e o medo de viajar de avião.

Em África, antes da independência, tiveram a casa protegida por fuzileiros, graças à ligação familiar com o almirante Pinheiro de Azevedo. E se com este tio-avô pôde ainda ir a São Bento quando a família regressou a Portugal, foi graças ao emprego da mãe, que trabalhou com Sá Carneiro e Pinto Balsemão na Assembleia da República, que pôde treinar uma certa convicção de que se pode fazer tudo - ‘invadia’ o hemiciclo quando o encontrava vazio e no púlpito era ator e audiência do um circo só seu, em que batia palmas, discursava e voltava a bater palmas no final.

Vale ainda a pena frisar a correria pelos negócios deste licenciado em gestão pelo ISEG, em Lisboa, que abriu a primeira empresa em 1996, a Bruno de Carvalho - Revestimentos, Soluções de Interior e Representações Comerciais, que durou até 2009. Depois embrulhou-se na ambição e no fisco com a empresa de construção Polibuild. Em 2010 foi destituído da gerência e substituído pela mãe, que também acabaria por abandonar o cargo. Outras apostas empresariais foram mais efémeras: Brilhante Plateia, de merchandising desportivo, que durou um ano, e a clínica de saúde e bem-estar Full Balance, criada com a irmã Alexandra.

Alexandra de Carvalho é a mais velha dos irmãos e tem com o benjamim da família, pelo menos na aparência, uma ligação especial. Licenciada em antropologia pela Universidade Nova de Lisboa, com pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos, deixou o ensino, contrariada, por causa do casamento e do filho pequeno (um dos dois que tem). Depois acabou por se tornar hipnoterapeuta clínica e no tempo que lhe sobra dedica-se de alma e coração ao teatro, na companhia Fatias de Cá, em Tomar, onde faz o que é preciso dos bastidores à ribalta. Ali teve de dar o corpo ao manifesto em palco, quando numa cena de nu na peça ‘O Nome da Rosa’, no Convento de Cristo, a atriz escalonada não pôde comparecer.

"Não prestas para nada"

Contam aqueles que com ele privaram na juventude que o mais novo dos quatro filhos do engenheiro hidráulico Rui de Carvalho e de Ana de Carvalho era aquilo que há muito leva o nome de pinga amor. Não se apoiam necessariamente no facto de Bruno de Carvalho ter desmanchado uma relação de mais de uma década por causa de uma funcionária do clube e logo depois ter juntado às duas filhas que já tinha, de duas mães diferentes, outra ainda, no curto espaço de um ano, depois do casamento faustoso no Mosteiro dos Jerónimos e boda na Estufa Fria.

A união em 2017 com Joana Ornelas, depressa promovida na estrutura do clube, até já acabou com estalo mas, entre todas as relações conhecidas do 42º presidente, a que merece encabeçar o rol da vida amorosa oficial é a que manteve com Irina Yankovich, pois daria páginas fartas ao talento do avô escritor.

A primeira mulher de Bruno de Carvalho é bielorrussa e se atualmente se apresenta como agente imobiliária num país do Norte da Europa, como contou à reportagem da ‘TV Guia’, em Portugal trabalhava no L Club, em Lisboa, local onde conheceu o leão. Segundo Irina, no espaço noturno competia-lhe apenas aliciar os clientes a troca de bebidas, mas com uma rápida consulta na internet se verifica que o L Club Bar, em São Jorge de Arroios, não só ainda funciona como, pelo menos agora, é um clube de striptease referenciado no que toca a pilim com um ‘€€€’, um suficiente mais em termos de dinheiro.

A bielorrussa garante que, aos primeiros oito meses de paixão, se sucederam os de rugido, em que à dita Bruno de Carvalho passou a dispensar: "Não vales nada", "Não prestas para nada", "És uma porca", "És uma estúpida", "Atrasada mental". A atual agente imobiliária num país do Norte da Europa contou que apesar de ter "marido milionário" se vestia então como "uma mendiga".

A união acabou em tribunal, com o pai a ganhar a custódia da menina, que depois passou a viver com a segunda mulher de Bruno de Carvalho, Cláudia Dias Gomes, que conheceu no Estádio José de Alvalade e com quem em longos bons anos de relação costumava comer sushi e ir ao cinema. Refira-se a título de curiosidade que uma das películas preferidas deste doente sem cura é ‘O Leão da Estrela’ (1947).

Em 2011, a Juve Leo emitiu um comunicado sobre aquele que acabaria por perder as eleições desse ano para a presidência do Sporting para Godinho Lopes: "O Dr. Bruno de Carvalho nunca afirmou que foi sócio da Juve Leo, mas sim que pertenceu à claque. Anteriormente, antes da Lei de Prevenção de Violência nas Manifestações Desportivas (maio 2004) não era necessário ser sócio para se pertencer a uma claque". O sobrinho neto do ‘almirante sem medo’ foi, portanto, da claque entre 1985 e 1990.

A ligação de Bruno de Carvalho à mais antiga claque do Sporting foi de facto contestada aquando da sua primeira candidatura à presidência do clube, forçando-o também a esclarecer que não chegou a inscrever-se, sendo apenas mais um daqueles que se juntavam na curva sul a aplaudir a equipa.

Seja como for, depois de em 2000 ter passado para a mais pacata Torcida Verde, esta semana, o presidente distituído esteve no Tribunal do Barreiro com o líder da Juve Leo Nuno ‘Mustafá’ Mendes, na sequência das investigações ao assalto à Academia do Sporting . Várias testemunhas deste processo disseram - como o CM noticiou - que o 42º presidente, aquele que se intitulou sem medo, à semelhança do almirante seu tio-avô, dizia aos restantes quadros de Alvalade que "na Juve Leo mando eu".

Pinheiro de Azevedo presidente do Sporting José Baptista Pinheiro de Azevedo
Ver comentários