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Correio da Manhã

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Sexo: A parte baixa da política

Os escândalos sexuais tornaram-se no maior problema dos políticos. O director do FMI, Dominique Strauss-Kahn, que as sondagens já apontavam como futuro Presidente da República de França, foi aniquilado politicamente por uma tentação sexual. No fim de uma manhã de sábado num hotel de luxo em Nova Iorque. Mesmo sem o mundo sofrer grande coisa com o caso.
18 de Dezembro de 2011 às 00:00
Strauss-Kahn foi detido em Nova Iorque a 15 de Maio
Strauss-Kahn foi detido em Nova Iorque a 15 de Maio FOTO: Mike Segar, Reuters

Se nalguma coisa o Mundo está mais liberal é com certeza nas relações sexuais. O sexo e os escândalos que suscita têm, contudo, efeitos devastadores na vida dos políticos. Dominique Strauss-Kahn, director--geral do FMI e forte candidato a presidente da República, em França, ficou politicamente aniquilado pelo que ele próprio classificou como "uma estupidez, mas não um crime".

Ao fim da manhã do sábado 14 de Maio, numa suite de 2116 euros/dia, do Hotel Sofitel, na rua 44, em Manhattan, Nova Iorque, envolveu-se com a empregada de limpeza dos quartos Nafissatou Diallo. O que poucas horas depois se disse sobre o que se passou foi suficiente para DSK ser retirado do avião em que queria viajar para a Europa, ser algemado e levado a um juiz que lhe sentenciou prisão preventiva, acusado de "violação e agressão sexual". O economista competente e o político admirado acabaram nesse momento.

Na política, o sexo é mesmo a parte baixa. Os escândalos sexuais são demonstrativos do carácter das pessoas, mas o que surpreende por excessivo é a sua repercussão política ser maior do que a de outras práticas reprováveis, como a corrupção e o abuso de poder, com quadros penais mais graves.

ACTOS ESTÚPIDOS

Não se costuma ver os políticos suspeitos de corrupção ou autores de crimes contra a humanidade serem arrasados no tribunal da opinião pública de forma tão peremptória, apesar de provocarem sofrimentos maiores e mais graves aos povos e ao Mundo. A frase resignada de DSK sobre a sua relação sexual com a empregada que lhe apareceu à frente quando saía nu do banho diz tudo sobre os escândalos sexuais. Muitas vezes são apenas comportamentos estúpidos. Mas esta parte baixa da política não é menosprezada por ninguém.

O caso DSK, sem dúvida o mais mediático do ano, é prova disso mesmo. Nos meses seguintes ao nunca esclarecido 14 de Maio, as informações vindas a público revelam que com ou sem complô no sexo oral com Nafissatou, DSK seria sempre liquidado pelos seus escandalosos hábitos sexuais.

Já no corrente mês de Dezembro, o diário francês ‘Le Monde’ publicou conversas entre o presidente Sarkozy e amigos do economista PS sobre a "impossibilidade" da sua candidatura, até porque havia um dossiê pronto para desfazer DSK.

DOSSIÊ PREPARADO

Guardada para lançar na melhor altura estava, por exemplo, a notícia de uma interpelação feita pela polícia a DSK em 2006 nas alamedas do Bois de Boulogne, zona de Paris famosa pelos encontros sexuais pagos e aventuras ocasionais.

Em avanço controlado decorria a investigação do processo das prostitutas de três hotéis de luxo em Lille, cidade do Norte de França onde é presidente da câmara a secretária-geral do PS, Martine Aubry, e onde DSK foi sempre bem-vindo.

Nem interessa saber qual foi o incómodo flagrante que a polícia surpreendeu no interior de um carro, ou quem pagava ‘Jade’ e as outras amigas que, alegadamente, privavam com DSK. A realidade é que ele seria sempre destruído por escândalos sexuais lançados a público um a um, como aconteceu com as infidelidades do candidato republicano Herman Cain.

A forma como o afortunado empresário negro foi liquidado quando liderava as sondagens desafia a uma reflexão sobre escândalos sexuais. De início, recordou-se que Herman Cain tivera um problema com uma secretária nos anos 90 que envolvia assédio sexual. Apareceu, depois, um segundo caso e mais outro até a revelação de uma infidelidade prolongada com uma amiga íntima, durante 13 anos, obrigar o candidato a desistir.

