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Portugueses e as pandemias

Maria Rosa Gavinho, com 101 anos, feitos a 18 de Junho, lembra-se do Secundino – moço, como ela, nado e criado em Riba de Âncora, freguesia de Caminha –, que regressou doente da I Guerra Mundial. De nada valeram os rogos da mãe para que ela não se aproximasse do enfermo. Triunfou a curiosidade, aliada à simpatia pelo parente Secundino. Rosa ia falar-lhe à ‘cortelha’, pequeno espaço dedicado os animais, onde o militar foi instalado pelos familiares receosos do contágio. "Diziam que aquilo se ‘apegava." E era bem verdade: ‘aquilo’, um vírus da gripe de origem aviária, capaz, por mutação, de se transmitir de pessoa a pessoa, provocou o maior problema global de saúde pública de que havia memória.

13 de Setembro de 2009 às 00:00
Serviço de Atendimento à Gripe do Centro de Saúde de Loulé, em meados de Agosto
Serviço de Atendimento à Gripe do Centro de Saúde de Loulé, em meados de Agosto FOTO: Luís Costa

Os historiadores dividem-se acerca da razão que terá levado a chamar ‘hespanhola’ a esta gripe. Pode ter sido porque, não existindo censura em Espanha, país neutro na I Guerra, a Imprensa informou livremente, desde o início, acerca dos civis que ali adoeciam e morriam em números alarmantes. Ou porque o rei Afonso XIII foi uma das vítimas. ‘Hespanhola’ nada diz acerca da proveniência geográfica do vírus de subtipo H1N1 que, em 1918, infectou principalmente adultos jovens.

O Luís e a Luzia eram quase crianças, amigos de brincadeiras, em Riba de Âncora, de Maria Rosa, e adoeceram os dois. Mais uma vez à revelia da mãe, ela foi vê-los e encontrou-os 'estendidos no chão, numa sala com o soalho cheio de buracos'. O Luís e a Luzia morreram. Os pais ficaram. No País, a maior parte dos óbitos ocorreu nos meses de Outubro e Novembro, consequência da segunda vaga da gripe, terrível, que começou em Agosto. A primeira, com início em Maio, fora relativamente benigna. Tal como havia de ser a terceira, em Abril e Maio de 1919.

O vírus terá entrado, por terra, com os trabalhadores agrícolas regressados de Espanha, onde se havia já declarado, em finais de Maio de 1918. Os primeiros casos foram diagnosticados em Vila Viçosa e é de crer que o contágio se tenha dado a partir de focos em Badajoz e Olivença. Numa nota publicada nos jornais a 28 de Maio, o director-geral de Saúde, Ricardo Jorge, recomendava: 'lavar as vias respiratórias com água salgada ou água oxigenada diluída; manter a higiene interna e externa; tomar ar livre e ventilar habitações. E, por fim, quando alguém era atacado pelo mal, o caminho a seguir seria cama, dieta, tisanas e médico', escrevem os investigadores José Manuel Sobral, Maria Luísa Lima, Paulo Silveira e Sousa e Paula Castro no livro, em fase de impressão, ‘Perante a pneumónica: respostas das autoridades de saúde pública e dos agentes políticos em Portugal’.

Durante o Verão as autoridades sanitárias pouco actuaram. Com a segunda vaga a situação mudou e surgiram as primeiras instruções oficiais: criação de um sistema de informação, organização dos hospitais e recurso a todos os médicos disponíveis, incluindo militares e aposentados. Um decreto de 4 de Outubro proíbe a 'saída do País, tanto pela fronteira terrestre como por via marítima de todas as drogas medicamentosas'. O cenário era de enorme carência de recursos e a gripe progredia com rapidez e violência. 'As autoridades foram sistematicamente ultrapassadas', resume José Manuel Sobral, doutorado em Antropologia. Na prática, primaram pela falta de coerência.

Em Leiria interditou-se o toque dos sinos, ou das campainhas que acompanhavam os enterros, para não alarmar a população, mas não havia açúcar para xaropes. Em Lisboa ordenou-se a reactivação de unidades hospitalares desafectadas ao serviço, como a de Arroios, e a transformação de modernos estabelecimentos públicos, como o Liceu Camões, em grandes hospitais, mas ao Hospital Militar de Campolide afluíam soldados de províncias tão remotas como Trás-os-Montes, focos de contágio, quando a hospitalização se destinava também ao isolamento. Em Lisboa, a Escola Naval e a Escola de Guerra encerraram. Tal como, em Coimbra, a sala de leitura da Biblioteca da Universidade.

