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Restauram a vida e os livros na tipografia

Enquanto as mãos manejam com destreza um conjunto de folhas que já foi um livro e em breve voltará a ser, Rafael revê um outro índice, o que numerou a sua história antes de penhorar a liberdade no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), há dois anos e sete meses, acusado de tentar matar a sogra e de conduzir sem carta. Um livro onde se escreveram letras bem diferentes das que agora compõe e arranja, para Códigos de Direito Civil com mais anos de edição do que o recluso de existência, vindos de um dono de peso: a Procuradoria-Geral da República.
29 de Março de 2009 às 00:00
Uma das máquinas mais antigas da tipografia, que faz o trabalho de impressão do EPL, é de 1850. Há quatro máquinas de offset, de impressão com chapa, e três tipográficas. São inúmeras as ferramentas à disposição dos reclusos para o trabalho na tipografia.
Uma das máquinas mais antigas da tipografia, que faz o trabalho de impressão do EPL, é de 1850. Há quatro máquinas de offset, de impressão com chapa, e três tipográficas. São inúmeras as ferramentas à disposição dos reclusos para o trabalho na tipografia. FOTO: Pedro Catarino

Estamos na tipografia do EPL onde há mais livros do que barulho. O som de fundo tem uma sinfonia pouco humana, mais industrial. É a batida das máquinas que numa azáfama desenfreada cortam, picam, imprimem, escrevem, recortam e estampam a quente sob o olhar atento dos que cumprem pena. As calças vermelhas – que veste a maioria – estão sentadas nas bancadas e abanam os ténis à falta de poder tremer as mãos. O cuidado tem de ser muito porque tudo o que se possa ter é pouco para o "delicado" trabalho que exige o tratamento de livros que ao mínimo suspiro se podem desfazer em pó. A bandeira de Portugal enche uma parte da parede que partilha com um cartaz de apoio aos Lobos do râguebi e dizeres da Bíblia sobre cárceres e libertação. O calendário Boa Semente está a dias de avanço e lê--se nas imediações que ‘pensar é criar’.

Rafael consegue a concentração exigida quando não se perde no que já foi escrito. Como o filho que perdeu para a adopção por não ter condições para o criar. "Era um menino, nunca mais soube nada dele". Ou o rancor contra a sogra que o levou a "libertar gases tóxicos na casa dela" à espera de um desfecho mais eterno. "Ela roubou-me a herança que recebi do meu pai e nunca lhe perdoei por isso. Os meus crimes foram cometidos em dois dias, estava de cabeça perdida, embora já conduzisse sem carta há doze anos". As mãos delicadas que cosem com cuidado e precisão as folhas, escritas em francês, da Procuradoria-Geral da República, contrastam com a dureza do que nos diz e viveu. Os 40 anos pesam-lhe nos olhos sombrios mas não na figura ágil. A careca é mais estilo do que problema.

Na bancada amarela, mais à frente, alinham-se os Diários da República de 2001. "Aparecem com as folhas todas soltas e temos de fazer delas um livro". A explicação é dada por Rómulo, 53 anos, e parece simples mas cose-se com linhas difíceis. Chama-se a agilidade às páginas e "muita paciência". Terminada esta empreitada, a viagem dos papéis é curta em direcção ao acabamento final – para levar as copas. "Lá fora", como os reclusos clamam quando se trata do exterior, Rómulo era professor do Ensino Secundário mas a droga chamou-o ao quadro negro. "Roubava para conseguir dinheiro para consumir, mas eram roubozitos de amador, sou a ovelha ranhosa de uma família de advogados, vim da classe média alta". O relógio brilha-lhe no pulso moreno e agita-se ao sabor da explicação. E serena quando lhe perguntamos o dia em que chega a liberdade. "Saio em Novembro, já estou preso há oito anos, acho que desta é que não volto, já é a segunda vez".

FILHOS À ESPERA

‘O pai já não vai mais trabalhar, pois não?’, pergunta a Beatriz, três anos de vida que não imaginam as voltas que já deu a vida do pai. João Pedro está preso no EPL por tráfico de droga. "Mas quando vou de precária digo sempre à minha filha que vou trabalhar". Não é mentira, embora o emprego na tipografia seja vigiado de perto por um guarda prisional e o quotidiano entalado entre quatro paredes e um pátio. "Com jeito isto vai lá", diz João, 29 anos. ‘Isto’ é a recuperação dos livros antigos que neste instante exige que se raspe com uma faca a última folha "que é sempre a mais estragada". O recluso está satisfeito com o andamento do trabalho. "Um destes fiz em meio dia, mas há outros que demoram mais". A lista de volumes do ‘Journal du Droit International Privé’ para recuperar está, constatamos, mais pequena do que a inicial. "Temos para fazer até ao volume 77 que é desde 1864 até 1977, há uns mesmo muito velhos mas não é um trabalho difícil. Estou há um mês na tipografia e já percebo bué disto e quero sempre ver do que falam os livros. Bem, este é em francês e não entendo".

