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Pequenos frutos geram grandes negócios

Em apenas 15 anos, a produção de amoras, mirtilos, groselhas e sobretudo de framboesas tornou-se um campeão de exportações.
Isabel Jordão 16 de Fevereiro de 2020 às 10:00

No segundo dia de participação na maior feira do Mundo de frutas e legumes, Fernanda Machado cumpriu o objetivo que levou a BFruit, empresa produtora de pequenos frutos, a Berlim: estabelecer uma parceria com o maior produtor mundial de mirtilos, garantindo dessa forma o crescimento sustentado dos seus 120 produtores associados, que passam a ter acesso a variedades exclusivas, acompanhamento científico e ajuda nas vendas diretas. A produção de pequenos frutos - morango, mirtilo, amora, groselha e framboesa - surgiu em Portugal nos últimos 15 anos e não tem parado de aumentar, sendo já o principal produto hortofrutícola a ser exportado, depois do tomate transformado.

Só a framboesa - o principal pequeno fruto, que é colhido todo o ano - gerou 165 milhões de euros nas exportações, de um total de 205 milhões de euros em pequenos frutos, sendo a Alemanha e a Holanda os principais mercados, seguindo-se o Reino Unido, a Espanha, a França e a Bélgica. Melhor resultado só mesmo o alcançado pelas exportações de tomate transformado, que totalizaram 207 milhões de euros. Os dados referem-se a 2018, último ano em que há dados disponíveis.

Com sede em Guimarães, a BFruit surgiu em 2013 e o ano passado colocou no mercado duas mil toneladas de framboesas, que renderam 14 milhões de euros, em conjunto com os outros pequenos frutos. Com a ajuda do novo parceiro, o grupo chileno Hortofruit, os resultados deverão continuar a melhorar nos próximos anos. Apenas 15 por cento da produção ficou no mercado nacional, mas Fernanda Machado quer aumentar esta quota, porque "um país produtor é um país consumidor. Os pequenos frutos são saudáveis, muito fáceis de comer e nós temos tudo para sermos os maiores consumidores na Europa".

A produção estende-se por uma área de 200 hectares - 15 dos quais de kiwi -, em todo o País, com exceção do Algarve e do Interior. Outro grande produtor de pequenos frutos é a Lusomorango, com sede em Odemira, que reúne 42 produtores, 90 por cento dos quais no Litoral alentejano. Em apenas 14 anos de existência, o volume de negócios aumentou de cinco para 67 milhões de euros, tendo vendas apenas residuais no mercado nacional.

"Continuamos a pensar que há ainda muita margem de crescimento", diz Luís Pinheiro, presidente do conselho de administração da Lusomorango, defendendo que os pequenos frutos têm "a cara dos portugueses", pela sua adaptação ao clima. "Portugal tem as condições naturais para a produção destes pequenos frutos, além disso tem havido uma adaptação com sucesso das melhores genéticas existentes no mercado e os produtores nacionais têm acompanhado toda a evolução tecnológica, o que tem permitido um crescimento consistente."

Conhecimento e tecnologia
Luís Pinheiro destaca o "mérito" de uma nova geração de agrónomos e também de agricultores, que em conjunto com as universidades estão a aplicar "as mais recentes tecnologias" e um "conhecimento muito especializado nas suas produções, levando o controlo da planta até um patamar muito superior àquilo que era tradicionalmente a agricultura e fazendo com que se esteja cada vez menos dependente dos efeitos climáticos".

"A genética é muito importante neste negócio, quem não tem variedades exclusivas não consegue uma posição sustentável nos mercados", acrescenta Fernanda Machado, presidente do conselho de administração da BFruit.
A ciência está presente em todo o ciclo menos no momento da colheita, que é feita manualmente e com muito cuidado, sendo os pequenos frutos colocados diretamente nas embalagens que vão estar à venda nos supermercados, para serem consumidos no prazo de dez dias. Isso exige muita mão de obra, que tem de estar treinada e motivada.

"Temos investimentos muito grandes nesta cultura, basta dizer que para colher um hectare de framboesas, amoras ou mirtilos são precisos 15 a 20 trabalhadores, porque não há qualquer ajuda mecânica", diz Gonçalo Andrade, presidente da Portugal Fresh - Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores de Portugal, que representa mais de 4500 produtores. Para a Fruit Logistica, que decorreu em Berlim de 5 a 7 de fevereiro, a Portugal Fresh levou 19 empresas, seis associações de produtores e sete parceiros, criando condições para fazerem bons negócios com grupos estrangeiros, como fez a BFruit.

Produto inovador mostrado em Berlim
Duas variedades de ervilha para comer crua e fresca - sete a dez dias após a colheita - foram apresentadas em Berlim, na maior feira do Mundo de frutas e legumes, pela filial portuguesa de uma empresa dinamarquesa. Trata-se da ervilha tipo snack, abrindo as vagens e comendo o pequeno legume, e da ‘sugar snaps’, para comer em vagem. As novas ervilhas são produzidas no Alentejo, num terreno com 125 hectares, mas o objetivo é "expandir para novas áreas", diz Catarina Milheiras, administradora da filial em Portugal. A empresa pretende colocar a nova ervilha nos supermercados nacionais, por ser um alimento saudável e pouco calórico, não mais de 81 calorias por 100 gramas.

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