O próprio parlamento sidonista votou, a 7 de Novembro, o encerramento até 3 de Dezembro. Mas os eléctricos continuaram a circular e as estações de caminhos-de-ferro só fecharam porque os funcionários tinham adoecido. Ricardo Jorge descria que o isolamento em cidades ou hospitais pudesse travar um vírus tão violento como o de 1918. 'Ele pensava que a vacina era o único meio capaz de fazê-lo', afirma José Manuel Sobral. Não havia vacina. Nem antivirais. Os gargarejos mentolados ou salgados não podiam substituir os medicamentos inexistentes.

Segundo as estatísticas oficiais, morreram 55 780 pessoas. É muito provável que o número tenha sido o dobro, considerando os casos dos que naquele ano morreram em excesso, por comparação com o habitual, devido a infecções do aparelho respiratório ou de causa não averiguada.

9 de Agosto de 1957. Uma criança de 11 anos foi com a família ao porto de Lisboa esperar o avô, que viajava no navio ‘Moçambique’. Dois dias depois estava doente. Nos três dias seguintes adoeceram todos os familiares, bem como o médico assistente, a mulher e os filhos, que residiam no mesmo prédio, em Alvalade. Desta vez a gripe tinha chegado por via marítima. O vírus (H2N2) era outro, completamente diferente, resultante de um processo de recombinação genética integrando três genes de origem aviária e outros cinco da estirpe H1N1, que circulava em seres humanos desde 1918.

Por ter sido inicialmente isolado em Singapura, a pandemia a que deu origem tomou o nome de ‘gripe asiática’. Manuel Neto, 78 anos, prescinde do substantivo. Diz apenas 'a asiática' ao evocar a febre repentina que o atirou para a cama e lá o manteve, a arder, por mais de três dias. O antigo afinador de máquinas movimenta-se com dificuldade. Depende das canadianas após ter sido operado a uma hérnia. Há tristeza e ausência na sua expressão. Ri-se apenas quando conta como nem ‘a asiática’ conseguiu levar-lhe o apetite. 'Parece que ainda comia mais quando estava doente.' A gripe, curou-a em casa, sem, que se lembre, de medicamentos. Não foi só ele. Um estudo realizado pouco depois permitiu concluir que, entre 3076 famílias residentes na capital, 64,5 por cento registara casos de gripe, quase metade dos quais, 47,3 por cento, sem assistência médica.

Manuel Neto passa as manhãs no jardim de Moscavide, onde sempre viveu e que, em 1957 , foi uma das zonas de Lisboa mais afectadas pela pandemia, a par do Bairro da Liberdade, Charneca, Socorro, Escolas Gerais, Campo Grande, Quinta da Curraleira e Alcântara. O médico Arnaldo Sampaio foi, em colaboração com Melo Caeiro, um dos que mais contribuíram para o estudo da ‘asiática’. O trabalho deles atesta, nomeadamente, a especial incidência da gripe em 'zonas da cidade com alta densidade de população e de baixo valor económico-social'. Dos doentes que beneficiaram de assistência médica na capital, 56,8 por cento foram tratados particularmente, 39,2 por médicos de instituições de saúde e 3,9 internados nos hospitais.

O pneumologista Freitas e Costa, que foi director do Serviço de Pneumologia do Hospital de Santa Maria, conta que as enfermarias passaram a ter muito mais camas, o dobro ou o triplo. Só em Lisboa registaram-se 288 óbitos. Nada que, sujeitos à Censura, os jornais noticiassem. Lendo o ‘Diário de Notícias’ e ‘O Século’ fica-se com a ideia de que Portugal é um oásis num mundo contaminado pela gripe – no estrangeiro progride mas por cá mantém o seu 'carácter benigno'. Mesmo quando, a 9 de Outubro de 1957, é noticiado o encerramento dos ensinos técnico, liceal e primário de Lisboa, tal fica a dever-se a causas 'meramente pedagógicas'. E se morreram duas pessoas no Funchal foi devido à 'imprudência dos doentes'. Mas a realidade em Lisboa era marcada pelo absentismo nas empresas, problemas de funcionamento dos transportes públicos, encerramento de escolas, sobrelotação de hospitais, aumento extraordinário de afluxo aos postos dos serviços médico-sociais da Federação da Caixa de Previdência e suspensão de visitas na Maternidade Alfredo da Costa e, depois, nos Hospitais Civis de Lisboa. Estima-se que, apesar das boas notícias, tenham morrido cerca de 10 mil pessoas em Portugal.

