Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

Pelotões de execução com os dedos no teclado

Linchamentos nas redes sociais são frequentes, raramente feitos por anónimos, e terminam logo que surge nova vítima
Leonardo Ralha 26 de Março de 2017 às 15:00
É no Facebook, rede social favorita dos portugueses, que ocorrem mais ataques, tanto nas caixas de comentários como através de partilhas
É no Facebook, rede social favorita dos portugueses, que ocorrem mais ataques, tanto nas caixas de comentários como através de partilhas FOTO: Ricardo Cabral

Gustavo agradeceu ao cão por tê-lo ensinado a ser pai, Maria defendeu um governante estrangeiro e Henrique escreveu sobre a região de onde é natural a sua família. Todos eles pagaram, e continuam a pagar, o preço de terem irritado pessoas que, na maioria dos casos, nem conhecem. Mas cada vez que visitam as redes sociais podem ler as suas ofensas, insultos e ameaças, como se do outro lado do computador, tablet ou smartphone estivessem alinhados em pelotões de execução.

"Antes de haver redes sociais já havia este tipo de linchamentos, que em alguns casos foram esquecidos por falta de registo", diz o professor universitário Eduardo Cintra Torres, que vê esta sucessão de comentários e de partilhas carregados de ódio como parte da "dinâmica da opinião pública". E que, apesar de tudo, acredita que "tem havido uma educação prática para a utilização das redes sociais que fez diminuir a intensidade desses linchamentos".

A ‘Domingo’ contactou o autor de livros de autoajuda Gustavo Santos, que se apresenta no Facebook como "um homem feliz" mas que alguns internautas preferem descrever como "charlatão" e "louco"; a atriz Maria Vieira, que cortou relações com vários colegas de profissão após ser criticada e insultada pelo apoio às políticas do presidente norte-americano Donald Trump; e o colunista e investigador social Henrique Raposo, que mesmo um ano depois de lançar o livro ‘Alentejo Prometido’ continua a estar na mira de alguns dos milhares que chegaram a formar um grupo no Facebook dedicado a criticá-lo. Mas nenhum dos três quis fazer comentários. "O que escrevo no Facebook fica nas redes sociais e não gosto de falar sobre esses assuntos", justificou Maria Vieira.

Tal como no famoso romance de Chuck Palahniuk era deixado muito claro que a primeira regra do clube de combate era que não se falava do clube de combate, a primeira regra dos alvos de linchamento nas redes sociais é que não se fala dos linchamentos nas redes sociais, utilizadas por 4,6 milhões de portugueses. É ponto assente que convém ‘retirar oxigénio’ para evitar que a polémica alastre - "não alimentes o troll" é o conselho mil vezes repetido na internet para enfrentar quem critica e insulta de forma sistemática - e que raramente demora muito tempo até ser eleita uma nova vítima da indignação geral via teclado. "Não há empenho no linchamento. As pessoas começam a teclar, fazem a sua catarse, dão gosto ao seu insulto e depois não têm mais nada para dizer", conclui Cintra Torres.

'TRÁS-OS-MONTESGATE'
Essa foi uma lição que Nuno Markl aprendeu no ano passado, quando sofreu as consequências de ter rido enquanto o músico José Cid - numa entrevista ao Canal Q, feita seis anos antes mas que voltara a ser exibida e fez acender o rastilho - dizia que os transmontanos são "pessoas medonhas, feias e desdentadas". O autor do disco ‘10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte’ teve a sua página do Facebook suspensa e emitiu um comunicado a pedir desculpas aos ofendidos, mas também o humorista recebeu promessas de agressões e até ameaças de morte.

"Acabei por aprender uma coisa: uma explosão de fúria não equivale a termos o mundo inteiro contra nós. É tentador pensar isso quando recebemos uma chuva de insultos, mas a verdade é que depois, feitas as contas, não é que muita gente tenha tido uma grande fúria; o que aconteceu é que várias pessoas tiveram uma grande fúria ao mesmo tempo", descreve Markl.

Dias depois, "como sempre no Facebook, tinha tudo esmorecido e já havia outro alvo de linchamento", mas o humorista admite que durante algumas horas levou muito a sério as ameaças que lia. Mesmo que algumas parecessem anacrónicas. "Recordo com emoção uma senhora que tinha uma foto de perfil muito doce. Uma senhora já de certa idade, que me dizia: ‘Hás de vir cá que te vão partir os dentes todos!’."

Nuno Markl foi para lá do Marão "passado não muito tempo" e enquanto lá esteve ninguém sequer mencionou o ‘Trás-os-Montesgate’. Tudo acabou tão depressa quanto começara, ficando arrumado num baú de recordações bizarras onde tem lugar destacado a "primeira grande ameaça cibernética" que recebeu. Foi há muitos anos, mas é compreensível que fique na memória a "mensagem tenebrosa de um tipo num blogue a dizer que adorava enterrar-me só com a cabeça de fora e dar-me pontapés". Certo dia, durante uma sessão de autógrafos de ‘O Homem que Mordeu o Cão’, uns jovens perguntaram-lhe se ainda se lembrava de quem pretendia pontapear a sua cabeça, como se fosse o tipo de coisa de que alguém se esquecesse, e fizeram uma revelação: "É um amigo nosso, e ele é superpacato. Nunca percebemos o que lhe passa pela cabeça".

