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Portugal cheio de Grace

Numa altura em que estreia o filme, recordamos as três visitas que a princesa do Mónaco fez ao nosso país.
18 de Maio de 2014 às 14:00
Com o filho Alberto, na primeira visita, em 1964
Com o filho Alberto, na primeira visita, em 1964 FOTO: Gamma-Keystone

Corria o ano de 1964 e a expectativa era enorme. Anunciada em grandes parangonas na imprensa de então, o casal real do momento, Suas Altezas Príncipes do Mónaco, visitavam Portugal pela primeira vez. Era uma oportunidade única para ver o ícone de Hollywood, a musa de Hitchcock, tornada princesa num conto de fadas que, ainda hoje, excita a imaginação – Grace Kelly, cuja vida e morte chega agora às salas portuguesas pelo ‘rosto’ de Nicole Kidman e realização de Olivier Dahan.

A princesa esteve pelo menos mais duas vezes em Portugal, a última das quais três anos antes do fatídico acidente, na Riviera Francesa, onde, crueldade do destino, rodara ‘Ladrão de Casaca’, uma das suas películas mais famosas.

A primeira visita de Rainier e Grace a Portugal ficou na memória. Coincidência, ou talvez não, os príncipes festejaram aqui o oitavo aniversário do seu casamento, que aconteceu a 19 de abril de 1956 – ela com 28 anos, ele, 33. Para trás ficara uma brilhante carreira no grande ecrã que Kelly abraçara muito cedo, seguindo a veia artística de dois tios. Até porque, com nascimento rico (o pai era um construtor milionário de Filadélfia) e bafejada por uma beleza aristocrática, aos 12 anos, a estudar Artes Dramáticas em Nova Iorque, Grace já pisava palcos e passerelles.

'ALBERCARO II' NO TEJO

Em 1952, assinou o seu primeiro contrato com o modesto salário de 850 dólares por semana... Quantia que, diga-se, bem depressa multiplicou perante o êxito de ‘Mogambo’, ao lado de Clark Gable e de Ava Gardner. Alfred Hitchock também já tinha na mira a clássica beleza da loura Kelly e, em 1954, ‘Chamada para a Morte’ abriu-lhe a passadeira vermelha para se tornar na "décima terceira lenda da história do cinema". Com ele se tornou diva e musa e através dele, também, conquistou o estatuto que a tornaria na ‘mais bela princesa da história’.

A primeira visita a terras portuguesas foi, pois, de arromba. Rainier, cujo pai, príncipe Alberto, fora grande amigo do rei D. Carlos – ambos nutriam grande paixão pelo mar –, prometera ao conde Bonone, então cônsul-geral no Mónaco, estrear o seu novo iate, o ‘Albercaro II’, numa ida a Portugal. Dito e feito: a 10 de abril, a luxuosa embarcação chegava ao Tejo, mas sem Grace, que preferiu voar diretamente para Lisboa com os dois filhos, Carolina e Alberto.

Grace escolhera abandonar Hollywood, mas nem por isso deixou o glamour de diva que passou, doravante, a marcar o clã Grimaldi. Hollywood dera-lhe um Óscar, o Mónaco a coroa.


Em 1955, antes de completar 26 anos, Kelly esteve à frente da delegação americana ao Festival de Cannes e participou numa sessão fotográfica no palácio de Rainier III. De regresso à América, o destinou pareceu escrito quando interpretou uma princesa em ‘O Cisne’, enquanto se correspondia com um príncipe bem real. Este negava publicamente procurar noiva (um tratado de 1918 determinava que teria de ter um herdeiro sob pena do principado reverter para a França), mas já combinara com a família de Grace um dote (dois milhões de dólares) para aquele que foi o ‘primeiro casamento do século’. Pela última vez como Kelly, Grace disse adeus a Hollywood a 4 de abril de 1956 para, quinze dias depois, se tornar princesa europeia.

PERDIZES EM QUELUZ

Na primeira visita a Portugal, Grace passeou por Lisboa mas também por Sintra, Fátima (onde assistiu à missa), Nazaré – há relatos de que terá contado setes saias a uma nazarena –, Alcobaça, Évora e Vila Viçosa. Momento alto, o almoço no Palácio de Queluz oferecido pelo Presidente da República Américo Tomás, com mais de 80 convidados. Vieram expressamente baixelas de Porto Covo e cadeiras do Palácio Nacional da Ajuda. Da exclusiva ementa constaram ovos com espargos, perdizes estufadas, vinhos portugueses e, é claro, aguardente Velhíssima e Porto... Repasto faustoso ao som da Marcha Triunfal de Alfred Keil, do ‘Fado Fantasia’, de Tomás de Lima, ou ‘La Fille aux Cheveux’, de Debussy. O almirante Américo Tomás ofereceu a Rainier uma edição da ‘Portugaliae Monumenta Cartographica’ e a Grace um serviço de chá em porcelana Vista Alegre, com o seu monograma.

