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Rubem Fonseca: erotismo e violência

Uma escrita “brutalista” ao serviço da língua portuguesa.
João Pedro Ferreira 3 de Maio de 2020 às 10:00

José Rubem Fonseca (1925-2020) foi um escritor brasileiro e um dos mais arrojados e inovadores artesãos da língua portuguesa. A sua escrita, escorreita e implacável, chega a tornar-se desconfortável ao combinar, por vezes no mesmo parágrafo, na mesma frase, erotismo, ternura e violência. Cada um dos seus heróis, com destaque para o advogado Mandrake (nome roubado da banda desenhada norte-americana), tem muito de vilão. Mais do que imorais, são amorais – mas acabam por sublinhar   sempre   uma   certa moralidade.

O historiador e crítico literário Alfredo   Bosi   inventou   um   adjetivo   para classificar o estilo de Rubem Fonseca: "brutalista". Filho de portugueses emigrados da terra bruta de Trás-os-Montes, Fonseca aproveitava todos os pretextos para uma referência favorável a Portugal. No meio de um diálogo sobre mulheres ou crimes podia saltar um elogio ao vinho ‘Periquita’, com uma explicação sobre o produtor e a região.

Jurista de formação, foi comissário de polícia e apoiou o golpe militar de 1964, mas cedo se desiludiu com o regime autoritário. A crueza do retrato que traçou da sociedade brasileira levou a ditadura a proibir-lhe o livro ‘Feliz Ano Novo’. O público adorou e o êxito   repetiu-se em romances como ‘A Grande Arte’, ‘Agosto’ ou ‘Diário de um Fescenino’ e nas recolhas de contos com títulos que falam por si: ‘Secreções, Excreções e Desatinos’, ‘Axilas e outras Histórias Indecorosas’, ‘Calibre 22’ ou ‘Carne Crua’. A sua obra está editada em Portugal pela Sextante.

Do livro ‘Ela e Outras Mulheres’, ed. Campo das Letras
"(...) o nome dela era belinha, tinha dezoito anos, gostava de mim porque eu era bandido e sabia que o meu tesão era verdadeiro, ela desprezava esses caras que tomavam pílulas pro pau ficar duro, dizia que não podia amar homens desse tipo fingidor. E ela chupou o meu pau e eu fiz ela ficar ajoelhada na cama e chupei a boceta dela, ela gostava de ser chupada assim, eu enfiava a língua lá dentro e às vezes ela pedia para eu enfiar o nariz, a boceta dela era cheirosa e eu enfiava o nariz. Esqueci de dizer que além de pau grande eu tenho nariz grande. Depois eu enfiava o pau e ela gozava, era assim o começo.

(…)Umas quinhentas mulheres já chuparam o meu pau, mas nenhuma tinha a boca tão enfeitiçada quanto ela. Está bom? Depois de repetir isso, ela parou, sentou-se na cama e disse, se você não matar o meu pai eu vou deixar você, vai ter que arranjar outra garotinha pra foder. Outra garotinha igual a ela não existia no mundo inteiro. Mas Belinha querer matar o pai fazia ela ficar feia e o meu pau murchou. (...)

Ela deitou-se de barriga para baixo mostrando a bunda, não havia no mundo, no mundo   inteiro,   bunda   mais   bonita   que aquela, e ela sabia disso. Me aproximei de Belinha, tirei a Walther do bolso e disparei na cabeça dela, bem na nuca, para ela morrer de maneira instantânea e sem dor. (…) Como é que alguém pode querer matar o pai ou a mãe? (…)" "na cama não se fala de filosofia.

Peguei na mão dela, coloquei sobre meu coração, disse, meu coração é seu, depois pus sua mão sobre minha cabeça e disse, meus pensamentos são seus (…). Depois botei a mão dela no meu pau, que estava duro, disse, é seu esse pau.

Ela nada disse, (…) veio por cima, fodemos, ela ficou de joelhos, rosto no travesseiro, penetrei por trás (…). Fiquei deitado e ela de costas para mim sentou-se sobre o meu púbis, enfiou meu pau na boceta. Eu via meu pau entrando e saindo, via o cu rosado dela, que depois lambi. Fodemos, fodemos, fodemos. Gozei como um animal agonizando.

Ela disse, te amo, vamos viver juntos. Perguntei, não está tão bom assim? (…)

Ela respondeu que Nietzsche disse que a mesma palavra amor significa duas coisas diferentes para o homem e para a mulher.

(…) Respondi que Nietzsche era maluco.

Mas aquela conversa foi o início do fim.

Na cama não se fala de filosofia. "

Do livro ‘A Grande Arte’, ed. Sextante
"(...) ‘você está delirando, disse bebel, puxando minha cabeça de encontro aos seus seios. (…) Os seios de Bebel eram rijos e ela beijava pondo a língua para fora, como se estivesse fazendo exame de laringe. Uma   língua   dura.   Mas   isso   não diminuiu meu desejo.

(...) ‘Você está com vontade de me foder?’

‘De   enfiar   esse   pau   grande   na   minha
boceta?’

‘A pomposidade venturosa e festiva das palavras obscenas.’

‘Porquê pomposidade?’

‘A extravagância fanfarrã da ostentação gloriosa do desejo. A potência física causando a soberba.’ (…)"

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