Todas as pandemias de gripe são diferentes e a seguinte foi mais branda. Mesmo e não apenas na Imprensa. Foi identificada em Hong Kong em Julho de 1968. Em Dezembro a ‘gripe de Hong Kong’ estava em Portugal. O vírus era o H3N3. No entender de Francisco George, 'a emergência, onze anos antes, do H2N2 explica alguma protecção contra o H2. Por outro lado, como a pandemia de 1889 foi originada pelo H3N8, os mais idosos poderiam ter tido igualmente alguma protecção.' Ao todo há 16 proteínas H e 9N. Mas nem todos os vírus que daqui resultam circulam em seres humanos.

DAS TISANAS PARA A VACINA

Nada que se pareça com a hecatombe de 1918, quando se recomendava tisanas e descanso aos doentes. Em 1957, para além da vacina nacional, Imunadol, os tratamentos foram feitos com antigripais e supositórios. Nos casos mais difíceis recorre-se à penicilina e promicina.

'FICAVAM 'CARREGADOS'

Maria Rosa Gavinho ainda vai à missa todos os domingos, presença confirmada pelo padre de Riba de Ave, que conhece bem a sua mais idosa paroquiana. Rosa nasceu em 1908. Tinha dez anos quando a ‘gripe hespanhola’ entrou na aldeia. 'Aquilo dava às pessoas e elas ficavam muito ‘carregadas’', lembra-se, quase tão bem como de 'uma guerra de que havia' e de dizer-se que a 'guerra tinha trazido a gripe.' Rosa visitava os doentes. 'Diziam que aquilo se pegava'. A ela não.

'PAI EVITOU GRIPE EM CASA'

Em 1957, Francisco George, director-geral de Saúde, tinha dez anos. Lembra-se de as escolas encerrarem e da azáfama do pai, médico, por causa da gripe asiática. 'Não havia apoio laboratorial no tratamento dos doentes.' Eram cinco filhos e o pai de Francisco George tomou todos os cuidados para não trazer a gripe para dentro de casa. Em 1968 era discípulo de Arnaldo Sampaio, que preparou o País para o confronto com a gripe de Hong Kong.

RECOMBINAÇÃO GENÉTICA

É a segmentação do genoma do vírus (oito segmentos genéticos de ARN) que está na origem da sua grande variabilidade. O genoma segmentado permite a troca de material genético de um vírus de origem aviária com outro de origem humana. Quando os dois infectam em simultâneo as mesmas células dão origem a um novo vírus ‘híbrido’. O processo é designado de recombinação genética.

'COISAS TÃO POLUTAS COMO BEIÇOS'

'Não fica mal deixar de visitar enfermos, apesar de ser obra de misericórdia; e também não fica mal, antes ficaria muito bem, acabar com os cumprimentos de uso – apertos de mão e ósculos de cerimónia, gestos que repugnam à higiene e até à cultura, restos que são do passado selvagem. As reverências chegam, bem mais inocentes do que toques suspeitos do próximo – e logo coisas tão polutas como beiços e dedos', recomendava o director-geral de Saúde em 1918. Ricardo Jorge sempre manteve que a causa da gripe era um vírus por identificar (e não o bacilo de Pfeiffer) e, apesar das recomendações sobre ósculos, acreditava que o único remédio era a descoberta de uma vacina específica. 

'UM PAÍS DE AGRICULTORES E POBRES'

Manuel Sobral, licenciado em História, doutorado em Antropologia e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, traça, em linhas gerais, o retrato de Portugal em 1918, quando foi avassalado pela gripe espanhola: 'É uma sociedade predominantemente agrícola – a pouca indústria existente concentra-se no Litoral – com forte emigração, nomeadamente para o Brasil. Há seis milhões de habitantes – agricultores e pobres. Sidónio Pais tinha instalado um regime presidencialista cada vez mais autoritário, apoiado por republicanos conservadores, católicos e pela aristocracia. Também por causa da participação na I Guerra Mundial, as condições de vida das classes trabalhadoras agravam-se.'

'NAQUELA ALTURA ERA MELHOR'

Manuel Neto 'não estava do lado deles'. ‘Eles’ são os que, em 1957 e 1958, censuraram as notícias sobre quem adoeceu e chegou a morrer vítima da gripe asiática. Mas 'naquela altura era melhor', parece contradizer-se o ex-afinador de máquinas. Não é, na verdade, contradição. O que era melhor – percebe-se logo – era a juventude e a força que nem a gripe asiática derrubou.

'HÁ UM CONJUNTO DE MUTAÇÕES QUE TEM DE ACONTECER'

Pedro Simas é director da Unidade de Patogénese Viral do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

- O vírus de 1918 era H1N1. O actual também. É o mesmo?

