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Correio da Manhã

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Paulo Macedo: Caixa Geral de Depósitos com ele

Vai para o lugar deixado vago por António Domingues. Com o mesmo ordenado e sem se importar de mostrar os rendimentos.
Miriam Assor 11 de Dezembro de 2016 às 15:00
Paulo Macedo
Paulo Macedo FOTO: Mário Cruz/Lusa

As primeiras horas da manhã custam-lhe. Demora tempo a mostrar os dentes. Dizem que é difícil arrancar-lhe os bons-dias. Não é arrogância, não. Apenas é-lhe quase impossível ser simpático no raiar do dia. Depois, passa-lhe. Quem o vê, e não o conhece, aposta sem receio de perder que estamos diante de alguém azedo. Engano. Teria razões. Enterrou pai, mãe, dois irmãos e uma irmã. A saúde já o traiu no nervo facial, devido a um choque térmico ou a uma infecção. Tratou a paralisia no rosto numa clínica em Pamplona. Fez fisioterapia. Recebeu massagens. Melhorou. Ficou com marcas. Cuida do corpo. Joga ténis. Algumas tacadas de golfe. Vai ao ginásio duas vezes à semana. Obedece às imposições do personal trainer. É metódico. Autodisciplinado. Com fraquezas; um garfo ávido pelo bife com batatas fritas e guloso. Para não desgastar o miolo à balança evita, a custo, o entretém da tarde: palmiers em miniatura e bolinhos secos caseiros. O salário grande que irá receber como presidente da Caixa Geral de Depósitos, esse vem com o praliné de 423 mil euros anuais, o mesmo bombom que António Domingues iria ganhar se não tivesse embalado a trouxa e zarpado por se recusar a declarar os seus rendimentos.

Paulo Macedo não se importa. Apresentará. Em 2005, quando era Director-Geral dos Impostos, a coisa, uma vez, serviu de manchete. As Finanças de Benavente moveram-lhe uma execução fiscal por falta de pagamento de contribuição autárquica. Na altura, Paulo Macedo confirmou a dívida, pagou-a, mas, antes, insurgiu-se contra a "violação do segredo fiscal". A justificação do atraso veio, garante um funcionário do Fisco, com a tradicional desculpa "por não ter recebido o aviso". Manuela Ferreira Leite, então ministra das Finanças de Durão Barroso, que foi quem o convidou para ser o senhor dos impostos, não quis participar neste perfil. Tão pouco quer falar o tal ministro da Finanças de Santana Lopes que chegou a anunciar o despedimento de Paulo Macedo por discordar, entre outros ares, com a remuneração de 23 mil euros. Em comum com Bagão Félix terá tão somente o gosto pelo chá da marca Ricola. Valha-nos uma antiga colaboradora que se disponibilizou para colaborar: "O Dr. Paulo Macedo escreve tudo, tudo. Tem uma memória visual invejável. Mal entra numa empresa, sabe logo quem é quem".

Utiliza táxis com frequência. Torna-se impaciente se não encontra o que quer e fica furioso no caso de não obter respostas. Comedido nos gastos: "Até parecia que a empresa (Médis) era dele". No trabalho, a sua determinação transforma-o num obstinado pouco moderado. Zanga-se ou levanta o tom da voz com certa facilidade, embora não tarde em baixar a cabeça em forma de desculpa, tal e qual como os miúdos. O tamanho do seu coração é, assumem duas pessoas que com ele trabalharam, enorme. Gosta de oferecer, sobretudo obras do seu pai, mas, sabe-se lá o motivo, na hora de dar, envergonha-se.

Paulo José Ribeiro Moita de Macedo é filho do pintor e poeta ribatejano José Albano Pontes Santos Moita Morais de Macedo. Cultura nunca lhe faltou em casa e no espírito. A figura paterna é uma referência. O famoso artista, que trabalhou na Siderurgia Nacional, conheceu Almada Negreiros e Artur Bual. Abraçava a ideologia comunista. Paulo Macedo não assume parentescos políticos. Entre os seus relacionamentos constam nomes para todas as direcções parlamentares.

O socialista Luís Nazaré, amigo de longuíssima data, desde os tempos da infância e juventude, em Queluz, onde a família Macedo residia. Jorge Coelho idem integra a lista de amizade. Conheceu-o quando, em 2007, Paulo Macedo escolheu a galeria Artedoze, propriedade de Cecília Coelho, mulher de Jorge Coelho, para expor as pinturas do seu pai. À direita, contou sempre com o apoio de Ferreira Leite, de Eduardo Catroga, e já para não falar que Pedro Passos Coelho indigitou-o Ministro da Saúde.