Muito pior foi outra experiência, quando Nuno Markl e Ana Galvão esperavam o nascimento do seu filho, pois um anónimo chegou a descrever numa das mensagens aquilo que levavam num carrinho de supermercado. Contactaram a Polícia Judiciária e o Sapo e bastou ao humorista mencionar numa entrevista a facilidade com que se pode chegar ao IP (ponto de acesso à internet) e à identidade de quem o utiliza para que as ameaças parassem.

ESPELHO DA SOCIEDADE
Mas nem sempre o que se passa nas redes sociais fica nas redes sociais. "Já aconteceu ligarem-me para a empresa onde trabalhava, aparecerem em eventos sociais e arranjarem o meu número de telemóvel", admite a escritora Sofia Afonso Ferreira. Embora nunca tenha chegado a apresentar queixa às autoridades, reagiu mal sempre que tal coisa sucedeu. "Considero isto uma perseguição, no sentido de crime punível por lei. E tenho a dizer que todas essas situações aconteceram sempre com homens".

Habituada a lidar com todo o tipo de abordagens no Facebook, Sofia acredita que "o facto de ser mulher e defender políticas de direita é um fator de ataque permanente", calculando que quando escreve sobre política "um terço dos comentários são desagradáveis ou pelo menos paternalistas". Mas nada que a faça desistir, pura e simplesmente, das redes sociais. "Era como decidir não voltar a sair à rua por ter ouvido um piropo", afirma.

Sem esperança de que um dia as redes sociais se tornem um espaço pacífico e cordato, até porque "são apenas um espelho e uma forma de expressão da sociedade", a escritora deixa um conselho: "Podemos é escolher só interagir com pessoas educadas e cordatas".

Tem sido esse o caminho seguido por Manuel S. Fonseca, diretor editorial da Guerra & Paz, que recorre ao Facebook sobretudo para partilhar textos do blogue Escrever é Triste. "Nos blogues que fundei com amigos adotámos sempre uma política de cortesia, muito clara: os autores respondem aos comentários que nos fazem, dignificando-os, e há total liberdade para os comentários desde que não haja ataques ‘ad hominem’. A verdade é que estes princípios funcionam. No fundo, as pessoas, quando as saudamos com um ‘bom dia’, respondem-nos também ‘bom dia’."

Além disso, salienta que, "por mais controverso que seja o tema, e lidando com memórias coloniais, filosofia política ou questões de género, muitos dos temas dos artigos do nosso blogue são controversos, como estabelecemos que os nossos escritos são sempre feitos pela positiva, para celebrar pessoas ou ideias ou gestos, isso gera, mesmo quando há desacordo, uma atitude de civilidade". Quando nem isso impede o aparecimento de comentários negativos, resta "usar a ironia ou uma resposta desarmante". E resulta? Se resulta. "Há um momento - não sei se é um momento zen - em que a outra parte cai em si", diz Manuel S. Fonseca.

Por seu lado, Eduardo Cintra Torres realça, com ironia, que "o troll hoje está muito mais educado, usa fato e gravata ou pinta os lábios e as unhas". Naquilo que vê como uma expressão daquilo que o sociólogo Norbert Elias descreveu no livro ‘O Processo Civilizacional’, editado em 1939, já depois de este ter fugido da Alemanha nazi, o também colunista do ‘Correio da Manhã’ observa uma evolução: "Antes via trolls que apagava e agora vou ver quem são. Trata-se de pessoas que fazem um linchamento educado. Os trolls já comem de faca e garfo".

ATAQUES MENORES
Evitar perseguições através do Facebook, YouTube, Twitter e outras redes sociais é algo que Tito de Morais, fundador do projeto Miúdos Seguros na.Net, gostaria de ver as escolas portuguesas a fazer de forma mais empenhada e eficiente. No entanto, o desaparecimento da Educação para a Cidadania dificulta a missão, pelo que o coautor de ‘Cyberbullying - Um Guia para Pais e Educadores’ espera que isso seja levado em conta aquando da reintrodução no currículo.

Certo é que nunca faltam motivos aos mais novos para atacarem colegas ou conhecidos. "Ou porque se é gordo, ou porque se é magro, ou porque se usa óculos, ou porque se tem um defeito físico qualquer, ou porque discordam daquilo que diz, ou porque anda atrás do namorado ou da namorada desta ou daquele", exemplifica Tito de Morais, para quem todos devem estar atentos, mas sobretudo os pais, que "devem servir de modelo". E que, ao voluntariarem-se para pelotões de fuzilamento virtuais de figuras públicas, dão o exemplo de que é legítimo escrever seja o que for.