- Não. São vírus diferentes. Digamos que, do ponto de vista da evolução, tiveram antepassados comuns. Mas este não é o vírus da gripe espanhola. Tem segmentos de H1N1 humanos misturados com outros de origem aviária e suína. São ambas gripe A, pois os vírus saltaram a barreira da espécie, o subtipo é o mesmo mas esta é uma nova estirpe.

- Estivemos na iminência da pandemia devido ao H5N1. E agora surge o H1N1. O que aconteceu?

- O fenómeno biológico é exactamente o mesmo. No caso do H5N1 não se criou uma estirpe transmissível entre seres humanos mas o potencial estava lá. É um acontecimento completamente aleatório. Há um conjunto de mutações que tem de acontecer...

- Por que é que o vírus afecta sobretudo os mais jovens?

- A minha leitura, como virulogista, remete para o fenómeno da reciclagem. Ou seja, as pessoas mais novas tiveram menos possibilidade de contactar com o H1N1 em circulação e, apesar de esta ser uma estirpe diferente, é uma boa notícia o facto de ser o mesmo subtipo. Há-de haver alguma imunidade. Esta é uma leitura especulativa. Não há provas.

- Faz-se ideia, do ponto de vista evolutivo, acerca do momento em que surgiu o primeiro vírus da gripe?

- O que faz sentido é que tenha surgido a partir do momento em que os homens formam grandes aglomerados populacionais pois, para se estabelecer, o vírus precisa disso.

MOMENTOS DA HISTÓRIA DA GRIPE

O vírus da gripe acompanha-nos desde que passámos a viver em grandes aglomerados. Juntando a capacidade de mudar do vírus à cada vez mais intensa circulação de pessoas, é pouco provável que esta seja a última pandemia.

430 A.C.

Uma praga assola Atenas. O historiador Tucidides terá ele próprio sido afectado pela doença cujos sintomas descreveu como 'calores na cabeça, inflamação nos olhos, dores na garganta e na língua'. Alguns estudiosos acreditam tratar-se de gripe associada a infecção por um micróbio.

IDADE MÉDIA

Segundo a crença popular, a gripe é causada por influência dos astros. Julga-se que daí tenha surgido a designação ‘influenza’.

1901

O primeiro vírus da gripe é identificado em galinhas.

1918

‘Gripe espanhola’ ou gripe suína, causada por um vírus de tipo A, com potencial para ‘saltar’ espécies, causa dezenas de milhões de mortes. Movimento de pessoas associado à I Guerra contribui para a disseminação do vírus.

1931

É isolado o vírus da gripe nos suínos, que se acreditava ter-se transmitido aos seres humanos em 1918.

1933

É isolado o primeiro vírus da gripe humana, do tipo A, que infecta hospedeiros de várias espécies.

1940

É isolado o primeiro vírus da gripe de tipo B, que infecta, sobretudo, os seres humanos.

1940

É isolado o primeiro vírus da gripe de tipo C, que afecta predominantemente os seres humanos mas sem efeitos clinicamente graves.

DÉCADA DE 40

São produzidas as primeiras vacinas inactivadas para a profilaxia da gripe.

1957-1958

‘Gripe asiática’, provocada por vírus do tipo A, causa quatro milhões de mortos. Esta gripe chega a Portugal através dos passageiros do navio ‘Moçambique’, que desembarcam em Lisboa a 7 de Agosto. Só em Lisboa causa 288 mortos.

1968

‘Gripe de Hong Kong’, provocada por vírus de tipo A, causa dois milhões de mortos. O vírus é transportado para os Estados Unidos pelos soldados que tinham estado no Vietname. Afecta principalmente as pessoas idosas.

1977

‘Gripe russa’, provocada por vírus de tipo A, afecta principalmente indivíduos com menos de 25 anos que não tinham estado expostos à mesma estirpe 20 anos antes.

1997

Surto de pequena dimensão mas altamente letal em Hong Kong. É causado por um vírus que normalmente infecta galinhas mas ‘saltou’ a barreira da espécie. Morrem seis pessoas que tinham contacto directo com aves.

NOTAS

NOVO

H1N1 fez a 1ª morte a 13 de Abril (México). A 3 de Maio foi divulgado o 1º caso de infecção em Portugal.

VÍRUS

As estruturas antigénica, à qual reagem os anticorpos, e genética do vírus estão sempre a mudar.

PROTEÍNA

Os subtipos do vírus são determinados em função das proteínas de superfície que apresentam – H e N.

NOME

Há 16 hemaglutininas e 9 neuraminidases. Daí as designações H1, H2, H3, H4, H5... H16 e N1, N2... N9.

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