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Rumores à solta

Histórias falsas dão corda a conversas. Depois há até quem tenha de desmentir a sua morte
1 de Julho de 2012 às 15:00
É o circular de informação não oficial que alimenta o boato
É o circular de informação não oficial que alimenta o boato FOTO: Steve Baxter, Stockphoto

Quando em 1847 Mark Twain escreveu no ‘New York Journal’ que "a notícia da minha morte é claramente exagerada" estaria longe de imaginar que no século XXI os boatos sobre a morte de figuras famosas continuariam a propagar-se.

Mas aconteceu com Eunice Muñoz, actriz de 84 anos, que ainda recentemente leu a nota do seu desaparecimento no Facebook. "Já me abstraí disso, aliás abstraí-me logo. São situações que não se podem levar a sério", disse à Domingo. Semanas antes, na mesma rede social, fora também anunciada a morte de Camilo de Oliveira. "O Ruy de Carvalho deve estar quase", adivinha Eunice Muñoz entre sorrisos ao falar do amigo com quem partilha tanto palco. Até porque, diz-se, quem anuncia a morte de alguém acrescenta-lhe anos de vida.

ANSIEDADE GERA BOATOS

Desde sempre, artistas, políticos e outros famosos são terreno fértil para os rumores, como revela a compilação feita pela jornalista Susana André no livro ‘Mitos Urbanos e Boatos’, editado pela Esfera dos Livros.

Sejam histórias sobre falsas mortes, a vida pessoal ou mitos urbanos, os rumores devem a sua propagação à ânsia de uma sociedade. É essa a principal motivação, concluiu o psicólogo norte-americano Robert Knapp, que fez vários estudos sobre o tema. E o jornalista e escritor Fernando Dacosta recorda que durante o Estado Novo eram comuns os rumores de que António Salazar, o presidente do Conselho, tinha sido assassinado. "Era tanta a vontade que os portugueses tinham de se verem livres do ‘botas’ que acreditavam nas histórias que eles próprios inventavam."

O escritor frisa que nós, portugueses, "temos uma apetência pelo imprevisível. O nosso imaginário precisa de se alimentar de coisas que o excitem. Como nesta terra não se passa nada, puxa-nos o pé para a fantasia e para o palpite". No caso de Eunice Muñoz, diz Dacosta, "o facto de semanas antes a actriz ter sofrido um acidente grave que a impediu de trabalhar ajudou a propagação e eventual credibilização da história com alguma leviandade".

E Susana André, que associa o rumor à cultura dos países do Sul, nota que, "em Portugal, os elevados níveis de iliteracia, o facto de as pessoas praticamente não lerem jornais e estarem pouco habituadas a cruzar informação e a questioná-la, são factores que ajudam a favorecer o aparecimento e a propagação de histórias falsas".


Certo é que um boato não deixa ninguém indiferente. Nem a própria Eunice Muñoz: "Foi uma emoção para quem não sabia que eu estava bem. Felizmente, a família estava perto e nem sequer acreditou. Boatos houve sempre, mas sou de uma geração em que se levava a vida a sério. Não me lembro de brincadeiras com esta gravidade."

FALSAS E TRÁGICAS

No livro, Susana André relata mesmo casos fatais, como o que aconteceu em França, quando dois ministros se suicidaram após terem sido alvo de rumores difamatórios.

O primeiro ocorreu em 1936, quando o boato de que tinha sido acusado por deserção na Primeira Guerra Mundial levou ao suicídio de Roger Salengro, ministro do Interior. O segundo foi em 1979, com Robert Boulin, ministro do Trabalho e aspirante a primeiro-ministro, pressionado quando várias cartas anónimas foram enviadas às redacções dos meios de comunicação social relatando que adquirira ilegalmente um terreno para casa de férias.

"As consequências de uma história falsa podem ser trágicas para qualquer pessoa, até mesmo para um cidadão anónimo. Tudo depende do impacto do boato, dos danos que causa", refere a autora. E dá como exemplo extremo o "rumor sobre a alegada relação entre o jogador José Calado e o cantor Fernando Melão, que arruinou a carreira de ambos. O futebolista viu-se obrigado a abandonar o País para fugir aos comentários homofóbicos e aos insultos de bancada e o músico deixou de ser convidado para espectáculos".

