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Os segredos que o pirata desvendou

Rui Pinto revelou podres do futebol e corrupção em Angola, mas está preso. Herói ou vilão?
Manuela Guerreiro 9 de Fevereiro de 2020 às 12:00

Em setembro de 2015, John criava o site Football Leaks. Na sua primeira mensagem, enviada às 05h17 do dia 29, prometia divulgar "a parte oculta do futebol" expondo "fundos, comissões, negociatas". Nessa apresentação dizia aceitar "doações", referindo que a aquisição "de todo o material levou imenso tempo". E adoçava o pedido com um simpático "é bonito contribuir". Cinco anos depois, John está preso e o site deixou de divulgar informações, mas colocou cá fora 70 milhões de documentos que deram origem a vários escândalos no futebol internacional. Denunciou esquemas de corrupção e pagamento de luvas, fuga aos impostos, contratos, enfim, os podres do futebol. E deixou de ser segredo que o verdadeiro nome de John é Rui Pinto, o pirata informático que foi detido na Hungria e está em prisão preventiva em Lisboa.

Rui Pinto, 31 anos, é natural de Vila Nova de Gaia. Licenciou-se em História em 2011, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e frequentou uma licenciatura de Informática de Gestão na Universidade de Coimbra. É autodidata na informática e adepto do FC Porto. Mora na zona onde Fernando Madureira – chefe da claque Super Dragões – vive há mais de uma década: Lavadores. Estava em Budapeste quando foi detido. Desempregado, vendia livros e antiguidades ‘online’. As autoridades seguiram o pai que o foi visitar à Hungria e localizaram-no. Nessa altura, já estava a ser investigado por inúmeros ataques informáticos. Esteve 52 dias em prisão domiciliária e foi extraditado.

Está em prisão preventiva, na cadeia anexa à sede da PJ, desde 22 de março de 2019, prestes a fazer um ano. Foi apanhado com base num mandado de detenção europeu que apenas abrange os acessos ilegais aos sistemas informáticos do Sporting e da Doyen, fundo que celebra contratos com clubes de futebol e sociedades anónimas desportivas. Vamos ver que segredos destapou este hacker.

Foi em setembro de 2015 que a Sporting SAD apresentou queixa contra desconhecidos, dando conta de que contratos com vários jogadores tinham sido expostos. O clube de Alvalade esteve sob ataque entre 20 de julho e 30 de setembro de 2015. Foram contabilizados 150 acessos ilegítimos. O pirata invadiu vários endereços e sacou emails, entre eles os de Bruno de Carvalho, Jorge Jesus, Inácio, Vicente Moura, Octávio Machado e Manuel Fernandes. Revelou contratos de treinadores e jogadores, deu a conhecer valores de remunerações e de bónus.

O facto do pirata gaiense ser adeptos do FC Porto não o impediu de espreitar várias contas do universo azul e branco, como os emails do técnico Sérgio Conceição ou de Nuno Rocha , do departamento jurídico. Envolveu também o empresário Alexandre Pinto da Costa, filho do histórico presidente portista, levantando suspeitas em relação aos seus negócios. A empresa Energy Soccer, gerida pelo empresário, terá lucrado indevidamente com transferências e empréstimos de jogadores, negócios que envolvem a Doyen Sports Investments Limited.

É precisamente a intrusão no sistema informático da Doyen que está na origem da detenção de Rui Pinto. Nesse processo, foi acusado pelo Ministério Público de 147 crimes, mas a juíza do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa Cláudia Pina decidiu levá-lo a julgamento por 90: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, um de sabotagem informática e um de tentativa de extorsão à Doyen Sports.

Segundo o Ministério Público, o hacker terá pressionado a Doyen para não divulgar os segredos que sacou pedindo, em troca, entre 500 mil euros e um milhão. Terá acedido ao sistema informático do fundo e a 1600 contratos e documentos. A Doyen abriu atividade em 2011, tem sede em Malta e é gerida pelo empresário português Nélio Lucas.

Cerco a Cristiano Ronaldo

Através do site Football Leaks, o hacker denunciou alguns dos maiores escândalos do mundo do futebol internacional. O craque português Cristiano Ronaldo é visado em dois. O mais polémico é o acordo que CR7 celebrou com a norte-americana Kathryn Mayorga, que o acusou de a ter violado num hotel em Las Vegas, em 2009. A modelo, na altura com 25 anos, assinou uma acordo de confidencialidade e recebeu cerca de 324 mil euros. Com a revelação desse acordo pela revista alemã ‘Der Spiegel’, o caso começou a ser investigado pelas autoridades norte-americanas. O jogador acabou por ser ilibado criminalmente da acusação de violação por falta de provas, mas o caso continua. A modelo exige 190 mil euros num processo cível.

O internacional português, que fez agora 35 anos, continuou a ser um alvo privilegiado do pirata informático que denunciou a existência de 150 milhões de euros num paraíso fiscal usado pelo futebolista para fugir ao pagamento de direitos de imagem quando jogava no Real Madrid. Com a colaboração de Rui Pinto, a justiça espanhola descobriu um universo alargado de jogadores e treinadores que usavam o mesmo esquema de fuga aos impostos e já conseguiu reaver 41,6 milhões de euros: Cristiano Ronaldo pagou 19 milhões; José Mourinho 2,2 milhões; Fábio Coentrão 1,7 milhões; Neymar 5,5 milhões; Messi dois milhões e Di Maria dois milhões.