A língua é outra mas Fernando, 31 anos, está por perto a fazer tarefa semelhante. Também tem uma relíquia nas mãos. "Este – aponta – tem séculos, é de 1800 e tal. Com isto é preciso muita calma, senão vai tudo ao ar, é uma responsabilidade até porque alguns vêm da Procuradoria, mas temos cuidado com todos". Hoje está entretido a "tirar a cola antiga para depois colar as folhas soltas em montinhos de quatro. Só depois são contadas para ficarem certinhas", explica com entusiasmo, enquanto sacode ripas de madeira. Um furor que abranda ao recordar o que o trouxe ao EPL há pouco mais de dois anos. "Tráfico". E os três filhos a crescer sem ele por perto – "um a morar com a avó, os outros dois com a minha actual mulher".

O DIA DA PRECÁRIA

Na sala da impressão, o trabalho corre sobre rodas. Hoje é dia de precária e João conta as horas para a liberdade provisória que lhe devolveu o brilho aos olhos claros. Há cinco anos que limitou os dias à prisão, depois de "um assalto à mão armada". Já vê ao perto o corolário da felicidade plena mas sabe que batalha ganha não significa fim de guerra. "Quem tem cadastro é visto pela sociedade como repugnante mas eu não pensei quando fiz o que fiz", acusa, receoso da dificuldade de arranjar trabalho. Na cela, durante as horas vagas, sonha com um futuro risonho na oficina do pai. Mateus, com o regresso à Angola natal onde espera esquecer o roubo do carro que o trouxe ao EPL. Pedro quer ficar por cá, a acompanhar os filhos que diz ter desiludido. "Achamos que o crime nos faz ter uma vida melhor, uns ténis adidas aqui, um convite acolá, mas acabamos assim, presos à espera da liberdade". Os olhos não olham nos olhos de quem pergunta. Mudam de assunto para aquele de aqui também falamos. "Estava quase a chegar ao fundo do poço mas subi. Gosto de arranjar livros". Ele que nem gostava muito de ler.

MESTRES TÊM PENA DE VER PARTIR OS RECLUSOS

"Essencial é tratar os reclusos como serem humanos," refere o mestre Jacinto, um dos funcionários da tipografia, como uma das condições para o trabalho correr bem. E corre, garante. "Tenho um bom relacionamento com eles e até já descobri alguns talentos, só custa vê-los ir embora à vida deles quando começam a aprender as técnicas". António concorda. E acrescenta. "Acho que este trabalho que aqui aprendem pode ajudá-los muito na vida lá fora, é um novo ofício que ficam a dominar", diz o funcionário que conhecia bem o ambiente antes de responder ao anúncio para a tipografia do EPL em 2000. "Fui guarda prisional em 1986. Na tropa foi gráfico no Centro de Publicações da Força Aérea". São, por isso, duas áreas que conhece bem.

"É PRECISO TER JEITO PARA TRABALHOS MANUAIS": Eduarda Godinho, directora do EPL

De onde vêm os livros que os reclusos recuperam na tipografia?

A maioria vem dos organismos do Ministério da Justiça, como a Provedoria e os tribunais. Mas também recebemos material da Procuradoria-Geral da República e de particulares que sabem da nossa existência. Os reclusos também fazem as pastas para os despachos que usamos aqui, com o nome da pessoa a que pertencem.

Como é feita a selecção dos reclusos que trabalham na tipografia?

A selecção é, primeiro que tudo, o comportamento do indivíduo, até mesmo porque esta actividade tem disponíveis ferramentas perigosas. Depois também temos em conta que tenham algum jeito – embora não seja preciso que já o tenham feito antes – para os trabalhos manuais.

Qual é a remuneração auferida pelos reclusos com este trabalho?

Como é uma área de formação está estipulada por uma tabela fixa que é igual em todo o lado. Este grupo está sempre afecto à tipografia, são cerca de 14, e trabalham das 09h30 às 11h30 e das 14h30 às 16h30.

NOTAS

PEDRO NÃO VÊ OS FILHOS A CRESCER HÁ 11 ANOS

A Pedro, 38 anos, o que mais custa é ver os dois filhos, de 12 e 16 anos, crescer sem ele. Está preso há onze anos por vários assaltos.

ESTAVA ILEGAL QUANDO ROUBOU

A família de Mateus está em Angola. Quer voltar para lá e ser cabeleireiro de homens. Roubou um carro quando estava ilegal no País e desempregado.

PRESO POR TRÁFICO RECEBE VISITAS

Fernando foi pai com 19 anos. Os três filhos vêm vê--lo à prisão e ele já lhes contou que trabalha na tipografia. Está preso por tráfico.

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