Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

Refugiados de luxo

A paz, o sol e o mar portugueses foram chamariz para muitos exilados ricos.
Ana Maria Ribeiro 27 de Setembro de 2015 às 12:30
Juan Carlos com a mulher Sofia no casamento da irmã, Pilar, que teve lugar no Estoril
Juan Carlos com a mulher Sofia no casamento da irmã, Pilar, que teve lugar no Estoril FOTO: Hotel Palácio Estoril

Na última cena do filme ‘Casablanca’, Ilsa Laszlo (personagem interpretada por Ingrid Bergman) apanha o avião para Lisboa para fugir aos nazis que perseguem o marido, herói da Resistência Francesa. A capital portuguesa será o seu passaporte para os Estados Unidos. É um daqueles casos em que a ficção seguiu a realidade. Estima-se que entre 1939, ano em que começou a Segunda Guerra Mundial, e 1946 tenham passado por Portugal mais de 20 mil estrangeiros. Alguns por razões políticas, outros para fugir ao conflito, entre eles artistas e membros da aristocracia europeia. Cabeças coroadas depostas que encontraram em Portugal o lugar ideal para um interregno solarengo, de luxo, à beira-mar.

No livro ‘Reis no Exílio – Portugal Refúgio Real’ (A Esfera dos Livros), Charles-Philippe d’Orléans elenca todos os membros da realeza da Europa que residiram em Portugal neste período. Oliveira Salazar, que em jovem teria nutrido simpatias monárquicas, abriu-lhes as portas, fascinado pelo brilho de príncipes e princesas, e só pedia em troca que se abstivessem de qualquer atividade política em solo português, supostamente neutro.

Os primeiros a chegar foram os duques de Windsor, que vinham de Madrid depois de fugir de uma Paris já ocupada pelas tropas alemãs. O antigo rei Eduardo VIII – que abdicara do trono para casar-se com a mulher que amava, a divorciada Wallis Simpson – instalou-se temporariamente na casa do banqueiro Ricardo Espírito Santo Silva, em Cascais. Pouco tempo depois chegou o rei Carol da Roménia, e seis anos mais tarde a família real espanhola estabelecia-se no Estoril. O rei Humberto e a rainha Maria José, de Itália; a família real francesa e a czarina Joana, da Bulgária, vieram depois.


REALEZA EM CASCAIS

João Aranha era jovem na passagem da década de 40 para a de 50 e frequentador de Cascais já que o avô, monárquico ferrenho, tinha lá uma casa. Lembra-se "perfeitamente" dos verões agitados, quando o povo assistia, curioso, à passagem dos notáveis que na altura habitavam na zona. Como o futuro rei de Espanha, Juan Carlos, que tinha chegado ao Estoril com apenas oito anos. "Os Borbón viviam numa casa, mesmo atrás do Casino, a que se dava o nome de Villa Giralda. O Juan Carlos foi criado e educado cá e o meu avô, que pertencia à velha aristocracia de Cascais, tinha acesso à família real", recorda. "Onde hoje está instalado o museu da Paula Rego havia um jardim muito privado, o Jardim da Parada, reservado às grandes figuras, e era lá que se reuniam para as suas festas."

Sobrinho do escritor Pedro Falcão (autor de ‘Cascais Menino’, monografia sobre a história da vila entre os últimos anos da monarquia e os primórdios da república), João Aranha diz que ainda lhe chegaram ecos da má relação que teriam pai e filho – João de Borbón, conde de Barcelona, e o filho, Juan Carlos. "Parece que os conceitos políticos não seriam os mesmos entre um e outro, o que é normal entre gerações diferentes. Mas sobre isso não há documentos escritos..."


O ritmo da vila era marcado pelas aparições das figuras reais, acompanhadas de perto por jornalistas das revistas ‘Flama’ e ‘O Século Ilustrado’, "mas tudo com enorme respeito", recorda João Aranha. Quando o irmão de Juan Carlos, o jovem Alfonso, de 14 anos, morreu, supostamente enquanto brincava com uma arma de fogo com o irmão, em março de 1956, o assunto foi abordado com "extrema delicadeza". Nada que se compare com a forma como hoje os famosos são tratados na imprensa.


"O rei Humberto aparecia todos os dias na missa e as meninas da realeza iam à praia de fato de banho reduzido, para a época. Mas apesar da proximidade, aquilo era vocês aí e nós aqui", lembra João Aranha. "Não havia uma verdadeira interação. Apenas admiração à distância pelas figuras reais."