Ficou também a saber-se que o presidente do Real Madrid esteve numa festa com prostitutas. Segundo documentos revelados pelo pirata, a Doyen terá oferecido mulheres a Florentino Pérez para que este comprasse o passe do médio francês Kondogbia. Antes de ser detido, Rui Pinto disse que estava a colaborar com as autoridades de outros países - França, Suíça, Estados Unidos – a quem terá fornecido milhares de documentos a denunciar outros esquemas de fuga ao fisco.

Justiça à espreita

A investigação à Doyen revelou também que o hacker espiou centenas de alvos como a Federação Portuguesa de Futebol, a sociedade de advogados PLMJ ou a Procuradoria Geral da República. O juiz Carlos Alexandre foi um dos alvos, o que permitiu a Rui Pinto o acesso a segredos da Operação Marquês, cujo principal arguido é o antigo primeiro-ministro José Sócrates, e do Processo BES. O pirata entrou também nos servidores do ex-diretor do DCIAP Amadeu Guerra, onde correm processos de crime económico, e da magistrada Maria José Morgado que tem a seu cargo a investigação do Processo Lex, que tem como arguidos o juiz Rui Rangel e Luís Filipe Vieira.

O processo que levou Rui Pinto à cadeia deixa também de fora o caso conhecido como ‘mails do Benfica’. Rui Pinto nega ter sido o responsável pelo roubo dos emails divulgados por Francisco J. Marques, no Porto Canal. O diretor de comunicação do FC Porto, que diz ter recebido os emails de fonte anónima, começou por divulgar conversações privadas dos dirigentes benfiquistas, seguindo-se conversas com árbitros. O Benfica tentou negar a sua autenticidade, mas viria a confessar que os emails existem, adiantando que muitas das conversas estão truncadas. As perícias ao computador de Rui Pinto revelaram que o pirata é também o responsável pelo blogue ‘Mercado do Benfica’, no qual revelava documentos importantes.

Após ter abalado o mundo do futebol, eis que Rui Pinto provocou um novo terramoto com as revelações sobre a fortuna de Isabel dos Santos e as operações fraudulentas cometidas à conta do Estado angolano.

Herói ou vilão?

Justiceiro ou criminoso? Herói ou vilão? Como classificar Rui Pinto? A resposta divide magistrados, juristas, políticos. Para escolher um lado, é preciso perceber primeiro se estamos a falar de uma questão de justiça, de direitos humanos, de serviço público ou de segurança do País.

Para José Tribolet, 70 anos, engenheiro informático e professor catedrático do Instituto Superior Técnico, a segurança está acima de tudo, sendo a fragilidade do nosso sistema assustadora. "A sociedade moderna não está equipada para prevenir e para contra-atacar atempadamente" estas investidas maliciosas, refere o especialista, que minimiza a necessidade de se escolher entre bons e maus nesta história: "Na medida em que acedeu a informação da qual não é dono nem tinha direitos especiais para aceder, está a cometer um ato que é passível de ser considerado crime." E alerta: "Não sei que desastre mais sério podemos esperar do que ter um Rui Pinto a invadir os sistemas informáticos do Ministério Público. Isto põe em questão a justiça, independentemente de todas as outras coisas."

Menezes Leitão, bastonário da Ordem dos Advogados, lembra: "Se a árvore está envenenada, todos os frutos que ela dá também estão", frisando que "as provas são nulas, se forem obtidas ilicitamente, nomeadamente através da pirataria".

Joana Amaral Dias, professora e psicóloga, descreve Rui Pinto como "uma pessoas que conseguiu, com as suas competência extraordinárias, uma série de informações que têm tido consequências gigantes". Reconhece que o pirata "cometeu erros pelo caminho, e eventualmente crimes, mas não se comparam aos crimes que ele descobriu". Considera que a medida de coação devia ser mais branda.

Para já, a decisão está nas mãos da justiça: "A soma de dois males nunca pode produzir um bem", escreveu a juíza Cláudia Pina na decisão que manda o caso Doyen para julgamento. Rui Pinto garante que tem mais segredos para revelar, designadamente sobre Vistos Gold, ESCOM e BES Angola, mas recusa colaborar com as autoridades.

APOIOS
Snowden fugiu para a rússia
Em 2013, o analista de sistemas informáticos Edward Snowden divulgou milhares de documentos com informação sobre programas de vigilância dos EUA, revelando a existência de um sistema de vigilância mundial. Foi acusado de espionagem, fugiu e vive na Rússia. Snowden, 36 anos, que já pediu asilo a França, trabalhou na CIA e depois numa empresa privada que prestava serviços à NSA, a agência de segurança dos EUA.

Assange aguarda extradição para EUA

O australiano Julian Assange, 48 anos, é o fundador do Wikileaks, através do qual divulgou documentos do Departamento de Estado norte-americano e vídeos de bombardeamentos no Iraque e Afeganistão onde morreram civis. Para fugir a uma extradição pedida pela Suécia esteve sete meses fechado na embaixada do Equador em Londres. Acabou por ser detido e aguarda, numa cadeia de alta segurança, que seja decidido outro pedido de extradição, dos EUA.

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