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“Perdemos um homem numa mina e podiam ter morrido todos”

Percebi que era uma emboscada e tentei avisá-los, mas a coluna era grande e os soldados estavam muito distanciados
Manuela Guerreiro 22 de Dezembro de 2019 às 06:00

Não escapei à guerra por duas décimas. Éramos destacados consoante as notas e dos que eram mobilizados, os melhores iam para Angola, os intermédios para Moçambique e os piores para a Guiné. Tive 14,3 valores e passei 26 meses e meio em Angola.

Viajámos na noite de S. João, a 24 de junho de 1972. Fomos os primeiros a viajar de avião. Chegados a Luanda, fomos conduzidos para Grafanil, a cerca de cinco quilómetros, onde estivemos um ou dois dias. Depois fomos para o aquartelamento no mato. Passei a primeira parte da comissão, cerca de 13 meses, em Mucondo, zona muito perigosa.

Eu tinha a pior especialidade que se pode ter na tropa: atirador de infantaria. A nossa companhia tinha sempre alguém no mato em operações, com determinados objetivos. O inimigo, a quem chamávamos ‘turras’, tinha acampamentos com cubanos treinados e a nossa missão era encontrá-los e destruí-los. Às vezes emboscavam-nos e passámos por situações aflitivas quando as coisas corriam mal. Tivemos várias mortes por minas e duas ou três viaturas que se viraram em picadas, estradas de terra batida.

Enquanto estivemos no Mucondo só podíamos sair com um mínimo de quatro a cinco viaturas e o mesmo número de homens armados por viatura, para precavermos qualquer situação perigosa. E a cada oito dias lá tínhamos uma operação e uma saída para o mato.

Mina escondida sob o capim

A situação mais perigosa que vivemos ocorreu quando explodiu uma mina. O nosso alferes estava com paludismo e eu, como era o furriel mais antigo, tive de comandar uma operação.

Largaram-nos numa determinada zona e tivemos de fazer um ou dois dias a pé, só com uma carta cartográfica e uma bússola, em pleno mato, com árvores muito altas e pouca visibilidade. O capim tinha cerca de um metro de altura. E, de repente, há uma clareira. Percebi, pelos dejetos, que tinha passado uma manada de elefantes e desconfiei que os nossos ‘amigos’ tivessem metido minas por baixo da terra.

Só que os gajos puseram aquilo sob o capim que estava pisado pelos elefantes. Eu estava em quinto, numa coluna de 30 e tal homens, distanciados dois, três metros entre si. Dei ordem para os da frente contornarem aquilo. Passaram cinco minutos. Ouvi um estrondo enorme e senti um sopro, fui projetado para trás e senti o cheiro a pólvora. Percebi logo que tinha sido uma mina. Olhei para mim, de alto a baixo, e vi que não tinha sido afetado. Quando me levanto, vejo um soldado que seguia à minha frente com sangue e um buraco nas costas. O que vinha atrás, tinha os olhos inchados e dizia que não via nada. Chamámos um enfermeiro e o homem das transmissões e pedimos ajuda.

Depois, lembrei-me de um cabo que deveria estar no local onde havia um buraco enorme na clareira. Como o capim era tão alto não nos apercebemos logo, mas a dois, três metros, lá estava ele, ainda com vida, mas muito maltratado. Morreu dez minutos depois. Foi a pior situação que vivi. Se tivessem montado uma emboscada poucos de nós teríamos escapado pois não tínhamos onde nos abrigar. Limpavam-nos a todos.

Depois fomos para Maquela do Zombo, mais a norte, zona mais pacífica e onde passámos o resto da comissão. Eu era o fotógrafo ‘oficial’ da minha companhia. Tirava as fotos e revelava, apesar de só ter eletricidade, de gerador, durante a noite. O meu grupo de combate esteve em Sacandica, a meia hora a pé do antigo Congo Belga (hoje República Democrática do Congo), e em Béu Comercial, onde não havia guerra.

Regressámos a casa a 1 de setembro de 1974 e quando o avião pousou em Lisboa foi um alívio.

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