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Correio da Manhã

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Pontífices sem papas na língua

Francisco é o mais recente de uma longa lista de papas polémicos.
Leonardo Ralha 4 de Janeiro de 2015 às 14:30
Deslocações representam "um sinal consistente da atenção" do papa ao continente asiático
Deslocações representam 'um sinal consistente da atenção' do papa ao continente asiático FOTO: Direitos Reservados

O único consolo dos cardeais da Cúria Romana que não tenham gostado de ouvir o papa Francisco enumerar  as 15 doenças de que a Igreja Católica padece foi a ausência de espanto. Desde que o argentino Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, foi eleito sucessor de Bento XVI,  em 2013, tiveram tempo para se habituarem ao seu estilo.

Mesmo assim, ouvi-lo falar em "Alzheimer espiritual", "esquizofrenia existencial", "fossilização mental" e "terrorismo das coscuvilhices" foi um presente de Natal mais amargo do que seria esperado pelos poderosos do Vaticano. "Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se atualiza, que não trata de se melhorar sempre, é um corpo doente", sentenciou Francisco, a 22 de dezembro.

Após comparar os abusos sexuais cometidos por sacerdotes católicos à celebração de missas satânicas, o primeiro pontífice oriundo do continente americano voltou a marcar a diferença na gestão dos ‘assuntos internos’ da Igreja em relação aos seus antecessores Bento XVI – o primeiro papa dos tempos modernos a renunciar em vida – e João Paulo II, tido como mais empenhado na democratização da Europa de Leste do que na do Vaticano.

"Gostaria de uma Igreja pobre, e de uma Igreja para os pobres", disse Francisco, após ser eleito. O mais recente ocupante do trono de São Pedro deixou logo claro que não teria papas na língua, tal como outros sumos pontífices não tiveram.

HUMANISTA EFÉMERO

Trinta e três dias dificilmente fariam de João Paulo I um papa marcante, mas os sinais deixados por Albino Luciani, ex-cardeal de Veneza, e as circunstâncias da sua morte, a 28 de setembro de 1978, inspiraram muitas teorias da conspiração.

João Paulo I tinha apenas 65 anos quando foi encontrado morto, nos aposentos papais, no Vaticano. As versões divergem, havendo quem atribua a brutal descoberta à freira Vincenza Taffarel, que estava ao seu serviço, e quem indique o padre Diego Lorenzi, secretário papal, como o primeiro a aperceber-se do sucedido. Enfarte do miocárdio foi a causa da morte apontada, embora não tenha chegado a existir autópsia.

As dúvidas quanto às ocorrências da noite, e a vontade de ‘humanizar’ a Igreja, patente em decisões como a recusa do plural majestático ao referir-se a si próprio e o desconforto com sinais exteriores de opulência no Vaticano, levaram a que a morte do italiano acabasse por ser vista como potencialmente criminosa. Algo que só piorou em 1984, após a publicação de ‘In God’s Name’, livro de David Yallop, no qual se defende que João Paulo I corria riscos devido ao alegado conhecimento de esquemas de corrupção no Instituto para as Obras Religiosas, mais conhecido por Banco do Vaticano, que perdeu centenas de milhões de dólares devido à participação no capital social do Banco Ambrosiano.

As palavras de Yallop nunca tiveram resposta do Vaticano, tal como nunca foi confirmada outra suspeita que tornaria um homicídio por envenenamento plausível: João Paulo I teria na mão um papel com nomes de destacados membros da Cúria Romana pertencentes à Maçonaria e envolvidos em escândalos.

Certo é que João Paulo I estaria a agitar excessivamente as águas com declarações tão polémicas quanto as que proferiu numa audiência concedida a bispos filipinos: "Segundo o que nos foi dito por homens do antigamente para atingir os seus objetivos políticos, ‘Deus é pai’. Tendo em conta o que sabemos de verdade: ‘Deus é mãe’". E também não hesitou em lançar um desafio aos seus cardeais, no dia seguinte a ser eleito: "Lembremos a toda a Igreja que o seu primeiro dever ainda é a evangelização".

HOMENS DAS MUDANÇAS  

O nome escolhido pelo mais efémero papa da modernidade homenageava dois antecessores. João XXIII e Paulo VI foram homens das mudanças no Vaticano, ligados ao início e conclusão do Concílio Vaticano II, através do qual a Igreja quis adaptar-se aos novos tempos. Sendo a consequência mais visível o abandono do latim nas missas, que passaram a ser celebradas com o sacerdote virado para os fiéis, os trabalhos decorridos entre 11 de outubro de 1962 e 8 de dezembro de 1965 – com uma interrupção ditada pela morte de João XXIII e eleição do papa Paulo VI – serviram também para lançar um apelo à santidade de todos os crentes, para o fomento do diálogo com outras religiões e para a defesa do ideal de que a salvação da Humanidade residia na Igreja Católica.

