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Para acabar com os mitos

O livro de Roger Eatwell e Matthew Goodwin é essencial para perceber o fenómeno do populismo
João Pereira Coutinho 1 de Dezembro de 2019 às 14:00

Nas intermináveis discussões sobre o fenómeno populista, existem alguns mitos que contaminam imediatamente os argumentos. O populismo é alimentado pelas franjas mais pobres da sociedade. O populismo é coisa de velhos porque os mais jovens estão do lado da democracia liberal. O populismo é um subproduto da crise financeira de 2008. E etc. etc.

O primeiro mérito deste importante trabalho de Roger Eatwell e Matthew Goodwin – o segundo livro fundamental sobre o tema publicado entre nós, depois de ‘Povo vs. Democracia’ de Yascha Mounk – está na forma como os autores vão demolindo esses mitos. Para começar, o motor do populismo não é económico, mas cultural: foram as ansiedades identitárias dos americanos brancos que levaram Donald Trump ao poder.

De igual forma, a crise financeira não chega para explicar o populismo: países como a Suíça ou a Holanda, com desemprego baixo e economias pujantes, não escaparam às sereias populistas. Por último, os jovens estão do lado da democracia liberal? Em França, nas presidenciais de 2017, a Frente Nacional conseguiu a maioria dos votos daqueles que têm 18 a 34 anos.

Se os mitos abundam, onde estão as realidades? Para os autores, em quatro D’s essenciais: distrust (desconfiança), destruction (destruição), deprivation (privação) e de-alignment (desalinhamento).

Que o mesmo é dizer: o populismo nasce da desconfiança popular face às elites políticas tradicionais; do medo da possível destruição de identidades históricas e modos de vida estabelecidos (pela imigração, por exemplo); da sensação de iminente privação económica que certos grupos sentem em relação a outros; e do abandono de velhas lealdades partidárias, substituídas por novas lealdades a novos partidos ou movimentos (não é preciso ir muito longe: o caso de Espanha chega e sobra).

Perante isto, existem duas formas de lidar com o assunto: insultando o "cesto dos deploráveis" que vota nos populistas (a atitude típica da comunicação social mainstream); ou, então, procurando respostas racionais para cada um dos desafios, sem os negar ou ridicularizar. Felizmente, Eatwell e Goodwin optam pela segunda hipótese e oferecem um manual de instruções que é hoje mais precioso do que nunca.

Livro

Mário Vargas Llosa & companhia

Gosto muito do Vargas Llosa ensaísta. E gosto ainda mais quando o escritor escolhe os seus autores de formação política, que poderiam ser os meus também: Adam Smith, Ortega, Hayek, Popper, Aron e Isaiah Berlin.
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Livro

Porque é que os intelectuais sucumbem

Milosz também podia estar na lista de eleição de Vargas Llosa. Por que motivo os intelectuais, atraiçoando a sua vocação como guardiões do bem, da verdade e do belo, sucumbiram à tentação totalitária dos regimes comunistas? Por medo, vaidade, pusilanimidade. Um dos grandes estudos sobre as mentes que se deixaram aprisionar.

Restaurante

A Justiça cósmica das duas estrelas michelin

Nunca liguei às estrelas Michelin: já comi em restaurantes estrelados que eram espeluncas (caras). Mas saber que a Casa de Chá da Boa Nova recebeu a segunda estrela é um caso de justiça cósmica. É o melhor restaurante português que conheço – combinação de reinvenção gastronómica e soberbo cenário natural e arquitectónico.

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PAVILHÃO DE GELO

A crise de um regime também se mede pelas pequenas coisas. Olhando para o país e para as notícias penosas que nos chegam dele (saúde em colapso, transportes que não transportam, alunos sem professores, etc.), qual a prioridade de um governo? Construir um pavilhão do gelo em Lisboa, cidade alpina por excelência, para que o país possa continuar na vanguarda dos desportos de Inverno, onde é uma potência. No fundo, eis uma repetição da velha mentalidade faraónica e demente que nos legou dez estádios de futebol e, anos depois, uma falência. Premonitório?

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