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“Será difícil recrutar”

O presidente da Associação de Ginásios critica o decreto-lei que obriga este segmento de mercado a empregar instrutores com licenciatura.
11 de Outubro de 2009 às 00:00
José Pedro Ferreira, da Universidade de Coimbra (à esq.), e José Luís Costa, presidente da Associação de Ginásios
José Pedro Ferreira, da Universidade de Coimbra (à esq.), e José Luís Costa, presidente da Associação de Ginásios

José Pedro Ferreira, director da Faculdade de Ciências do Desporto da Universidade de Coimbra, entrevista José Luís Costa, presidente da Associação de Ginásios.

José Pedro Ferreira - Por que motivo este Decreto-Lei está a levantar tanta   polémica e preocupação entre os proprietários de ginásios e de clubes de fitness?

José Luís Costa - Pelo conhecimento do mercado português sabemos que mais de 90% das empresas espalhadas pelo País terão, a médio prazo, uma grande dificuldade em recrutar e seleccionar profissionais em número suficiente para desenvolverem a sua actividade. Neste momento é relevante a procura não ser sustentada pela oferta.

Ninguém investe sem a garantia da existência de um número de profissionais qualificados e experimentados para os serviços a prestar nos ginásios portugueses. E não estamos em momento de desinvestir ou deslocalizar!

Se não coexistirem a formação académica e a formação profissional acreditada e certificada muito dificilmente o mercado português poderá recuperar do seu atraso europeu. A nossa taxa de penetração está calculada em 5.7% quando a média europeia se situa nos 7.9% A nossa vizinha Espanha tem actualmente uma taxa de 16.4%.

A médio prazo o decreto-lei levará, no que respeita à qualificação dos profissionais responsáveis pela orientação e condução do exercício da actividade física e desportiva, ao definhamento de um mercado a necessitar de um salto em frente para se alcançar a prática sistemática de outros países na Europa.

JPF - Não lhe parece que a regulação da qualificação dos profissionais e o aumento das preocupações com os cuidados de saúde e de segurança dos utentes terão efeitos muito positivos para a qualidade dos serviços prestados, e consequentemente para a imagem do sector?

JLC - Pugnamos pela criação de um plano equilibrado de desenvolvimento de competências garantindo a integração de temáticas relacionadas com a segurança dos consumidores/ eficácia na prática do exercício, mas também a integração de conteúdos relacionados com a vertente de diversão/entretenimento.

Não nos parece ter sido possível o crescimento do nosso mercado sem a conjugação do trabalho desenvolvido por certas faculdades, públicas e privadas, escolas superiores e escolas de formação acreditadas e certificadas reconhecidas pelo Estado.

Devemos encontrar o equilíbrio respeitante à segurança dos praticantes envolvendo todas as actividades físicas e desportivas e não apenas o fitness. Quanto mais elevado e exigente o treino mais a necessidade dos profissionais terem acesso aos mais elevados padrões de qualificação para a dupla vertente resultados/segurança.

JPF - O “mundo do fitness” tem sido crítico com  muitas instituições de ensino superior na área das Ciências do Desporto acusando-as de formarem profissionais demasiado teóricos. Concorda com esta ideia? Se sim, que estratégias sugeriria para ultrapassar esta situação?

JLC - A maior parte dos actuais e antigos corpos sociais da AGAP são professores e mestres de Educação Física e Desporto. Todos temos um passado no fitness aonde já exercemos várias funções de responsabilidade. Temos protocolos com várias faculdades e escolas superiores em parcerias de cooperação em várias áreas de interesse comum. Neste momento existem negociações com outras para que se alargue a referida cooperação.

No último encontro nacional, realizado em Lisboa, tivemos a honra em receber o Sr. Presidente do IDP, Prof. Dr. Luís Sardinha, distinto catedrático da Faculdade de Motricidade Humana, que amavelmente deu conta da sua satisfação pelo trabalho desenvolvido pela AGAP para a credibilização de um mercado com mais qualidade, segurança e europeu.

Mantemos parcerias com três escolas de formação da nossa área porque continuamos a achar a sua acção essencial para o ingresso e progressão dos profissionais num contexto de grande exigência na luta contra o sedentarismo versus promoção da actividade física.

Todos os profissionais não são demais quando a teoria serve de base para a formação adequada, vocação assumida e dedicação exemplar.  Que garantias há, para quem investe a médio prazo num mercado a necessitar de mais 200 mil praticantes, mais 8 mil profissionais e mais 600 ginásios, em todo o País, de profissionais com formação académica especializada na nossa área de negócio provenientes das Faculdades e Escolas Superiores de Educação Física e Desporto?

JPF - Como sabe, desde algum tempo a esta parte a empregabilidade na área das Ciências do Desporto e da Educação Física deixou de ser exclusivamente no ensino da educação física escolar tendo-se alargado a outras áreas de intervenção sendo o fitness uma dessas novas áreas preferenciais. As instituições de ensino superior publico, na área das Ciências do Desporto, lançam anualmente cerca de 700 novos licenciados para o mercado de trabalho, aos quais se acresce um número adicional de licenciados formados por diferentes instituições de ensino superior privado.

O número de licenciados a trabalhar em ginásios e healthclubs tem crescido exponencialmente nos últimos anos, e só não é maior porque muitas vezes o custo de contratação de um licenciado não é obviamente o mesmo do praticado com um monitor cuja formação se resume a um curso com pouco mais de uma centena de horas de formação. No entanto, há que destacar que cada vez mais os ginásios e os healthclubs apostam na qualidade da formação dos seus profissionais, uma vez que essa é a única forma de se manterem competitivos num mercado de trabalho tão concorrencial.

A entrada em vigor do presente Decreto-Lei lança um grande desafio para as escolas de ensino superior em Portugal, um desafio para o qual algumas delas se prepararam antecipadamente, com a criação e a oferta já existente de cursos de pós-graduação e de mestrado (2º Ciclo) que conferem uma formação complementar sólida e de qualidade crescente na área do exercício e da saúde.

Num período em que a profissão docente passa por grandes interrogações e sobressaltos,  as condições que venham a ser oferecidas aos profissionais licenciados na área do fitness vai condicionar, em muito, a resposta dos profissionais disponíveis no mercado e, fundamentalmente, moldar de forma determinante as opções de especialização dos futuros profissionais ainda em formação.

 

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