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Plumas e purpurinas

O Finalmente tem 40 anos e continua a dar cartas na noite lisboeta. os travestis são as estrelas que sobem ao palco
Marta Martins Silva 13 de Novembro de 2016 às 11:41

Samantha   Rox nasceu no 15 de agosto de 1986, feriado nacional da Assunção de Nossa Senhora, mas nem por isso é crente. Tem personalidade extrovertida e até ligeiramente gozona, uma preferência pelo batom bordeaux com que pinta os lábios finos e um certo gosto por bordar pérolas em vestidos de cabaret quando o tempo livre permite. Marco Ferreira tem 46 anos e descobriu cedo o deslumbramento pelos brilhos e pelas   luzes.   Começou   no palco do teatro amador mas, aos 17 anos, quando entrou pela primeira vez no Finalmente   –   um   bar-discoteca no Príncipe Real que resiste há quarenta anos num espaço acanhado onde os travestis são as estrelas da madrugada – nunca mais de lá saiu. Mesmo que o pai quase o tenha matado quando descobriu onde passava as noites.

"Roubei um vestido à minha mãe e fui. Sempre tentei esconder o que fazia porque sabia que o meu pai era daqueles homens à antiga portuguesa   que   homem   é   homem, mulher é mulher e fora isso é aberração, mas houve um dia que ele me aborreceu tanto que eu disse: ‘ai é, queres saber o que é que eu faço? Sou isto e faço isto’. Escusado será   dizer   que   a   casa   veio abaixo." Passaram trinta anos desde que Samantha nasceu e Marco nunca a matou. Ou mata-a todas as manhãs para a ressuscitar todas as madrugadas, altura em que se planta em frente ao espelho para despir o homem que é durante o dia e maquilhar com precisão o alter-ego. Foi casado durante   quatro   anos   com uma   mulher   que   conheceu no   Finalmente.   "Vinha   ver todos os meus shows e convenceu-me", por isso prefere não assumir uma orientação sexual definida.   "Apaixono- -me por seres humanos."

É o segundo membro mais antigo   do   elenco   do   Finalmente,   só   ultrapassado   por Fernando Santos – ou Deborah Kristal – que além de travesti é também o diretor artístico do grupo, um homem de 53 anos e de rosto andrógino   que   privou   com   alguns dos mais famosos transformistas   portugueses,   como Lydia Barloff e Ruth Bryden. Fernando Santos foi inclusivamente   nomeado   melhor ator pelo filme ‘Morrer como um Homem’, de João Pedro Rodrigues, inspirado na vida de Bryden – ele que é, graças à sua Deborah Kristal, atualmente um dos maiores ícones do   transformismo   da   cena lisboeta ainda em atividade.

Grito de libertação

O   25   de   Abril   de   1974   tinha sido   há   meia   dúzia   de   anos quando, numa saída à noite, numa altura em que durante o dia trabalhava num pronto- -a-vestir, o desafiaram a vestir   roupas   femininas   numa boîte na Amadora, a Fórmula Um. Depois da revolução, os homens   vestidos   de   mulher deixaram de ser um exclusivo das peças de teatro e invadiram os espaços noturnos, em jeito de grito de libertação dos homossexuais.

Só   no   Príncipe   Real   havia cinco bares de travestis, embora   a   primeira   casa   tenha sido o Scarlatty Club, na rua de   São   Marçal,   no   Martim Moniz. Fernando foi a medo: "A experiência de ser maquilhado e vestir roupas femininas? Terrível, terrível, ao início   nem   nos   depilávamos, usávamos   quatro   e   cinco pares de colantes para esconder os pelos, passávamos um calor insuportável. Durante dois anos, só fiz papel de fadista porque como sou de um bairro popular era a única coisa que sabia fazer, entrava com um vestido preto, com um xaile, chegava ao palco, debitava aquele fado e já estava". Foi Susy Flower e Deborah Snake antes de assumir o nome pelo qual ficou conhecido, ele que depois da vergonha inicial percorreu a Europa em bares, casinos e cabarets e só voltou ao Finalmente em 1994 (onde tinha estado dez anos antes), já como Deborah Kristal e diretor artístico. Saiu mais uma vez em 1996   e   regressou   em   2000 para ficar. Muito tinha mudado. Nos loucos anos oitenta, ainda sobrava em Lisboa um rasto de costumes anteriores à   revolução   dos   cravos:   os proxenetas   que   tinham   as meninas   nos   cabarets   e   os boxeurs   do   Parque   Mayer "que dominavam a cidade e que gostavam muito de vir para aqui à noite e nem sempre acabava bem. Também houve uma altura em que o antigo dono, Armando Teixeira, o fundador desta casa, proibiu a entrada às mulheres".   Nessa   época,   muitos dos   que  ali   entravam   para beber um copo acreditavam que   no   palco   estavam   mulheres e não homens.

