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Quando falar é ofender

Depois de um livro em defesa da língua portuguesa, o autor comenta o ‘politicamente correto’.
Francisco José Viegas 26 de Janeiro de 2020 às 11:00

Pouca gente tem dúvidas acerca da necessidade de a língua (os dicionários e a gramática) efetuar uma espécie de ‘reparação’ a minorias étnicas ou sociais e sexuais. Manuel Monteiro, o autor de ‘Sobre o Politicamente Correcto’ (grafado com ‘c’, que o autor não segue o Acordo Ortográfico), cita George Steiner a esse propósito: as linguagens dominantes no Ocidente eram de uma ignorância assustadora sobre o Islão, a escravatura na América, o racismo e a cultura negra, bem como essencialmente masculinas. Para ‘reparar’ essas injustiças, a linguagem teria de mudar.

"Porém", escrevia Steiner, "muito do que se tem verificado é um arrevesamento da argumentação e investigação responsáveis. […] Pseudoprogramas de ensino foram institucionalizados em detrimento de disciplinas indispensáveis, produzindo não uma libertação, mas novos guetos para os afro-americanos ou para os hispânicos. A história foi reescrita até ao ridículo". E Manuel Monteiro dá um exemplo precioso, os alunos de uma universidade londrina exigindo a descolonização da escola, e propondo "que vultos como Platão, Descartes ou Immanuel Kant" deixem de ser estudados por serem caucasianos – brancos, homens e, já agora, velhos. A quantidade de exemplos desta novela de tolinhos tem vindo a compensar-me todas as semanas, quando faço a releitura da imprensa e descubro novos casos de limpeza, desde escolas que proíbem o Capuchinho Vermelho ou a Bela Adormecida até professores tarados que pedem que se queimem os livros de Flaubert, esse misógino machista.

Manuel Monteiro, seguindo essa pista, mas acrescentando-lhe os seus conhecimentos de linguista e competente revisor, estuda o "politicamente correcto português", dedicando largas páginas a inventariar casos de destrambelhamento. A nossa vantagem é que Monteiro é também filólogo, ou seja, estuda a origem das palavras – e as suas explicações têm humor, graça e vêm com a fina poalha do sarcasmo. E do bom.

Em vez de nos ofendermos com quem fala e de nos ofendermos – logo – com quem se ofende, eu recomendo vivamente a leitura deste livro de Manuel Monteiro, o autor de ‘Por Amor à Língua’, um belo livro sobre a nossa língua, o último dos nossos bens.

Disco: Barroco e esplendor
O agrupamento La Serenissima deixou-nos (o disco é de novembro) algumas gravações de grande esplendor sob o título ‘The Godfather’, dedicado aos mestres do barroco alemão e italiano. Aqui nos aparecem Pisendel ou Brescianello, ao lado de Telemann, Fasch ou Vivaldi – belos momentos para nunca mais perder.

Livraria: Gémea desigual e diferente
É gémea da Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio de Janeiro (a minha preferida), mas não tem nada a ver: esta, do mesmo grupo brasileiro, fica no Príncipe Real lisboeta – e é uma livraria que apetece: escolhe os seus próprios livros, é bem iluminada, ameaça ser um lugar de encontro entre pessoas amáveis que gostam de livros e do final de tarde.

Bar: Vício de forma

Praticamente, a minha idade adulta começou aqui, no Snob, que existe há mais de 50 anos e não é – felizmente – um bar da moda; em vez disso, há bifes, carne estufada, croquetes, bochechas de porco, bacalhau à braz, pataniscas e álcoois de renome. Uma pessoa tem, periodicamente, de ir lá assinar o ponto no livro do Sr. Albino.

Fugir de…Pessoas que salvam o Mundo
Dá-nos conselhos sobre literatura ameríndia e o uso do copo menstrual com a mesma sensação de neutralidade, como se tivesse acabado de atingir o seu orgasmo semanal durante um exercício de ioga. Faz chá de gengibre, cravinho, limão e canela e tenta impingi-lo logo de manhã. Sabe quantos passos vão de casa até ao ecoponto mais próximo (agora acrescentou o depósito de compostagem). Quer ir a restaurantes onde servem carne para exigir mais opções herbívoras, passa horas a pesquisar "alojamentos sustentáveis" e anda sempre com uma garrafa atrás, pendurada numa mochila suja. Ui.

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