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Os pobres não são santos

Entre nós, e com todas as excepções da praxe, nascer pobre é meio caminho andado para nunca subir à superfície.
João Pereira Coutinho 8 de Março de 2020 às 11:00

Os pobres cheiram mal. A observação é de George Orwell, que nos seus escritos sobre a pobreza sempre foi sensível a essas realidades olfactivas. O propósito de Orwell não é, escusado será dizer, crítico ou jocoso. É apenas o de sinalizar o abismo que separa a sociedade afluente dos menos afortunados. A questão não é apenas material; é imaterial.

O realizador sul-coreano Bong Joon Ho leu Orwell e aplica a lição no seu premiadíssimo ‘Parasitas’, que só agora, embalado pelos festejos, vi. É a história de uma família que, habitando uma cave num bairro imundo de Seul, consegue trabalho, de forma ardilosa, em casa abonada da mesma cidade. Os filhos como explicadores dos príncipes. Pai e mãe como empregados dos reis. E todos a fingir que não se conhecem.

É a primeira grande observação do filme: os pobres não são santos, como acontece no cinema vitimário em que Portugal se especializou. Fazem o que é preciso para sobreviver, incluindo a mentira e o crime – mais ainda: a mentira e o crime contra outros pobres como eles. A ‘irmandade do proletariado’ só existe na cabeça fantasiosa dos marxistas.

Fatalmente, há limites para a dissimulação. Sim, o cheiro é um deles, usado aqui como metáfora de uma identidade que resiste em desaparecer (o momento em que patrões comentam o odor dos empregados, sem se aperceberem que estão a ser escutados por estes, é das sequências mais pungentes do filme). Mas a farsa também será contestada pelos restantes ‘humilhados e ofendidos’, que disputam as mesmas migalhas com uma ferocidade trágica e cómica.

A proposta final de Bong Joon Ho, ainda que embalada em sonho e esperança, não é animadora: na Coreia do Sul, a única mudança que existe na divisão clássica entre ‘upstairs-downstairs’ está nos rostos dos que preenchem as vagas das catacumbas. Na Coreia do Sul e, já agora, em Portugal, onde o famoso ‘elevador social’ é um dos piores da OCDE. Entre nós, e com todas as excepções da praxe, nascer pobre é meio caminho andado para nunca subir à superfície. Um fatalismo perverso que ainda aguarda por um realizador português à altura.
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