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Óscar Cardoso: “Nunca vi torturar ninguém”

Histórico da pide conta como quase foi morto por Savimbi e planeou fugir de Peniche com uma granada no braço
Leonardo Ralha 14 de Fevereiro de 2016 às 12:00
Os filhos de Silva Pais, último director-geral da PIDE, deram a Óscar Cardoso o crachá do pai
Os filhos de Silva Pais, último director-geral da PIDE, deram a Óscar Cardoso o crachá do pai FOTO: Sérgio Lemos

Voltou para Portugal em 1991, depois de pertencer às forças da Rodésia e da África do Sul, mas "no coração" tem o Cuando-Cubango, onde criou os Flechas, tropas especiais que combateram na Guerra Colonial. Aos 80 anos, Óscar Cardoso, que era inspetor-adjunto da PIDE-DGS a 25 de abril de 1974, assume ter orgulho do que fez na polícia política.

Se estiver na rua e alguém disser "inspetor" ainda se vira?
Sim. Muitas pessoas tratam-me assim.

Incomoda-o que definam a sua vida pelos dez anos na PIDE-DGS?
Foram os anos mais felizes da minha vida. Pelo contrário, tenho muito orgulho nisso.

Lembra-se da primeira vez em que teve noção do que era a PIDE?
Diziam que eram uns tipos muito duros. Mas como nunca me meti em manifestações não tive preocupação de saber. Depois do Exército servi na Guarda Republicana. Surgiu a oportunidade de ingressar na PIDE num quadro permanente de oficial miliciano. O futuro era mandarem-me embora quando não precisassem de mim.

Que funções desempenhou antes de ir para Angola?
Fui colocado na investigação. Conheci pessoas extraordinárias, nomeadamente José Barreto Sachetti, meu primeiro diretor. Vi como se faz um interrogatório, e depois estagiei nos vários serviços.

Há o mito de que se usava o método de interrogatório ‘PIDE bom, PIDE mau’...
Isso até existe nos livros da Agatha Christie. Há sempre um mau e um bom.

E era o bom ou o mau?
Normalmente não interrogava. Assistia e coordenava. O meu papel era de inspetor, que instruía o processo, e os chefes de brigada é que faziam os interrogatórios.

Muitas pessoas dizem que foram torturadas na PIDE.
Todos dizem que foram.

Nega que tenha havido tortura?
Nego. Estavam horas em pé até dizerem a verdade. Isso não era muito agradável, mas não havia tortura física. Sob palavra de honra: nunca vi torturar ninguém. Mas também devo dizer que o pavor que eles criaram sobre a PIDE facilitava o trabalho. Ficavam tão aterrorizados que contavam a história toda desde pequeninos. Só que quando vinham cá para fora tinham de dizer que foram torturados.

Quando foi para Angola levava diretrizes de Lisboa para criar os Flechas?
Não. Vigorava lá a teoria de, com a Rodésia, África do Sul e Moçambique, constituir uma confederação antiterrorista. Em Portugal sabia-se disso e em Luanda havia um diretor muito inteligente que estaria dentro do complô, onde Angola se afastaria de Portugal. Disseram-me para ir lá ver o que se passava. Fui com essa missão, mas a versão oficial da transferência foi aplicar os conhecimentos de guerrilha num sítio onde havia. O diretor São José Lopes apercebeu-se e não me tratou bem. Andei por Angola toda, e depois pôs-me numa coisa de que não gostava nada: os Reservados.

Tinha de fazer o quê?
Se alguém precisava de uma licença, íamos ver os antecedentes. Em Luanda, onde vivia com a minha mulher, conheci o administrador Manuel Pontes, que passara a maior parte da vida nas terras do fim do Mundo. Falou-me do paraíso da caça que era o Cuando-Cubango, e de um povo extraordinário, os bosquímanos, dos quais tinha ouvido falar na cadeira de Etnografia. Pensei que era interessante aproveitá-los. Propus ao diretor, que arranjou uma maneira airosa de se ver livre de mim. Deu-me um Land Rover, e fui com a minha mulher e com o velhote. Só que o jipe não estava em boas condições.

Se calhar escolheram-vos o Land Rover pior...
Acredito [risos]. Comecei por recrutar oito, que pareciam múmias, deste tamanho [faz um gesto equivalente a metro e meio], e usavam arcos e flechas. Fizeram uma razia em acampamentos dos ‘turras’. Usavam flechas envenenadas, em arcos pequeninos. Quem apanhava uma flechada daquelas não tinha chance nenhuma. Começámos os flechas bosquímanos, com muito sucesso. Nas terras em que não há nada, descobriam água e o que comer. Raramente traziam alguém vivo, mas limpavam o terreno.

Foram usados contra missões que davam apoio a independentistas?
Que eu saiba, a única pessoa que fez isso fui eu, duas vezes. À missão de Xamavera, de padres franceses que davam apoio logístico aos bandidos, mandámos uns que não eram bosquímanos, fardados com camuflados da UNITA. Beberam a garrafeira, deram palmadas, mas não mataram ninguém. Foram-se embora. A outra foi numa missão da Catota, no Bié, da qual enviavam relatórios para a CIA. Foram lá uns tipos e o missionário resolveu partir.

Nessa altura também ficou a conhecer Jonas Savimbi.
Sim.

