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Procurar a verdade onde a escondemos

Surgiram filmes sobre liceus de pobres. Este é sobre os dos ricos. Não diferem muito.
Joana Amaral Dias 20 de Dezembro de 2009 às 00:00
Procurar a verdade onde a escondemos
Procurar a verdade onde a escondemos

Para chegar a um grande festival, um filme deverá versar sobre um tema social, ser realista e/ou incluir desfocados ou acções fora de campo. Às vezes, esse cocktail é autocomplacente e afasta o espectador. Mas se é fiel a uma certa visão e suficientemente generoso para a partilhar com qualquer um, funciona. ‘Depois das Aulas’ implica alguma cine-alfabetização. Cada plano parece uma instalação. Porém, tem as regras do cinema faça-em-casa-para-pôr-na-net.

Ultimamente, surgiram filmes sobre liceus de pobres. Este é sobre os dos ricos. Não diferem muito. Ambos sentem-se acima da lei. E interagem mais com ecrãs do que com os outros. No elitista colégio de ‘Depois das Aulas’, duas gémeas populares consomem cocaína cortada com raticida. Morrem nos braços dum estudante, fã do YouTube e a quem cabe fazer o filme memorial.

Os pais destes alunos são– e pretendem continuar a ser – uma sombra atrás do volante de pele às sextas-feiras. A escola só quer defender a sua reputação. Não se interroga. Atribuí as responsabilidades ao exterior, limitando-se a aumentar a segurança. Ou a medicação que tudo cala rápido. Porém, o vídeo do aluno é cru, longe da propaganda cor-de-rosa que a escola pretendia ou que uma TV mostraria. Como o próprio ‘Depois das Aulas’, é um manifesto. Pela verdade. Uma verdade pessoal, é certo. Mas um genuíno protesto

contra a banalização e falsificação das imagens, das relações, da vida. Aquela que as gémeas perderam porque até a própria droga estava adulterada.

‘Depois das Aulas’ revela uma sociedade ciber-auto-fágica, que alterna entre mirone e actor. Já não somos famosos voluntários. O estrelato é involuntário. Amor ou ódio, sexo ou execuções, tudo deixa de ser resolvido no privado para apenas ser difundido publicamente. E, assim, todos correm o risco de ficar a navegar para sempre, pairando nesse vazio.

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