NADAR TODA NUA

Os pintores Salvador Dalí, Marc Chagall e Max Ernst, o escritor Antoine de Saint-Exupéry, a colecionadora de arte Peggy Guggenheim também passaram por Portugal neste período conturbado. No livro ‘Lisboa – A Cidade Vista de Fora, 1933-1974’ (Editorial Presença), o escocês Neill Lochery conta que Peggy, que gostava de tomar banhos de mar completamente nua (mas só à noite, quando ninguém estava a ver), chegou a ser repreendida pela polícia por usar fatos de banho que as autoridades consideravam "indecentes". E que o pintor Max Ernst confessaria, mais tarde, que a luz de Sintra marcou definitivamente a sua obra pictórica.

Pior foi a sorte de Marc Chagall. O pintor e ceramista russo – e judeu – chegou a ser preso pela Gestapo em França antes de chegar a Lisboa, de passagem para os Estados Unidos. Chagall estava profundamente deprimido e mais deprimido ficou quando, no cais de embarque, viu centenas de judeus, como ele, de malas aviadas. Escreveu, na altura, um poema, sobre o cais lisboeta e a sua tristeza.


Os exilados ficaram todos entre Cascais,  Estoril, Lisboa e Sintra, mas enquanto na capital os judeus vendiam tudo o que traziam – às vezes trocavam grandes carros por bilhetes de barco para a América – e faziam filas intermináveis à porta da Embaixada dos EUA para conseguir os respetivos vistos, em Cascais e no Estoril não se viam pobres, garante João Aranha. Ou pelo menos "não se dava por eles". "Não nos enganemos: os judeus que eram realmente pobres iam para os campos de concentração e ponto final. Só aqueles que tinham alguma coisa para vender é que conseguiam atravessar fronteiras bem guardadas e chegar a porto seguro", diz. Foi nesta época que Aristides de Sousa Mendes – o cônsul de Portugal em Bordéus – desafiou Salazar e, em apenas cinco dias, concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a refugiados de várias nacionalidades. Entre eles, o barão Henri de Rothschild, do ramo inglês da família judaica de banqueiros famosos.


Mas na altura também se fizeram grandes negócios em Portugal. Os preços das estadias em hotéis subiram apreciavelmente e há quem diga que muitos daqueles que "generosamente" ajudavam os judeus a sair do País o faziam a troco de obras de arte e joias que valiam muito mais.

Cidade de espiões


Entre artistas e realeza, Portugal tornou-se também polo de atração de espiões internacionais. Como explica Neill Lochery no livro de 2013, os hotéis Tivoli, Avenida Palace e Duas Nações eram conhecidos por albergar espiões do Terceiro Reich, enquanto os ingleses preferiam o Metrópole e o Avis. É história sobejamente conhecida o facto de Ian Fleming, o pai de James Bond que, durante a década de 40, trabalhou para os serviços secretos britânicos, ter residido entre nós. Alojou-se no Hotel Palácio, no Estoril, em maio de 1941, e era frequentador assíduo do Casino, onde se terá inspirado para criar a primeira aventura do agente 007, ‘Casino Royale’.


Menos conhecida é a história de Leslie Howard, o ator britânico judeu que, não sendo espião, trabalhava para a propaganda dos Aliados e esteve em Lisboa para promover a cultura britânica entre nós. O ator de filmes como ‘Escravos do Desejo’ e ‘E Tudo o Vento Levou’ teve um fim triste, relacionado com o
nosso país. Quando regressava a Bristol, o avião que o transportava foi abatido pelos alemães enquanto sobrevoava o golfo da Biscaia, e ele morreu, no auge da popularidade, com 50 anos.


A última exilada real no nosso país foi a czarina Joana, da Bulgária, que chegou no início da década de 60, depois de ter vivido no Egito e em Espanha. Joana de Saboia tinha sido obrigada a sair da Bulgária em 1946, quando um golpe de estado proclamou a República Popular da Bulgária e as novas autoridades deram 48 horas à família real para abandonar o país. A czarina fixou residência no Estoril e aí viveu até morrer, a 26 de fevereiro de 2000, com a proveta idade de 92 anos.

E embora atualmente já não se possa falar de refugiados reais, ainda subsistem elementos da realeza na região, caso de Charles-Philippe d’Orléans, duque de Anjou, descendente em linha direta dos reis de França e casado com Diana Mariana Vitória Álvares Pereira de Melo de Orleães, duquesa de Cadaval. Os príncipes José Arpad e Maria de Habsburgo, arquiduques da Áustria, vivem no Estoril há décadas. Primam pela  discrição. 
exílios dourados refugiados ricos nobreza famílias reais
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)