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Correio da Manhã

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Pedro Mexia, adulto

Mencionar a nostalgia do verão da maneira como o faz, é uma novidade nos textos de Mexia, um grande escritor.
Francisco José Viegas 22 de Abril de 2018 às 15:51

Escreve Pedro Mexia que uma das "capacidades" apontadas aos portugueses pela escritora norte-americana Mary McCarthy – que visitou o nosso país em 1955 – foi a de "não ver". A de não reparar. E também a de ignorar os seus defeitos, os seus erros de julgamento. Mexia é o contrário de tudo isso: repara em tudo. Entra numa sala (por exemplo, a casa de Freud em Hampstead, Londres) e enumera os objetos, as sombras, os pormenores, os detalhes – e o que a obra de Freud significa para si.

Num dos mais belos textos desta reunião de crónicas, Mexia entra na Esnoga de Amesterdão, "a sinagoga portuguesa"; não recolhe apenas os nomes dos seus protetores como menciona um dos seus filhos mais controversos, Bento, aliás Baruch. Espinosa, cujas raízes vêm dos sefarditas do Alentejo (Vidigueira), cuja obra chocou os rabinos de Amesterdão. Tal como em Havana, onde passa com facilidade do proscrito Guillermo Cabrera Infante para Tintin; ou numa crónica sobre a discoteca Lux, onde tem uma das suas melhores prestações como observador (embora não tenha encontrado Cameron Diaz).

Esta erudição vasta e discreta – que é, também, a capacidade de relacionar, de estabelecer ligações entre interesses muito diversos – é uma das características da escrita de Pedro Mexia, evocando tanto a nostalgia de Camilo Castelo Branco pela liteira como a história da infeliz e injustiçada rainha Catarina de Bragança ou as saudades da Lousã ou da Figueira da Foz, territórios da infância.

Se, por exemplo, o lugar do cinema é aguardado (ou o da felicidade que vive em Londres, que se nota ser a sua casa intelectual: "Porque nunca me canso de Londres, e isso há-de querer dizer que não me cansei da vida."), este novo livro de crónicas dá, porém, lugar ao inesperado: Pedro Mexia participa na tomatina em Espanha e declara-se feliz. E a um tom surpreendentemente maduro ou adulto, quer quando escreve sobre Leonard Cohen ou Lampedusa – ou menciona a nostalgia do verão da maneira como o faz neste livro, coisa que é uma novidade absoluta nos textos de Mexia. Que, como sempre, é um escritor notável.


Livro
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Concerto
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Fugir de...
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Tivemos um longo inverno. Se tudo ocorrer conforme as previsões meteorológicas, este fim de semana é, também, um prolongamento do inverno. Mas em breve ela virá – a primavera, a proximidade do verão. Maio há de ser o esplendor dos nossos lugares perfeitos: havemos de ter uma esplanada, uma tarde ao ar livre, a primeira ida à praia, a primeira vontade de desobedecer à ordem das coisas naturais. Nessa altura, fujamos de casa, que é o lugar perfeito para o inverno – mas estará a mais para celebrar a ida à rua, a primeira transpiração natural, o cheiro das coisas que estão à nossa espera.



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