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Daniel Silva: “Próximo da deadline torno-me num eremita”

É uma fábrica de fazer bestsellers. O americano, filho de pais açorianos, foi jornalista antes de se dedicar aos romances de espionagem.
Fernanda Cachão 7 de Julho de 2019 às 09:00

O americano Daniel Silva é filho de emigrantes açorianos e autor muito bem sucedido de livros de espionagem publicados em mais de trinta países; deles emerge a figura de Gabriel Allon, novamente em cena em ‘A Outra Mulher’. O livro editado em Portugal pela Harper Collins serviu de pretexto para a entrevista por email ao autor, na qual contou que demora seis meses a escrever uma nova história, que edita uma a cada ano e que o ofício de jornalista o ajudou a criar enredos internacionais com verdade, e que depois dos atentados de Paris e de Bruxelas pensou em deixar de escrever.

Já as perguntas a propósito da notícia sobre a venda dos direitos dos seus livros à produtora cinematográfica americana MGM, sobre a dificuldade de publicar uma primeira obra, bem como todas aquelas relativas à ascendência portuguesa mereceram um risco por cima - ficaram sem resposta.

Consegue imaginar o que pensaria o atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, que foi agente do KGB,   sobre   este   seu   último  romance   que   tem   como   pano   de fundo o Kremlin e os serviços secretos russos?

Só posso mesmo imaginar, mas se souber   de   facto,   por   favor   diga-me.   Este   livro   é   um   entretenimento sobre um assunto muito sério.   Qual   é   o   objetivo   de   Putin? Penso   que   é   o   regresso   do   velho império russo-soviético e a destruição da ordem global que saiu do pós-Guerra Fria. Quanto mais depressa percebermos isto melhor, pois Putin testa-nos, tenta perceber de que material somos feitos.

Em ‘A Viúva Negra’ escrevia sobre conexões entre ataques terroristas em Paris e em Molenbeek, Bruxelas, antes de aqueles sequer terem de facto ocorrido. No atual contexto   internacional   já   não existe grande diferença entre realidade e um bom thriller?

Quando   o   vírus   informático stuxnet   atacou   o   programa   nuclear iraniano e os leitores de ‘O Caso   Rembrandt’   perguntaram ‘mas como é que ele sabia isto?’, senti-me   orgulhoso.   Foi   gratificante verificar que tinha antecipado os factos. Mas em ‘A Viúva Negra’, uma história sobre um ataque terrorista em Paris, senti-me péssimo. De tal maneira que coloquei a mim próprio a questão se queria mesmo continuar a escrever o livro com tão grande peso em cima. Foi muito estranho verificar que algo que tinha sido produto da minha imaginação acontecera na realidade. Fiquei destroçado. Pensei seriamente em deixar o livro de lado e dedicar-me a escrever outra coisa   inteiramente   diferente.   Mas acabei por achar que devia terminar o que já tinha começado.

De que maneira o facto de ter sido jornalista, de ter feito a cobertura de conflitos políticos e da guerra Irão-Iraque, ajuda a sua bem sucedida carreira na escrita de thrillers?

Sempre procurei factos que suportassem as minhas histórias e, por isso, costumo pesquisar e ler tudo até cegar. Para ‘O Assassino Inglês’, que é a propósito da pilhagem de obras de arte pelos nazis, devorei tudo o que encontrei sobre o assunto. Em ‘O Confessor’, que também trata do holocausto e da II Guerra Mundial, focados na figura do Papa Pio XII e no papel da Igreja Católica de então, terei lido centenas de livros e artigos sobre o assunto. E, é claro, por causa de Gabriel Allon pesquisei muito   sobre   restauro   de   arte. Adoro. Mas independentemente do tempo que despenda nas minhas   pesquisas   de   caráter jornalístico a propósito de assuntos sobre os quais vou escrever, nunca pretendo que a realidade se intrometa na imaginação. É como se arranjasse sempre   um   número   maior   de factos e com eles enchesse até cima   um   tanque   mas   depois usasse   apenas   os   suficientes para tornar a leitura interessante,   um   divertimento.   As   pesquisas servem para dar largas à imaginação, para tornar a história interessante aos olhos do leitor.   É   esse   o   meu   principal objetivo.

Já referiu que escreve um livro a cada sete meses. Pode contar-nos alguma coisa do seu processo de escrita?

Atualmente, já estou a escrever um livro por ano, mas o processo de escrita leva cerca de seis meses. No entanto, a escrita   é   um   processo   metódico, uma   determinação,   em   que uma vez iniciado um livro, escrevo todos os dias, sete dias por   semana,   até   o   acabar. Quando estou próximo da minha   deadline   torno-me   num eremita.   Por   vezes   escrevo doze, catorze horas por dia.

Se escolhesse uma ou duas características da personalidade de Gabriel Allon, o agente dos serviços secretos israelitas que criou para os seus livros, quais seriam?

Acho que o charme do Gabriel reside em dois traços muito diferentes: ele não é apenas um operacional inteligentíssimo, é um dos maiores peritos em restauro de arte. Estas duas facetas fazem do Gabriel uma personagem muito diferente de outras do género. E é por isso que tenho muitos leitores que não são aqueles que normalmente costumam ler romances de espionagem. Tenho de agradecer, e muito, ao Gabriel Allon.

É fácil criar personagens femininas credíveis em romances de espionagem?

Algumas das minhas personagens favoritas são mulheres. E muitos dos meus leitores dizem--me que são frequentemente as personagens   mais   fortes.   De qualquer maneira, sempre que escrevo, tento que seja autêntico. Por exemplo, procuro passar o máximo de tempo possível nos locais onde as minhas personagens vivem e trabalham. Já estive nos quartéis generais da CIA e do KGB, já viajei na limusine do presidente e até já estive no Vaticano com uma obra de Leonardo da Vinci nas mãos.

Um dos seus dois filhos chama-se Nicholas por causa da personagem Nick Carraway de ‘O Grande Gatsby’, de F. Scott Fitzgerald. Quais são os outros livros de outros grandes autores que admira?

‘1984’, de George Orwell, é o meu livro preferido, seguido de perto por ‘O Americano Tranquilo’, de Graham Greene, e ‘O Céu que nos Protege’, de Paul Bowles. Mas se me dissessem que por toda a eternidade apenas podia ler dois livros, escolheria sem sombra de dúvida ‘O Grande   Gatsby’   e   ‘Terna   é   a Noite’, ambos de F. Scott Fitzgerald, dois livros extraordinários, escritos com uma prosa luminosa que é de facto à prova de toda a eternidade.

Quantos livros lhe faltam ainda escrever para se tornar tão rico como JK Rowling, James Patterson ou Stephen King?

Sinceramente, espero que um dia tal possa acontecer mas não tomo nada por garantido. Ainda fico surpreendido quando   os   meus   livros chegam a bestsellers. Ainda tenho a mesma surpresa, a mesma excitação como se fosse a primeira vez.

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