"Nas redes sociais não há filtro. As pessoas cospem a primeira coisa que lhes passa pela cabeça. Os adultos deviam refletir antes de o fazer, pois já têm a maturidade intelectual que ainda falta aos adolescentes", defende o fundador do Miúdos Seguros na.Net, destacando que para algumas pessoas a internet tem um efeito desinibidor que as impele a "destilar ódios de estimação com as pessoas com quem se confrontam". Algo que pode ser potenciado pelo suposto anonimato, ainda que uma investigação policial possa deitá-lo por terra, mas que não deixa de se verificar quando os perfis são perfeitamente identificáveis.

Nos casos em que as redes sociais foram usadas para perseguir adolescentes portugueses, o mais comum foi a partilha de vídeos de agressões e humilhações, mas sem provocar, como nos EUA e outros países, suicídios de jovens. Ainda assim, Tito de Morais diz que numa sessão escolar, a propósito do Dia por uma Internet Mais Segura, ouviu referências a casos de tentativa de suicídio devido a este tipo de perseguição.

BLOQUEIOS E POLÍTICAS
Os perigos de integrar uma turba são reconhecidos por Manuel S. Fonseca, que tem a experiência de ter estado em "manifestações viscerais e confusas" em Angola, no conturbado ano de 1975. Adverte, por isso, que "o movimento, o ruído, o calor vulcânico depressa nos desfazem a identidade", e compreende o que pode estar em causa nos ataques perpetrados através dos teclados: "É fácil fundirmo-nos nos gritos, nessa boca enorme que é a boca da multidão. As redes sociais, em certos momentos ‘apaixonados’, tendem a ser a boca da multidão digital. Nesses momentos só essa bocarra se ouve, o que é terrível".

Esteja em causa política, futebol ou o agradecimento a um cão por ensinar o dono a ser pai, a fasquia das ofensas, insultos e ameaças nunca pára de subir. "Quem não tem qualquer tipo de notoriedade no espaço público pensa que está defendido. É uma espécie de anonimato com nome. Pode escrever à vontade, porque sabe que não vai haver consequência", diz Cintra Torres.

Aos visados resta a opção do bloqueamento, impedindo que certos utilizadores voltem a poder comentar ou sequer ver aquilo que partilham e comentam nas redes sociais. Nuno Markl limita essa retaliação a casos em que são atingidos pontos extremos, como insultos à família - e revela que até ficou amigo dos antigos trolls João Pombeiro e Pedro Santo, coautores de ‘O Programa do Aleixo’, que enchiam as suas caixas de comentários por acharem "uma seca tanta gente só a dizer coisas simpáticas" -, mas Sofia Afonso Ferreira contrapõe que "é rara a semana" em que não bloqueie ninguém, tendo "má educação e reações machistas ou paternalistas" como os principais critérios de exclusão.

Quando a perseguição tem motivos políticos, Eduardo Cintra Torres reconhece que a vontade de perseguir está bem distribuída pelos quadrantes ideológicos, embora acrescente que "a esquerda, no seu conjunto, é mais intolerante e tem mais facilidade em linchar e pedir a censura, enquanto na direita isso só acontece na extrema". Por seu lado, Sofia Afonso Ferreira afirma que nas polémicas políticas "os pelotões de esquerda estão claramente em vantagem", mas nas polémicas gerais a vontade de atacar aqueles de quem se discorda é transversal.

Já Nuno Markl, que se define como "o homem das polémicas de baixa instância", considera que "o linchamento é democrático", na medida em que "toca a todos". Mas reconhece algo que o desgosta: "Por vezes, e mesmo sendo eu de esquerda, acho que a esquerda se anda a comportar como esperaríamos que a direita se comportasse. Muitas vezes há uma histeria em torno de uma certa ideia de ordem e de correção que há uns anos não associaríamos à esquerda. É bizarro!".

Mas acima disso está "a facilidade com que as pessoas se ofendem hoje em dia com tudo", conclui Markl, escrevendo o ‘TUDO’ nas mesmas maiúsculas a que tantas vezes recorrem aqueles que apontam e disparam nas redes sociais.

APANHADOS NAS REDES 

Cada vez mais parte das nossas vidas

Dados da Marktest, relativos ao ano passado, apontavam para mais de 4,6 milhões de utilizadores de redes sociais em Portugal. Praticamente todos (94%) tinham uma conta no Facebook, seguindo-se o YouTube (43%) e Google + (39%), passando em média 91 minutos por dia ligados. E sobretudo à noite e aos domingos.

Notícias falsas tornam-se virais

Tal como noutros países, as redes sociais também têm sido usadas em Portugal para tornar virais notícias falsas. Um dos casos teve a ver com supostas imagens do (já falecido) pai de Cristiano Ronaldo, em que Dinis Aveiro estaria embriagado, que teriam sido emitidas pela CMTV. As imagens não existiram e os autores do boato foram identificados.  

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)