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Correio da Manhã

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Pepetela: sensualidade tropical

Erotismo ambientado no cenário trepidante da Luanda atual
João Pedro Ferreira 1 de Março de 2020 às 08:00

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (n. 1941), mais conhecido pelo pseudónimo Pepetela - ‘pestana’ em umbundo - é considerado o mais importante escritor angolano da atualidade. Descendente de uma família de colonos portugueses, a sua prosa evoluiu da propaganda para a sátira, com incursões num erotismo ambientado no cenário trepidante da Luanda atual.

Em 1958 veio para Lisboa estudar engenharia, mas em 1963, já em plena guerra colonial,   aderiu   ao   Movimento   Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e fugiu para   Argel.   Depois   de   adquirir   formação militar,   partiu   para  Angola   e   tornou-se guerrilheiro. Em 1972 publicou o seu primeiro romance, ‘As aventuras de Ngunga’. Em   1975   foi   nomeado   vice-ministro   da Educação. ‘Mayombe’, considerada a sua obra mais importante, foi escrita durante a guerra da independência, mas só foi publicada em 1979.

Desiludido com o rumo seguido pelo regime   angolano   sob   a   presidência   de   José Eduardo dos Santos, deixou o governo. A partir de ‘O Cão e os Caluandas’ (1985), a sua obra mostra um olhar irónico sobre a sociedade angolana, que se torna abertamente satírico   com   os   romances   ‘Jaime   Bunda, Agente   Secreto’   (2001),   ‘Jaime   Bunda   e   a Morte do Americano’ (2003) e ‘Predadores’ (2005). Livros mais recentes, como ‘O Quase Fim do Mundo’ (2008) e ‘O Tímido e as Mulheres’ (2013) denotam uma sensibilidade crescente à dimensão erótica da escrita.

Do livro ‘O Tímido e as Mulheres’, ed. D. Quixote

"(...) Marisa sorriu, fitou-o intensamente, se virou de novo para o ecrã do computador, religou o gravador. Continuou a ler. E ele ficou tentando recordar o instante breve em que conseguiu abarcar o rosto dela e o peito, onde as mamas saíam um pouco do sutiã, cheias.

(…) Se nota tesão pelas vibrações no ar? Talvez não. O certo é que, por o sentir ou por cansaço, a voz dela era cada vez mais grave, pausada,   lançando   perfumes   e   prazeres, como fêmea em orgasmo. Chegava à parte mais romântica da estória, com a heroína deitada, nua, sobre a areia da praia, enquanto o macho se aproximava cautelosamente, pronto a cobri-la, uma sombra ao luar. Um fauno violando uma inocente musa? Marisa teve um estremecimento, Heitor pôde sentir sem dúvida nenhuma, enquanto as nádegas dela se apertavam e depois enlanguesciam, deixando as coxas enfim se separar. Ela sabia, estava a ser observada. No entanto, permitiu a visão mais ampla da bunda fremente, ou não pôde resistir a um suspiro que escapou entre frases e um gaguejar ligeiro quando o herói realizou o desejo mútuo. Devia ser muito lasciva a estória, pensou Heitor, ou ela a vivia com a intensidade que   se   deseja   dos   bons   leitores,   porque   a sensualidade explodia na sua garganta e havia arrulhos e gemidos que se colavam às palavras, enquanto os dois heróis se perdiam num orgasmo prolongado. (…)

Heitor, se sentindo um canalha, desviou o olhar da cara dela, deixou-o poisar com langor nos seios, depois no umbigo e por fim no que se adivinhava ser o monte de Vénus. (…)

Marisa acabou por abrir os olhos, virar a cara para ele, os lábios carnudos parecendo até mais inchados. (…) O tímido finalmente fez o gesto de avançar o rosto e ela deixou os lábios se colarem. Depois caiu para trás e ele foi junto. E acariciou os seios e meteu a mão entre   as   coxas,   as   bocas   sempre   coladas. Quando procurou o fecho do sutiã, ela deixou soltá-lo. As mamas resplandeceram, os bicos cheios. Muito tempo se beijaram e acariciaram. Ele voltou às coxas e ela entreabriu-as, permitindo a mão envolver o sexo.

(…) Mudou de posição num estremeção, a barriga para cima. Não tinha sutiã, as mamas estavam visíveis, os bicos duros emergindo.   Como   se   adivinhasse   a   direção   do olhar dele, a mão direita passou pelas mamas, primeiro uma, depois se ficou pela segunda, segurando o bico. E voltou a fazer ruídos de garganta, desencontrados. A mão esquerda afastou definitivamente o lençol e estava nua, indefesa, suspirando não, isso não. Lucrécio se pôs por cima dela e penetrou-a. Mesmo se é por outro, ela está a precisar, pensou.

O corpo dela foi reagindo maquinalmente ao ritmo imposto por ele, mas estava a dormir e gemia não, não, não, embora deixasse ele fazer o que queria. Depois ele sentiu as mãos dela   percorrendo   as   costas   dele,   a   bunda magra, e pararem, como surpreendidas nas coxas esquálidas. Ele manteve o ritmo, mas muito atento às reações de Marisa, claramente em processo de despertar. Depois as mãos dela subiram para as costas, o abraçaram e ela disse, hei… Lucrécio.

Estava definitivamente acordada e banhada de gozo."

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