O Concílio Vaticano II foi anunciado no início do pontificado de João XXIII, a 25 de janeiro de 1959, perante milhares de fiéis que enchiam a Praça de São Pedro, em noite de lua cheia, surpreendendo a maioria dos cardeais. Ao ser escolhido para suceder a Pio XII, era considerado um interino de quem pouco se esperava. Pelo contrário, explicou no início do Concílio que era "necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo".

Os trabalhos, que envolveram mais de 2500 religiosos, um deles o teólogo alemão Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, foram difíceis. "O Concílio foi uma grande novidade. Nem todos estavam preparados para entendê-lo e aceitá-lo", referiu Paulo VI à Cúria Romana, em 1966.

NOS TEMPOS DE HITLER

Entrar na linha sucessória de São Pedro em 1939 não seria fácil para ninguém. Não foi para Pio XII, cujo longo pontificado, que chegou ao fim com a sua morte, em 1958, aos 82 anos, não foi extenso o bastante para evitar que alguns o recordassem como "o papa de Hitler". O ditador nazi estava longe de ser um desconhecido para o italiano Eugenio Pacelli, que foi núncio apostólico na Baviera entre 1917 e 1929, assistindo à ascensão do nacional-socialismo. Já secretário de Estado do Vaticano, negociou a Concordata com a Alemanha, garantindo a sobrevivência da Igreja Católica em troca da renúncia ao envolvimento na política, apesar de ter denunciado publicamente o regime nazi como "um perigo para o Catolicismo".

Com o início da II Guerra Mundial, Pio XII foi confrontado com acontecimentos complexos para um homem profundamente anticomunista e não raras vezes acusado de antissemitismo. À medida que leis raciais discriminatórias se transformaram numa política de extermínio de judeus, a neutralidade do Vaticano manteve-se à custa de silêncios e cautelas na resposta a apelos para interceder pelas vítimas.

Em 1942, quando os Aliados denunciaram publicamente o extermínio dos judeus, deixando claro que tais crimes seriam punidos, o Vaticano escusou-se a fazer igual condenação. Só no ano seguinte, após as tropas norte-americanas desembarcarem na Sicília, enquanto nazis enviavam judeus italianos para campos de concentração, é que Pio XII deu instruções oficiosas para que a Igreja Católica concedesse refúgio à minoria em perigo. Mais de quatro mil foram escondidos em mosteiros e conventos, e 477 ficaram no Vaticano.

O papa tornou-se mais interventivo à medida que a guerra avançava. Na encíclica ‘Mystici Corporis Christi’, de 29 de junho de 1943, o papa criticou a perseguição baseada na raça ou na fé, referindo--se de forma explícita à eliminação de doentes mentais e deficientes no III Reich. "O sangue dessas vítimas infelizes, que são mais caras ao nosso Redentor, porque merecedoras de maior piedade, é um pranto da Terra dirigido a Deus." Insistentes protestos de Pio XII contra a deportação de judeus húngaros surtiram efeito em 1944. Também então, o Vaticano convenceu países latino-americanos a permitirem a emigração de judeus, sem conseguir apagar a impressão de que mais poderia ter sido feito.

Até ao fim da vida, Pio XII dedicou-se a promover clérigos que lutaram contra o nazismo e o comunismo, empenhando-se na política italiana, devido ao receio de um governo ‘vermelho’. Um dos últimos padres a quem fez bispo, meses antes de morrer, foi o polaco Karol Wojtyla, que viria a ser João Paulo II.

AVISO AO CAPITAL  

Suceder a Pio IX, ainda hoje o líder da Igreja Católica com maior longevidade em funções (31 anos e 236 dias), que definira o dogma da infalibilidade do papa e abriu o primeiro Concílio Vaticano, foi a missão de Leão XIII, que iniciou o pontificado em 1878 e terminou em 1903, falecendo aos 93 anos, o que também constitui um recorde.

Foi o primeiro papa a ter a voz gravada e a ser filmado, mas testemunhar enormes mudanças também se refletiu nas ideias. E não só no anticomunismo, apesar de décadas antes o germânico Karl Marx ter proclamado que a religião era o ópio do povo. Aproximando-se das massas de operários que permitiram a Revolução Industrial, Leão XIII escreveu em 1891 a encíclica ‘Rerum Novarum’, dedicada aos "direitos e deveres do trabalho e do capital", e em que mostrava desconfiança em relação ao capitalismo.

Entre os deveres que o papa apontou aos empregadores constava o pagamento de salários justos, a garantia de tempo livre para a família e religião e o respeito pela dignidade dos trabalhadores. "É necessário vir em auxílio dos homens das classes inferiores, pois estão, na maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecidas", escreveu Leão XIII.

Palavras que tanto poderão parecer senso comum como ainda cheias de sentido no século XXI. Mas sem dúvida uma inesperada chamada de atenção aos poderosos dos finais do século XIX.

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