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Pinhão, a história do caviar nacional

Um quilo custa 60 euros à porta da fábrica. Em Portugal é o mais caro dos frutos secos.
Fernanda Cachão 5 de Janeiro de 2020 às 09:00

 

Chamam-lhe ouro branco da floresta portuguesa ou caviar nacional, epítetos extravagantes para o pinhão mas justificados pelo contínuo inflacionar do preço deste produto agrícola na última década. Neste início de campanha, o quilo está perto dos 60 euros à porta da fábrica, "recorde impulsionado pelo mercado mundial", o que torna o pinhão nacional, conhecido pela elevada qualidade, o mais caro dos frutos secos para o consumidor português. "No passado, o preço andava tradicionalmente à roda dos 20-25 euros mas desde 2010 tem subido sempre, muito devido à falta de matéria prima em Espanha e também pressionado por mercados como a Turquia", explica Pedro Silveira, presidente da Associação dos Produtores Florestais do Vale do Sado (ANSUB), entidade que agrega desde 1994 produtores florestais de Alcácer do Sal, de Grândola e de Santiago do Cacém.

Nesta região, porta de entrada pelo litoral no Alentejo, a qualidade do pinhão é considerada superior, devido à proximidade do mar, que protege as árvores de algumas pragas. Cerca de 60 por cento da produção nacional provém atualmente dali - embora a historiadora Guida Cândido frise que na primeira referência gastronómica, escrita e publicada, à semente dos pinheiros e que data de 1936, a propósito do bolo-rei, António Maria de Oliveira Bello (Olleboma, nascido em Lisboa em 1872, foi a primeira pessoa a sistematizar a culinária portuguesa) diz que se deve utilizar de preferência o pinhão de Leiria nesta receita das festas natalícias.

120 euros por dia

A campanha deste ano arrancou lentamente na região da ANSUB, principalmente devido à chuva no mês de dezembro. No prazo legal para apanha, entre 15 de dezembro e 31 de março, trabalhadores trepam aos pinheiros mansos por escadas de ferro presas aos troncos e depois pelos ramos até à copa das árvores, que chegam a quase uma vintena de metros de altura, e com varas com ponteiras ou ganchos na mão empurram as pinhas até caírem no chão.

É dos trabalhos do campo mais demorado e perigoso e também um dos mais bem pagos, mas ainda assim é "extremamente difícil arranjar mão de obra". "No passado, muitos trabalhadores vinham de países como a Roménia, mas hoje em dia, com a falta generalizada de mão de obra que há no mundo rural, é fácil arranjar em ocupação noutros trabalhos menos duros e igualmente bem pagos. Paralelamente, a fiscalização por parte das autoridades tem apertado bastante. Um trabalhador nunca ganha menos de 120 euros limpos por dia", conta Pedro Silveira. Além do preço pago ao trabalhador na extração, outro fator apesar no valor do fruto ao consumidor deriva simplesmente da pouca quantidade de pinhões que cada pinha produz: um quilo (três pinhas) rende 15 a 45 gramas de pinhão.

O pinhão português não tem propriamente um mercado - há sim, "um mercado do pinhão mediterrânico (de ‘Pinus pinea’) no qual o pinhão português assume cada vez mais um papel preponderante, principalmente por problemas produtivos nos outros países (Espanha, Itália e Turquia)", nomeadamente relacionados com doenças; situação complicada para Itália, onde o pinhão tem grande procura por ser utilizado num dos produtos por excelência da gastronomia italiana, o ‘pesto’.

Os concorrentes do pinhão mediterrânico são essencialmente o pinhão chinês e, algumas vezes, o paquistanês. "Estes pinhões não têm as mesmas características e qualidades que os nossos, mas devido a ‘buracos’ na legislação, aparecem nas prateleiras sob a denominação ‘pinhão’ a preços mais baixos e são também amplamente utilizados em pastelaria e culinária", diz Silveira. O presidente da ANSUB prefere não falar numa invasão do pinhão chinês às prateleiras dos supermercados - "Se há uma invasão do pinhão chinês, e eu penso que há, ela é dissimulada, como convém! Mas é no local onde, provavelmente, o consumo de pinhão é maior: na pastelaria e na culinária."

Mais comprido, estreito e com maior sabor e valor nutritivo, o pinhão do Mediterrâneo chega a ser vendido com casca, depois misturado por compradores estrangeiros, europeus e turcos, com pinhão proveniente do Paquistão ou da China - de menor qualidade.

Em 2015 foi pedida a Denominação de Origem Protegida (DOP), que reconhece as características únicas de um produto oriundo de uma região geográfica específica e que se entendia poder salvaguardar o pinhão nacional, mas o pedido foi alterado para Indicação Geográfica Protegida.

Preço duplica

Os epítetos extravagantes dados comummente ao nosso pinhão - o ouro branco da floresta nacional ou o caviar português-não são motivo de orgulho para Pedro Silveira, presidente da ANSUB. "Sendo o pinhão um produto de altíssima qualidade e de características ímpares, preferia que tivesse preços mais acessíveis e que fosse consumido por franjas mais amplas de população", diz o também produtor.

"É frequente vermos o preço duplicar entre a porta da fábrica e a prateleira do supermercado", denuncia. "Não me parece justa esta cadeia de valor" deste produto, do qual a cada campanha se produz em todo o Mediterrâneo cerca de três mil toneladas, sendo um terço provindo de Portugal (mil toneladas).

Há quase quatro anos, dois jovens de 29 anos - e uma sócia "um pouco mais velha, que entretanto abandonou a sociedade"- resolveram criar, em Grândola, a PineFlavour, uma indústria agroalimentar que se dedica ao processamento do miolo de pinhão, pois "percebemos que Portugal não só era um dos maiores produtores de pinhas, mas do melhor pinhão, contudo a matéria prima estava a ser vendida para o mercado internacional sem transformação e sem agregação de valor, quer comercial, quer de denominação de origem", conta Miguel Figueiredo que atualmente, tal como o outro sócio, Pedro Amorim, se dedica exclusivamente à empresa.

Em plena campanha, o empresário diz que o investimento inicial - que não revela - "ainda não foi recuperado, mas caminhamos no bom sentido". Exportam sobretudo para a Europa, "com exportações intracomunitárias para Alemanha, Espanha, Itália", mas também para os Estados Unidos da América.

"Penso que há muito trabalho a ser feito, principalmente no equilíbrio da cadeia de valor" - frisa Miguel Figueiredo - mas também é preciso que o consumidor perceba que existem outros produtos no mesmo patamar de consumo, exemplo das ervas aromáticas (não as frescas) ou o chá, cujo preço de venda é igualmente bastante elevado.

"O pinhão é de facto um superalimento e o valor que atinge está de alguma forma relacionado com o seu rendimento (um quilo de pinha, digamos que produz em média 25 gramas de miolo de pinhão)", explica.

Nesta última questão - diz Miguel Figueiredo - "a investigação poderá e deverá ainda dar passos largos e importantes para que possamos entender com o melhor rendimento e diminuir a volatilidade do pinheiro manso no seu ciclo reprodutivo".

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