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“Quando terminou o ataque de morteiros o furriel estava nu”

Durante um ataque em Nura, o tubo do morteiro começou a aquecer e um camarada usou as cuecas para não se queimar
Manuela Guerreiro 10 de Maio de 2020 às 06:00

Quando parti senti uma ansiedade profunda e, lá no fundo, medo pelo desconhecido, talvez motivado pela viagem rápida de avião (13 horas), não a viagem marítima de 28 dias. Cheguei a Moçambique a 3 de julho de 1972, integrado no Batalhão de Caçadores 3886, Companhia de Caçadores 3554. Vivi de tudo, bons e maus momentos. Os bons sobrepuseram-se aos maus, felizmente, e ficou uma imensa amizade que perdura até hoje e é sempre com emoção bem vincada, quando, anualmente, nos juntamos num convívio. Este ano seria o 41º.

O correio era vital para o nosso comportamento, ter notícias dos que nos são próximos ajudava-nos até à chegada do avião do correio. No meu caso tinha namorada e madrinhas de guerra, estas ajudavam-nos, realmente, a passar melhor o tempo, além, claro, dos meus pais, que escreviam quando podiam.

O momento mais trágico e arrepiante que vivi foi o rebentamento de uma mina anticarro no autotanque carregado de água. Tivemos de ajudar a retirá-lo e alguns rapazes perderam a cabeça, momentos muito difíceis em que tive de ser muito frio para controlar o meu pessoal. Sempre que havia rebentamento de minas era uma consumição. Felizmente não fiquei ferido, tive muita sorte.

Era furriel miliciano e estive em Mucumbura, Cantina do Nura e Milange. Recordo um episódio, durante uma operação. Deparei com alguns populares que estavam fugidos havia dois anos, capturei-os e, entre eles, estava um miúdo a quem dei de beber e comer. Estava tão fraquinho que o trouxe aos ombros para o aquartelamento. Meses depois, entregou-se um chefe da Frelimo e contou-me que eu tinha estado várias vezes debaixo da mira da ‘kalash’ dele, mas a minha ação tinha feito com que não disparasse, porque o miúdo era seu filho, enfim uma sorte danada.

Defesa em cuecas
Estávamos há 15 dias em Nura quando sofremos o primeiro ataque, a 14 de outubro de 1972. Eram 20h15. Começávamos a preparar-nos para a deita, quando ouvimos um disparo ao longe. Corri para o morteiro, onde já estavam o alferes Mota e o furriel Fonte. Eu tirava a cavilha das granadas, o Fonte agarrava o tubo e o Mota encaminhava-as para os morros.

Passados alguns minutos, o morteiro começou a aquecer e a queimar as mãos do Fonte, este tirou as cuecas e pô-las à volta do tubo. Pouco depois, terminou o ataque e o Fonte estava nu! Tivemos sorte porque o fogo passou todo por cima. De seguida, agarrámos, cada um, numa garrafa de (aguardente) 1920 e apanhámos uma grandessíssima bebedeira. Nunca mais bebi 1920, já lá vão 47 anos. Ao nascer do dia, fomos ao local e deparámo-nos com um homem da Frelimo, devidamente fardado, morto. Fiquei-lhe com o quico (boné). Uma granada nossa tinha atingido o posto de comando do ataque da Frelimo.

Entre 1972 e 1974, no que a Moçambique diz respeito, estávamos apenas a controlar o inimigo, uma vez que não se podia estar em todo o sítio ao mesmo tempo. Por essa altura, o dispositivo militar ia recuando para sul (Beira e Lourenço Marques) para tentar travar o avanço da Frelimo. Daí ao 25 de Abril foi um passo, a situação começava a estar insustentável.

Em junho de 1974, fui incumbido de guardar os agentes da PIDE/DGS em Mocuba, na província da Zambézia. Estive 15 dias a guardá-los numa quinta e eles à espera que a população os acusasse de tortura, perseguição, etc. Eram 83 agentes na Zambézia e só três foram acusados e enviados para Machava, Lourenço Marques (hoje Maputo). Os outros, 15 dias depois foram colocados em aviões e partiram para Lisboa, de onde foram encaminhados para Caxias. Regressei a 14 de outubro de 1974.
Depoimento de: Francisco Mota das Dores
Comissão: Moçambique (1972-1974)

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