Entre boatos com famosos portugueses, há casos de falsos casamentos, sexo e morte. Em 1991, Manuel Luís Goucha e Teresa Guilherme surgiam na capa de uma revista a propósito de um enlace que nunca aconteceu. Em finais dos anos 1990, Laura Diogo, cantora da girls band Doce, foi tema de um boato quente que dava conta da entrada nas Urgências no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, após uma noite de sexo anal com o futebolista Reinaldo. A notícia nunca foi provada, mas a carreira da banda começou a decair e o avançado do Benfica queixou-se de que a filha sofreu muito na escola.

Anos mais tarde, foi o pequeno Saúl, cantor adolescente que imitava o estilo brejeiro de Quim Barreiros e cantava ‘O Bacalhau Quer Alho’, a ser dado como morto num acidente de viação. Saúl desmentiu ao vivo na TV, mas a notícia alastrou aos Estados Unidos e à Austrália, de onde ligaram para saber se era necessário cancelar concertos, relatou o tio e manager do artista a Susana André.


NAS BOCAS DO MUNDO

Hoje, com o crescimento da internet e das redes sociais, o rumor ganha vida nova, propaga-se e desmente-se a si próprio. Nos palcos internacionais, somam-se casos com famosos de todos os quadrantes.

O presidente norte-americano, Barack Obama, usou a internet para desmentir os boatos espalhados no mesmo meio de que fora educado numa escola muçulmana e que nascera fora dos Estados Unidos.

Em Outubro de 2008, o assessor de imprensa de Tom Cruise negou as informações de que o actor teria caído de um penhasco e morrido na Nova Zelândia. E em 2009, a sorte tocou à cantora Britney Spears, à apresentadora Ellen DeGeneres e aos rappers P Diddy, Eminem e Kanye West, cujas falsas mortes foram anunciadas no Twitter. A frase "RIP Kanye West" (que significa algo como "descansa em paz Kanye West") foi o tópico mais comentado e a frase mais procurada no Google na semana em que o boato foi lançado.

No ano seguinte, o site da FOXNews.org publicou que o cantor Justin Bieber tinha desmaiado em casa e morrera minutos depois de receber os primeiros socorros. A neve foi a armadilha usada para as falsas mortes dos actores Charlie Sheen, dado como vítima de um acidente de snowboard, e Adam Sandler, que viu anunciado nas redes sociais o seu falecimento enquanto esquiava na Suíça. O também actor Jackie Chan desmentiu no seu Twitter oficial a notícia da sua morte devido a uma paragem cardíaca enquanto promovia ‘Kung Fu Panda 2’.

Foi também no Twitter que em Fevereiro de 2011, os fãs de Mick Jagger leram a notícia da ‘morte’ do líder dos Rolling Stones. O assunto foi tão comentado em redes sociais e blogues que o jornal de referência ‘Washington Post’ colocou no site oficial a seguinte nota: "Há todos os indícios de que o cantor esteja vivo."

Dizem vários especialistas que o rumor mais mediático sobre uma falsa morte é o do ex-beatle Paul McCartney. Ainda hoje, muitos fãs acreditam que o verdadeiro artista do grupo de Liverpool morreu em 1966, vítima de um acidente de viação e foi substituído por um sósia para que a banda continuasse.


DEZ MIL BOATOS

São tantos e tão imaginativos os boatos que correm pelo Mundo que o sociólogo francês Jean--Noël Kapferer criou em Paris, em 1984, uma fundação para o estudo e a informação sobre os rumores, onde reuniu um acervo de 10 mil boatos. Entre os mais criativos, destacam-se o relato de que em 1972, durante uma visita oficial à China, o ex--presidente americano Richard Nixon teria roubado uma valiosa chávena de porcelana, e o boato de que o corpo do genial Walt Disney está congelado.

No livro ‘Rumeurs’, Kapferer conclui que os rumores não são obrigatoriamente falsos. "São sim informações que aparecem e circulam na sociedade, antes de serem confirmadas por fontes oficiais. Podem basear-se na verdade, mas trata-se de informação cujo poder não se controla." Por ser transmitido boca a boca, o rumor alimenta-se do dito ‘quem conta um conto acrescenta um ponto’. "Tem um lado inconsciente, que deve ser distinguido da maledicência intencional, comum na política", diz Dacosta.

NOTAS

SEBASTIÃO

O mito da morte de D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir em 1578 persistiu no imaginário português.

WELLES

Em 1938, Orson Welles relatou ‘A Guerra dos Mundos’ e levou os EUA a acreditar numa invasão marciana.

DIANA

A princesa Diana foi alvo de vários boatos. O mais arriscado dizia que o príncipe Harry era filho do instrutor de equitação.

PORTUGAL

São vários os mitos que circulam no País, desde um esfaqueador na praça de Espanha a ratos mortais no Convento de Mafra. 

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