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Por mais voltas que a vida dê

“Hoje, vai a uma discoteca no último andar de um prédio adormecido, mistura-se (...)”
Tiago Rebelo 29 de Agosto de 2010 às 00:00
Por mais voltas que a vida dê
Por mais voltas que a vida dê

As memórias que ele tem dela parecem-lhe longínquas, não obstante serem recentes. Tem saudades dela. Às vezes, sai para a noite, percorre a noite com o espírito preso aos acontecimentos de há meses atrás, ao breve tempo em que viveram um amor eterno. Hoje, vai a uma discoteca no último andar de um prédio adormecido, mistura-se com o tumulto alegre das vozes dissonantes, da música alta, bebe um copo com os amigos, entra nas conversas, mas, no fundo do seu ser, é como se só escutasse o som suave de um piano, isolado dos decibéis frenéticos que fazem tremer os vidros da janela panorâmica sobre a cidade, pois só tem um pensamento, aquele que o leva de regresso a ela. Ele ainda a ama, como nunca amou ninguém na vida, mas algo se quebrou entre eles, separaram-se, as suas vidas tomaram rumos diferentes.

Dirige-se ao balcão, um amigo oferece-lhe uma bebida da sua garrafa, conversam animadamente ao lado de duas mulheres que, dali a pouco, já falam com eles. Porém, a música alta dispersa as palavras e ele sorri quando os outros se riem de qualquer coisa que foi dito, sem se esforçar para ouvir ou interiorizar as palavras dos outros.

Lembra-se de fazer amor com ela, de estarem deitados lado a lado depois, de a sentir aninhada nos braços sem conseguir vê-la na escuridão do quarto, com a cabeça pousada no peito dele, de ouvir a sua respiração e pensar que vai voltar para ela sempre, por mais voltas que a vida dê.

O amigo anuncia festivamente uma nova rodada, bebidas para todos! Mas, subitamente, já não lhe apetece estar ali, olha para o relógio, diz que é tarde, despede-se, atravessa a confusão até à porta, vai-se embora.

Chegando à rua, aperta o casaco para se proteger do frio que vai fazendo agora, já com o Verão adiantado. Acende um cigarro, solta o fumo para a noite, deixa-o queimar entre os dedos enquanto espera que passe um táxi. Uma multidão noctívaga caminha em tumultuosa animação para cima e para baixo ao longo do passeio, neste e no outro lado da rua. Ele, ausente nos seus pensamentos, passa ao lado do ambiente festivo. O seu espírito deixa-se ir ao encontro dela em pensamento.

Está sempre a pensar nela e sabe que ela também está sempre a pensar nele, de modo que é como se vivessem um para o outro sem se encontrarem. Faz sinal a um táxi livre, atira fora o cigarro, abre a porta, entra, dá a indicação ao motorista, recusa uma tentativa de início de conversa com uma ou duas respostas curtas, fecha os olhos para ver os olhos verdes dela, e pensa que continua a voltar para ela, por mais voltas que a vida dê.

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