A musa que Hitchcock descobrira em 1954, com o filme ‘Chamada para a Morte’, voltou ao nosso país, também com Rainier, três anos depois. "Estava de folga e fui chamado face à importância do evento" – recorda à ‘Domingo’ José Diogo, então com 17 anos e mandarete no Hotel Palace do Estoril, ‘morada’ em Portugal de muitos membros das famílias reais europeias desde a sua inauguração, em 1930. O agora subchefe de portaria está ali há 50 anos e recorda, com orgulho, os clientes mais exclusivos, como Rainier e Grace, em 1967, por ocasião do jantar de casamento da infanta Pilar de Espanha, irmã do atual rei Juan Carlos. "Por ser ainda muito novo, acompanhava os clientes aos quartos, acendíamos os cigarros. Sempre com boas gorjetas..." – diz José Diogo, de 62 anos. "Estavam muitos convidados, incluindo a rainha Vitória Eugénia (neta da rainha Vitória de Inglaterra), e quando os príncipes do Mónaco entraram, puxei as cadeiras para eles se sentarem. Mais tarde, vi que o príncipe Rainier deixara cair um cartão e, é claro, apressei-me a apanhá-lo, ao que ele, muito amavelmente, me agradeceu – recorda José Diogo. Um contacto breve que bastou para perceber a simpatia e simplicidade do casal mas, sobretudo, a extraordinária "beleza e elegância da princesa".

SOZINHA NO ESTORIL

Memórias que se multiplicam ao longo do meio século passado no Hotel Palace do Estoril, onde José Diogo serviu, por exemplo, o conde de Barcelona (pai de Juan Carlos) e onde participou, como figurante, numa das sagas mais icónicas da Sétima Arte: ‘007, ao Serviço de Sua Majestade’, o único James Bond interpretado pelo ator George Lazenby, cuja rodagem passou pelo Estoril e Rossio.

Grace voltou a Portugal em 1979, desta feita sem o seu príncipe. Era o Ano Internacional da Criança e a princesa participou num jantar de gala promovido pela AMADE (Associação Mundial dos Amigos da Infância), ONG monegasca, ainda hoje muito acarinhada pela filha mais velha, Carolina. A princesa, então com 50 anos, mãe de três filhos, aproveitou para inaugurar uma exposição internacional de arte infantil na Galeria do Casino Estoril, onde decorreu o jantar. "Li um texto do Picasso em que ele dizia que tinha passado a vida a tentar pintar como as crianças. Foi então que decidi fazer uma exposição de arte infantil, com a participação de crianças estrangeiras" – recorda Lima de Carvalho, diretor da galeria de arte do casino, explicando que, ao saber da vinda da princesa, contactou a organização para pedir a presença de Grace na inauguração do evento.

"Na exposição estiveram representados 20 países e a princesa esteve aqui mais de uma hora e dialogou com as crianças", explica Lima de Carvalho, sublinhando, também, a beleza e elegância da princesa e a sua "incrível simplicidade". "A princesa presidiu à entrega dos prémios e menções honrosas"– diz, recordando que Grace se admirou por existir uma galeria de arte num casino, ao contrário do que sucedia no Mónaco. "De tal modo encantou que os pequenos artistas queriam tocá-la e despediram-se dela com grande salva de palmas", conclui.


VISITOU REFUGIADOS

No jantar de gala estiveram dezenas de individualidades, incluindo D. Duarte de Bragança. "Das várias ocasiões em que me encontrei com a princesa, esta visita foi a que mais me marcou. A princesa fez questão de visitar um acampamento no Vale do Jamor, onde se encontravam refugiados timorenses. Todos eles, em especial as crianças, ficaram muito felizes e foi muito importante o destaque que deu na opinião pública portuguesa e internacional para o drama que se vivia em Timor", afirmou D. Duarte à ‘Domingo’, sublinhando que o "encanto e a simpatia" de Grace "não eram artificiais", antes refletiam "o amor que ela sentia pelos mais desprotegidos".

O jantar no Casino foi animado por artistas de renome. O fado marcou presença pelas vozes de Amália Rodrigues e de João Braga. "Disse-me que tinha gostado muito de ouvir aquela canção", recorda o fadista, explicando que a princesa foi cumprimentar os artistas, incluindo o Duo Ouro Negro e a espanhola Rocío Jurado. "Estava muito nervoso, porque ela tinha sido uma das minhas paixões", confessou João Braga, recordando que a princesa lhe dissera que achava o fado "um pouco triste". Na breve troca de palavras, o fadista explicou-lhe então que "os portugueses sabem tirar partido da tristeza, divertem-se com ela".

Três anos depois do jantar no Casino, foi o fim. Grace do Mónaco, que emprestara aos Grimaldi o glamour de Hollywood, que dera ao principado a descendência necessária para manter a independência, que tornara Monte Carlo capital do jet-set, com os seus casinos e eventos exclusivos, morria num acidente de viação numa sinuosa estrada da Riviera Francesa, ao volante do seu Rover P6, levando ao lado a filha mais nova, Stéphanie, que sobreviveu. Grace poderá ter sofrido um AVC e despistou-se colina abaixo. Ainda chegou viva ao hospital, mas não resistiu. Não tinha ainda completado 53 anos. No seu funeral, James Stewart, seu ‘partner’ em ‘Janela Indiscreta’, disse: "Sabem, gostava muito de Grace. Não porque era uma princesa, uma atriz, não porque foi minha amiga, apenas porque de cada vez que a via, de cada vez que a víamos, uma luz doce e suave entrava nas nossas vidas."

Começava então a lenda.

CAIXA: KIDMAN É 'GRACE DO MÓNACO'

‘Grace do Mónaco’, interpretada pela beleza gélida de Nicole Kidman, abriu a 67.ª edição do Festival de Cannes. Esperava-se festa de arromba, com a presença dos três filhos da princesa, mas a zanga ‘estoirou’ quando Alberto fez saber que a família se distanciava do filme: não gostaram do guião, por conter demasiado glamour e muitos erros históricos. O realizador, Olivier Dahan, manteve-se inflexível. Kidman dá rosto a uma ‘Grace’ – estreia quinta-feira em Portugal – intimamente ligada ao mundo da moda, mas também uma mulher poderosa, manipuladora, que impunha vontades a Rainier (Tim Roth).

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