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“Portugal sempre foi racista”

‘Mosquito’, uma “história livremente inspirada em factos reais”, estreia em Portugal.
Fernanda Cachão 1 de Março de 2020 às 10:00

A história foi "livremente inspirada em factos reais", ou seja, na figura do avô do realizador João Nuno Pinto, que era um português de Vagos, que queria combater em França na I Guerra Mundial, mas acabou na frente moçambicana. ‘Mosquito’, uma produção luso-brasileiro-franco-moçambicana que estreia em Portugal na quinta-feira, demorou oito anos a concluir porque, explica o realizador, "é difícil fazer cinema   em   Portugal,   arranjar   financiamento,   porque   tivemos muitas peripécias e o filme obrigou a muita pesquisa e quando finalmente estávamos prontos para filmar, começaram os conflitos em Moçambique e tivemos de adiar as filmagens   e   porque,   depois   disso tudo, tive dois filhos". João Nuno Pinto diz que ‘a grande produção’ foi, afinal, "bastante ‘low budget’".

O que quer dizer com ‘low budget’?

Se compararmos com outros filmes, o meu orçamento não paga um dia de rodagem de, por exemplo, ‘Joker’ ou ‘1917’.

Em quanto tempo fizeram a rodagem do filme?

Em dois meses, o que no cinema atual é muito. Hoje em dia, o normal são cinco semanas. Eu preferi ter uma equipa mais enxuta, mas mais tempo para filmar. Originalmente, íamos filmar no Norte de Moçambique, no território macua, mas o confronto entre Renamo   e Frelimo obrigou-nos a mudarmos para Sul.

Quando fala de "uma equipa enxuta", o que quer dizer?

Umas 15 a 20 pessoas, o normal são 70 a 40 pessoas, depende do tipo de filme.

No genérico final lê-se "história livremente inspirada em factos reais", portanto não vemos exatamente a história do seu avô, combatente   na   I   Guerra   Mundial, em Moçambique...

O filme é baseado numa peripécia da vida do meu avô. Ele, de facto, quando tinha 17 anos, queria muito ir para França, soldado, combater   na Primeira   Guerra,   mas   foi enviado para Moçambique, para esta guerra obscura. Esse ponto de partida é verídico, o do jovem que quer ir para a guerra e que em Moçambique é deixado sozinho; isto há 100 anos.

Como se chamava o seu avô?

Zacarias,   mudei   tudo   menos   o nome. Eu nunca o conheci, mas ele sempre foi a figura maior da família. O que me fascinava era a possibilidade de entender o que teria acontecido naquela viagem que, pelos relatos que existem, deve ter sido um horror: numa África ainda muito selvagem, sem estradas, a natureza   esplendorosa   mas   também ameaçadora; os alemães, a fome, a sede, a malária, as outras doenças, num território hostil, pois não estava feliz com a presença portuguesa. As guerras de pacificação de Mouzinho de Albuquerque tinham sido há 30 anos e a ocupação do território tinha acabado de começar, quando este jovem o atravessa sozinho. Não deve ter sido nada fácil e mesmo assim, ele [o avô] quis ficar em Moçambique e eu sempre me perguntei porque é que ele quis lá ficar, razão pela qual eu nasci naquele país.

E conseguiu esclarecer?

Não sei, mas consegui entender o contraste entre Portugal e Moçambique e de uma forma geral África, que   oferecia   uma   liberdade   que Portugal, conservador, católico e sem horizontes, não tinha.

Porque   é   que   se   fala   muito   na participação   portuguesa   em França, mas não se fala tanto da participação neste teatro particular da I Guerra Mundial?