Que impressão tinha dele?
A pior. Era o mais traiçoeiro. Entendeu-se dar apoio à UNITA, com o compromisso de fazer tampão ao MPLA, e o Savimbi ficou malvisto com os países africanos. Houve uma altura em que foi preciso fazer um contacto na mata, no Moxico. Eu representava Portugal e da parte deles seria o próprio Savimbi. Fomos ao local, num helicóptero sul- -africano, e apareceu-nos um preto de tanga. Mas com brilhantina no cabelo.

Não combinava muito...
E tinha unhas mais bem tratadas do que as minhas. Não gostei quando ele disse que o encontro era mais adiante. Avançámos 50 metros, mas voltámos para o helicóptero, para sobrevoar a zona. O piloto disse que não tinha combustível, e fomos à base encher o depósito. No regresso, chovia torrencialmente. Decidi que voltávamos na manhã seguinte. À noite, o nosso radiotelegrafista, que estava no acampamento da UNITA, comunicou que havia notícias de que os Flechas tinham sido massacrados. Disse-lhe para destruir o rádio e meter--se num buraco. De manhã começámos a ver corpos dos Flechas cortados aos bocados. A operação estava feita para o Savimbi se lavar perante os africanos.

Os Flechas não resultaram em Moçambique?
Aquilo estava tão bem feito que nem o diretor provincial de Moçambique sabia. Disse-me assim: "Não precisamos de flechas, não queremos flechas e temos raiva a quem quer. Portanto, a partir de agora, considere-se turista." Acabei por voltar para Angola e depois para Portugal, onde apanhei o 25 de Abril e fiquei 733 dias preso.

Onde é que esteve preso?
Caxias, Peniche e Alcoentre.

Pensou que podia morrer?
Tinham a amabilidade de nos dizer em Peniche que nos iam fuzilar. Também tive um plano de fuga. Consegui que a minha mulher me trouxesse uma granada e andei semanas com aquilo junto ao braço. No dia de ir à consulta externa de otorrino, meteram- -me no Mercedes, abriu-se o portão e quando olhei pelo retrovisor tinha um Unimog atrás, com uma metralhadora e uma secção de atiradores. Não tinha chance nenhuma.

Quando é que foi julgado?
Estava em Alcoentre quando fizeram a acareação. Fui acusado de torturar um homem, mas eis um pormenor: quando ele disse que eu ia torturá--lo à cela, comandava uma companhia nos Açores e ainda não estava na PIDE. Outro era um lingrinhas, que me acusou de, com 50 homens, lhe ter dado uma surra. Bastava um para dar cabo dele.

Qual foi a primeira coisa que fez ao ser libertado?
Fui ter com os meus pais, a minha mulher e os meus filhos. Depois tentei arranjar emprego. Andei a vender margarina, mas não era o meu estilo. Tinha de me apresentar no posto de Oeiras, de 15 em 15 dias, e o sargento avisou que tinha lá um mandado de captura com o meu nome.


A que se devia o mandado?
Punham-se bombinhas nas sedes comunistas e eu ia a Badajoz buscar material para as fazer. Houve um tipo que estava a fabricar um dispositivo em casa, fez aquilo mal e ia ficando sem um pé. Foi para o hospital e começou a falar, sob efeito da anestesia.

Eram ações do ELP ou do MDLP?
Do ELP, com o Santos e Castro, com quem estive num subúrbio de Madrid. Foi lá que fiz o passaporte e apanhei o avião para a Rodésia

Ainda pensava que Portugal voltaria à situação anterior?
Estava tão desiludido que pensei esquecer-me de Portugal. Quando fui para a África do Sul, era ali que queria ficar, mas entretanto vi o país ceder – e não queria ser preso outra vez.

É procurado por pessoas do seu passado?
Muitas.

Que lhe querem bem ou que lhe querem mal?
Uma vez, à entrada desta propriedade, alguém escreveu "PIDE, vamos-te matar". Tive a tentação de escrever "venham à hora de almoço que há comida", mas pessoas daqui caiaram aquilo. Hoje, é aqui que quero viver.

Costuma votar?
De vez em quando voto, para que não seja um pior a vencer.

Entre os políticos atuais há alguém que se destaque?
O Rui Rio ou o Paulo Morais. Não vejo mais, até porque vivo atrás do sol posto e evito a televisão. As raparigas do Bloco de Esquerda dizem coisas com piada, mas não vão a lado nenhum.

Oliveira Salazar foi o último político que respeitou?
Nunca respeitei políticos. Respeitei Salazar como estadista, e estabeleço a diferença entre uma coisa e outra.
Se Portugal fosse ainda pluricontinental teríamos um Presidente ou um primeiro--ministro africanos?
Poderia haver. Mais antiga é a ideia de Norton de Matos, em que a capital era Nova Lisboa e aqui seria o escritório na Europa. Era brilhante.

Se não tivesse acontecido o 25 de Abril chegaria a diretor-geral da PIDE?
A minha ambição era, quando visse o terrorismo acabado, ir para o Cuando-Cubango. Arranjava uma fazenda de gado, vivia lá, com os meus pretos e bosquímanos, e que ninguém me chateasse.

Como é que pensa que irá ser recordado no futuro?
Um português sem Portugal. Mas não me preocupo muito com isso. 

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