"Estava a começar essa explosão e o ideal era que as pessoas que estavam a ver acreditassem   que   era   uma   mulher que estava ali, mas, no fim, fazíamos números de desmistificação do boneco, de arrancar a peruca, rasgar as meias, tudo   isso   que   hoje   já   não   é preciso porque sabem ao que vêm. Na altura, havia pessoas que   entravam   ali   e   ‘ai   que miúda   tão   gira,   podes-me apresentar no fim, de onde é que vieram estas miúdas, são inglesas?’, e depois chegavam ao fim e quando limpávamos a cara, ficavam: ‘o quê, isto são homens?’. Um dia vinha a sair do palco e o dono da casa parou-me: ‘tira lá os peitos’. E virou-se para o cliente e disse: ‘já percebeste agora?’. Era interessante   essa   ingenuidade que   havia   no   país",   recorda Fernando, antes de começar a vestir a pele de Deborah num camarim onde os chapéus, as plumas e as perucas se apertam para que nada caia.

Rivalidade?

Há 30 anos, muitas das roupas dos espetáculos eram pedaços de cortina presos com alfinetes. "Havia muito pouca   coisa   a   nível   do   guarda- -roupa. As vedetas do teatro iam comprar a Paris ou a Madrid, mas nós queríamos um brilho, uma lantejoula, havia uns galõezinhos na Casa Batalha mas era caríssimo para os nossos cachets, ganhávamos   muito   pouco"   diz   Fernando.   Não   dizem   quanto ganham hoje, mas quando o gravador se desliga garantem que "dá para viver bem", porque trabalham todos os dias, "apesar dos gastos em roupa, sapatos e maquilhagem" inerentes   à   profissão.   Até   porque, quando às 03h30 a cortina   se   abre,   querem   ser   as mais bonitas da festa.

"A Nyma [Charles] tem de ter personalidade forte para se impor   nesta   profissão.   Há muitas bocas para um prato só e para te manteres tens de te impor, não com maldade mas com uma rivalidade saudável", explica João Carlos Marques, travesti há 23 anos e autor   dos   seus   fatos   de   cena. "Sou de uma família de costureiros e alfaiates e, por isso, não é difícil. E, quando não tenho tempo para fazer, peço à minha mãe que faça os acabamentos, ela respeita a minha profissão e até já cá veio ver- -me", conta João, ou Nyma.

Hugo   Pardal,   de   27   anos, também já trouxe a família. É o primeiro a chegar, ainda antes da uma da manhã. No bar já se movimentam meia dúzia de clientes que abanam o corpo   ao   som   de   ritmos   como Enrique Iglesias ou Amy Winehouse.   É   o   mais   novo   do elenco, foi contratado há dois anos e precisa de mais tempo para vestir a pele de Kelly Kiss, o   alter-ego   que   descobriu quando trocou o Alentejo por Lisboa.   "A   Kelly   trouxe-me mais   naturalidade:   chego aqui, transformo-me e saio de cara   lavada,   mais   seguro de mim   próprio.   Durante   o   dia sou eu e à noite transformo- -me numa linda mulher, que nasce   quando   eu   ponho   as pestanas." Antes de entrar em palco, e com cuidado para não borrar   o   batom,   fuma   mais um cigarro, fôlego extra para encarar o público que espera pelas   divas.   Finalmente   começou o espetáculo.

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