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Passeio entre a morte para conhecer a história e a arte

Há jazigos que são autênticas obras de arte e cemitérios que vale a pena visitar.
Manuela Guerreiro 23 de Fevereiro de 2020 às 11:00

O que nos fascina e nos atrai na morte? Será o desconhecido? O inevitável? O destino da frágil raça humana é tema privilegiado desde sempre em estudos, investigações, teses ou obras literárias.

E está na origem do chamado ‘turismo negro’, que transforma os cemitérios não só em locais de culto, de memória e de oração, mas também em importantes referências de beleza arquitetónica e artística. Os cemitérios são autênticos livros de pedra da História de Portugal e uma verdadeira montra para obras de grandes mestres da arquitetura, escultura e pintura.

O ‘turismo negro’ ainda é recente e atrai cerca de um milhar de visitantes, por ano, aos recintos mais importantes, alguns dos quais disponibilizam programas específicos como concertos, visitas teatralizadas, noturnas ou acompanhadas por músicos e ‘raids’ fotográficos.

"Os cemitérios são lugares de vida. São uma grande metáfora sobre a vida. São aquilo que os vivos pensam sobre a morte." Francisco Moita Flores, escritor, antigo inspetor da PJ e ex-autarca, de 67 anos, é um estudioso desta área e investigou cerca de 450 cemitérios no Mundo, desde as Filipinas aos Estados Unidos, passando por África e pela China.

Fala dos cemitérios como a projeção de uma cidade: "É uma necrópole. Vem de ‘polis’ e de morte. ‘Necropolis’ é a cidade dos mortos, mas é sempre uma projeção de uma cidade ou de uma vila, com as suas praças, as suas avenidas, os seus fontanários. Nos grandes cemitérios, percebe-se que as figuras mais importantes estão no centro e as menos favorecidas nas periferias."

A reestruturação que consagra os cemitérios fora das igrejas, explica Moita Flores, é de Mouzinho da Silveira e de Rodrigo da Fonseca Magalhães, entre 1835 e 1837. Os primeiros cemitérios eram de cariz romântico e liberal e têm como referência, sobretudo, o Père-Lachaise - o maior de Paris e um dos mais importantes do Mundo. Estão lá sepultados e são alvo de culto Oscar Wilde, Honoré de Balzac, Marcel Proust, La Fontaine, Jim Morrison, Edith Piaf ou Maria Callas, entre tantos outros.

As atividades culturais nos cemitérios portugueses são relativamente recentes e o número de visitantes ainda é tímido. Os turistas procuram, sobretudo, a arquitetura, a estatuária, a simbologia, a heráldica e jazigos de personalidades específicas.

Um dos mais procurados e que Moita Flores descreve como "o maior mausoléu privado da Europa" é o jazigo dos Duques de Palmela, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

O cemitério fica na freguesia da Estrela, em Lisboa, e ocupa cerca de 12 hectares. É constituído quase exclusivamente por jazigos particulares, distribuídos por uma mancha verde que inclui a mais extensa e antiga concentração de ciprestes da Península Ibérica.

Os primeiros enterramentos junto a uma ermida dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, resultantes de uma epidemia de peste, datam de 1590. O cemitério demorou sete anos a construir. Começou em 1833 e foi inaugurado em 1840. A capela do cemitério contém a primeira sala de autópsias fora do Instituto de Medicina Legal e um núcleo museológico.

O jazigo dos Duques de Palmela foi mandado construir em 1847 e revela a influência dos ideais maçónicos. Foi projetada pelo arquiteto italiano Guiseppe Cinatti e encomendado por Pedro de Sousa Holstein, primeiro duque de Palmela.

Tem a forma de uma pirâmide inacabada. No topo está uma figura em pedra feminina que carrega a cruz, um livro e um conjunto de chaves. Está repleto de referências maçónicas. As colunas evocam o Templo de Salomão. A família está sepultada na capela e os criados estão enterrados no exterior.

Visitas em Lisboa
De acordo com a Câmara de Lisboa, em 2016, 2017 e 2018 o número de ‘curiosos’ em visitas guiadas rondou os 1500 por ano. No ano passado, caiu para os 825. No entanto, em visitas livres, nos meses de verão, esse número oscila entre os 350 e os 400 diariamente.

Segundo o nosso guia Moita Flores, há vários percursos que se podem fazer: "O percurso romântico, o republicano, o maçónico, o do Estado Novo e o do pós-25 de Abril. Por exemplo, os cravos não faziam parte da flora dos cemitérios, foram introduzidos com a chegada dos mortos do Tarrafal [trasladados em 1978]. Tal como a rosa foi introduzida com o avanço do movimento republicano e socialista, já nos finais do século XIX."

Até a presença dos ciprestes tem um origem histórica que Moita Flores explica: "São oriundos das grandes ‘villas’ romanas, do tempo do Império, em que as casas dos senadores e dos aristocratas eram rodeadas de ciprestes. Como tinham valor assético, não sujavam e eles não aspiravam os miasmas – falava-se em miasmas como transmissores de doenças pelo ar. Além disso, devido à configuração da árvore, o cipreste fazia a mediação entre a terra e o céu, entre a vida e a metafísica, Deus."

A autarquia de Lisboa programa quatro a cinco visitas guiadas por mês aos cemitérios dos Prazeres, Alto de S. João e Ajuda. Há programas específicos e temáticas como ‘Simbologia’, ‘Percursos no Feminino’ ou ‘A Memória das Palavras - Escritores’.

No Dia dos Namorados realizou-se, nos Prazeres, o percurso ‘Dia de S. Valentim: Até que a morte nos separe’. Ali estão sepultados, por exemplo, os poetas Vasco Santana, Natália Correia, Mário Cesariny ou Carlos Paredes. Destaque para o monumento a Oliveira Martins, que representou Portugal na Exposição Internacional de Paris, em 1937. Trata-se de uma construção flanqueada por dois contrafortes. Tem uma escultura de bronze a representar a História.

Visitas no Porto
Na cidade do Porto, a tradição do ‘turismo negro’ já tem 15 anos. Os cemitérios mais visitados são o do Prado do Repouso, o de Agramonte e o da Lapa. Os dois primeiros fazem parte da Rota Europeia dos Cemitérios, reconhecida em 2010 pelo Conselho da Europa – integra 54 recintos em 18 países. O número de visitantes tem oscilado: 980 em 2017; 1225 em 2018 e 1020 em 2019. Falta perceber que tipo de pessoa aprecia o ‘turismo negro’ na Invicta.

A maioria destes visitantes são portugueses, seguindo-se brasileiros (10%), espanhóis, britânicos e ucranianos (5%), russos e franceses. E ora são famílias jovens acompanhadas pelos filhos ora são estudantes universitários em grupos, geralmente de História, História da Arte, Arquitetura, Belas-Artes ou Música.

O Prado foi o primeiro cemitério público do Porto, benzido pelo bispo D. Frei Manuel de Santa Inês, a 1 de dezembro de 1839. Encontra-se instalado na zona oriental da cidade. Os jazigos mais visitados são os de Eugénio de Andrade (poeta), Abel Salazar (médico e pintor) e Aurélio da Paz dos Reis (republicano e impulsionador do cinema em Portugal).

O cemitério de Agramonte foi inaugurado em 1855 e fica na zona ocidental do Porto. Os jazigos que atraem mais curiosos são os de Manoel de Oliveira (realizador), Júlio Diniz (médico e escritor), da família da poetisa Sophia de Mello Breyner, de Tomás Soller (arquiteto) e de Júlio Brandão (escritor).

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