Durante as comemorações do centenário   do   Armistício   falou-se, mas quando há oito anos começámos a pesquisa havia muito poucas publicações. A campanha em África, durante a I Guerra Mundial, foi um desastre; morreram mais portugueses lá do que em França, então   africanos   foi   um   horror,   aos milhões, porque eles eram contabilizados como gado, não se contava à unidade, era aos cem, aos mil, não tinham nomes, mas números. Logo a seguir vem o Estado Novo e o fracasso da campanha portuguesa era tão gritante que contradizia a narrativa da legitimidade da nossa presença no chamado Ultramar e que se baseava na nossa superioridade   em   relação   aos   africanos. Tudo aquilo mostrava o contrário: não éramos uma raça superior - fomos totalmente mal preparados, pois éramos uma jovem República que estava na bancarrota. A única razão porque participámos foi a defesa dos territórios ultramarinos, pois sabíamos que se não entrássemos a Alemanha e a Inglaterra iam dividi-los como despojos de guerra.   Os   soldados   foram   para África com a mesma roupa que foram para França. Aquele chapéu do Zacarias, não servia para nada, era feito de feltro, só aquecia a cabeça. Foi uma vergonha tão grande que tudo foi apagado dos livros de História e foi caindo no esquecimento. Quando começo a escrever, percebo que sou o primeiro e que havia um espaço para ocupar e isso interessou-me muito.

Como   é   que   ‘Mosquito’   conseguiu   abrir   um   festival   internacional de cinema?

Eles gostaram.

Nos grandes festivais é só uma questão de gosto?

Ao contrário de Cannes e de Veneza, em que já há um lado comercial, o de Roterdão ainda está atento a novas linguagens e tem uma preocupação social, com o cinema mais engajado. A escolha teve um pouco que ver com o facto de o festival querer enviar a mensagem de que é possível fazer cinema que fale   da   colonização.   A   Holanda também   tem   esse   passado.   Foi uma maneira de falar da guerra, da colonização, do racismo.

Como é que soube?

Ligou-me o Paulo [Branco] a dar as boas notícias. A partir desse momento, o filme passou a existir. Toda a comunidade cinéfila, de   críticos   e   de   distribuidores, sabe que o filme existe.

É de alguma forma um filme político?

Sim, no sentido em que confronta as pessoas com o passado e permite entender que as narrativas em que nós hoje nos baseamos vêm lá de trás. Certo de tipo de pensamentos e de atitudes são construídas ao longo de milhares de anos e provêm de lugares muito esdrúxulos. A questão da raça, do racismo,   por   exemplo.   De   repente, descobrimos que Portugal é racista, ora Portugal sempre foi racista. O   racista   não   é   o   monstro   que mata ou que bate, é qualquer um de nós quando tem uma atitude discriminatória e isso vem lá de trás, de quando criámos a questão da raça para servir só o propósito de escravizar. Para podermos escravizar, temos de diminuir o outro,   então   dizemos   que   aquela raça é inferior e não há problema; a melhor forma de diminuir o outro é pela cor, é mais fácil. Precisámos de escravos, de levar essa força de trabalho resistente e fisicamente muito mais apta do que nós ou os sul-americanos, os índios. Nós, portugueses, somos responsáveis por um holocausto de escravos. Isso aconteceu para nós, na   Europa,   bebermos   café   [cacau], fazermos bolos [açúcar] e vestirmos roupinha de algodão. No papel, durante a I Guerra Mundial, já não havia escravos, mas havia porque estávamos a fazer uma   guerra.   Os   africanos   eram arrastados para a guerra que os brancos faziam em territórios deles. Entravam numa aldeia e levavam os homens, os mais fortes e aptos   para   soldados,   os   outros para   carregadores   porque   era preciso levar os mantimentos, o material de guerra, à cabeça porque não havia estradas. Um batalhão podia ter dois a três quilómetros de fila indiana de carregadores. A leviandade com que isso era feito é a mesma com que hoje em dia ainda não falamos do assunto.

Encontrou inspiração na sua cinematografia pessoal?

Aproxima-se, de alguma forma, do ‘Apocalipse Now’ [Coppola, 1979] porque esse filme se inspira em ‘O Coração das Trevas’. O livro de Joseph Conrad passa-se no Congo, no final do século XIX, por isso o ‘Mosquito’ é mais o livro. O filme é um dos meus favoritos de sempre, e está a léguas-luz do meu.

Já   não   haverá   nenhum   soldado vivo da I Guerra Mundial, mas alguma vez pensou sobre o que é que um soldado que esteve na Guerra do Ultramar poderá pensar do seu filme?

Há   muitos   pontos   em   comum com a Guerra do Ultramar: a loucura que é enviar soldados para outro país, para lutar por um território que não é o seu, é uma história intemporal. As guerras são invenções. Inventámos a guerra com propósitos económicos ou de poder e depois inventamos narrativas que a justifiquem.

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