BISNETO DE MÉDICO
Bisneto de um médico, republicano, deputado à I Assembleia Constituinte de 1911, lê Fernando Pessoa, António Lobo Antunes, Miguel Torga, o livro que mais o marcou, ‘A Engrenagem’ de Jean Paul Sartre. Ouve música clássica e ópera, menos nas horas do labor. Também dá ouvidos, e mexe o pé, com Jorge Palma, Rui Veloso, Pink Floyd e U2. Coleciona pequenos objectos em prata, sinetes e arte contemporânea portuguesa. Dos seus favoritos destacam-se Vieira da Silva, Júlio Pomar e Almada Negreiros. Prefere o campo, embora seja visto no Verão nas águas do Algarve. O hobby é ir para a sua quinta na Herdade do Zambujeiro, junto a Santo Estêvão (Benavente) e distrair-se com faina agrícolas. Nesse monte organiza festas alcunhadas de alta categoria, onde são convidados banqueiros, políticos, artistas e jornalistas. Mas há outras festas, bem melhores. O imitador Fernando Pereira, amigo de Paulo Macedo através do falecido irmão, José Luís, é um dos presentes nas tertúlias organizadas pelos irmãos Macedo, Paulo e Rosário: "Apesar do seu temperamento calmo e reservado, o Paulo (Macedo) é alguém que gosta imenso de conviver e de se divertir com os amigos. Confesso que até já cantarolámos juntos em alguns convívios familiares, embora isso não seja realmente o seu forte…". Desafina. Ao contrário do gestor Luís Nazaré que canta música francesa sem fífias. Sobre o novo CEO da Caixa Geral de Depósitos, Fernando Pereira não hesita nas suas qualidades: "Pessoal e profissionalmente, é um homem de carácter, que revela de facto uma seriedade e verticalidade inabaláveis, uma competência e honestidade exemplares, absolutamente ao mais alto nível." Sentido de humor britânico. Ironia não lhe falta.

Casado com uma colega de liceu e do ISEG, Filomena Cambraia dos Santos, quadro do Montepio, que lhe deu uma felicidade dupla no mesmo dia: um casal de gémeos, Mariana e Miguel, estudantes do Colégio Moderno. Paulo Macedo é crente em Deus. Em Cristo. Herdou da mãe, senhora Maria José Ribeiro, o Catolicismo. Um coro garante que pertence à Opus Dei. O facto de, em tempos idos, ter encomendado uma missa de Acção de Graças pela Direcção-Geral de Impostos e pelos funcionários dos Impostos, na Sé Patriarcal de Lisboa, de ter sido (provavelmente) tratado na Clínica Universidade de Navarra e ter dado aulas na AESE Business School, instituições fundadas por membros do Opus Dei, reúne condições para que fosse. Mas fonte próxima da Prelatura da Igreja Católica exclui essa hipótese. O falecido irmão, José Luís, jornalista do Correio da Manhã, que chegou a dirigir a revista Domingo, era maçon da Loja Mestre Affonso Domingues, da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP.

Que se saiba, Paulo Macedo não é pedreiro-livre, e maçons das obediências maçónicas regulares e irregulares espantar-se-iam se fosse: "Paulo Macedo? Maçon? Impossível. É muito católico". A licenciatura em Organização e Gestão de Empresas acabada em 1986 começou a dar frutos na extinta Arthur Andersan. Aí encontrou Paulino Brilhante Santos, que o fotografa da seguinte maneira: "É preciso e objectivo. Com capacidade de liderança de equipa. A seriedade, honestidade e integridade que o caracterizam não o tornaram numa pessoa inflexível. Deram-lhe tolerância". Foi o Banco Comercial Português a rampa de lançamento para ocupar a cadeira que agora ocupa. A escolha de António Costa, para fonte adjacente "foi sempre uma: a de Paulo Macedo". Contudo, alguns sectores socialistas resistiram ao seu nome. E isso faz com que pareça que ele (Paulo Macedo) seja a 2ª opção. Mas não é". Pela boca morre o peixe. Pois morre. Em 2015, Luísa Salgueiro, deputada do PS na comissão parlamentar de Saúde, bateu no então ministro: "Como é que o SNS, um dos melhores do mundo até o senhor ministro chegar, chegou a este ponto?". O ponto agora mudou. Paulo Macedo é o boss do maior banco português estatal pela mão socialista.
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