AVISO EM FEVEREIRO

No caso DSK, a questão de os seus ímpetos sexuais lhe poderem limitar aspirações de poder político surgiram logo em Fevereiro, quando os partidários de Sarkozy ponderaram a hipótese dele se apresentar. O próprio presidente interpelou um socialista sobre a possibilidade de a esquerda candidatar um "obcecado sexual". E avisou que "ele sabia que não podia fazer campanha". De facto, o próprio Sarkozy empurrara DSK para a direcção do FMI, em Washington, com prevenção sobre "as mulheres nos EUA".

A 13 de Fevereiro, o presidente do grupo parlamentar do UMP (partido de Sarkozy) na Assembleia, Christian Jacob, atirou para o ar que DSK não correspondia "ao francês típico" que se imaginava. O porta-voz do PS, Benoit Hamon, reagiu logo denunciando "o mau cheiro a apodrecido" da declaração. E a guerrilha continuou.

BÓNUS OU COMPLÔ?

Passados três meses e um dia, a 14 de Maio, o caso sexual com a criada de quarto em Nova Iorque caiu às mil maravilhas. Mesmo se não foi armadilhado por adversários políticos de DSK, e não há provas dessa premeditação, proporcionou a imediata execução política do socialista que liderava, largamente à frente, as sondagens sobre os candidatos à eleição presidencial francesa.

Soube-se mais tarde que a justiça francesa se apressou a informar o procurador nova-iorquino Cyrus Vance Jr. das relações do director do FMI com as prostitutas do Carlton, de Lille. O processo estava então no segredo dos deuses, tal e qual ainda se passa com o que realmente aconteceu com DSK no Sofitel de Nova Iorque.

DESTAQUES 2011

REVOLTA VARRE PAÍSES ÁRABES

Poderes instalados há dezenas de anos, assentes na prepotência, corrupção e roubo dos bens públicos, provocam levantamentos populares de Marrocos à Síria. O mundo árabe quer liberdade e mais moral.

JANEIRO

- A polícia francesa interpela, no dia 3, três quadros da Renault acusados de espionagem industrial. O caso acabou com pedidos de desculpas e Carlos Ghosn a chamar o português Carlos Tavares para seu n.º 2.

- Após 23 anos no poder, o presidente Ben Ali, da Tunísia, foge no dia 14 para a Arábia Saudita.

- Na 6.ª feira, 28, é incendiada no Cairo a sede do partido de Mubarak.

FEVEREIRO

- Demissão do presidente egípcio Hosni Mubarak.

- Chegam os primeiros refugiados a Lampedusa.

- Há 249 dias sem governo, a Bélgica bate o recorde do Iraque.

- Líbios contra Kadhafi proclamam ‘Benghazi livre’ após cinco noites de terror.

MARÇO

- O pioneiro do microcrédito e Nobel da Paz 2006, Mu-hammad Yunus, é afastado, no dia 2, do Grameen Bank.

- No dia 11, sismo de magnitude 9 na escala de Richter abala o Japão. Segue-se tsunami que faz 20 mil mortos.

- NATO inicia a 19 os bombardeamentos aéreos sobre a Líbia

ABRIL

- Cinco meses após votação em que recusou a derrota, é preso Laurent Gbagbo, ditador da Costa do Marfim.

- Fidel Castro passa liderança do PC de Cuba para o irmão Raul.

- Bomba mata 15, em Marraquexe.

MAIO

- Beatificação do papa João Paulo II atrai um milhão à Praça de S. Pedro, no 1.º de Maio.

- Às 23h36, do dia 1, em Washington, Obama anuncia a morte de Osama bin Laden, num ataque em Abbot-tabad, Paquistão.

- A 22, o PP arrasa nas Autonómicas de Espanha, com 11 vitórias e nenhuma para o PSOE.

- A Sérvia prende Ratko Mladic, a 26, e entrega-o ao TPI.

JUNHO

- Tribunal da Tunísia condena à revelia, no dia 20, o ex-presidente Ben Ali e a mulher a penas de 35 anos de prisão por roubo de riquezas do país.

- Recep Tayyip Erdogan leva, a 12, na Turquia, o seu AKP à 3.ª vitória eleitoral consecutiva. Teve 49,9%

JULHO

- Marrocos aprova a 1, por referendo, nova constituição.

- Yingluck Shinawatra, irmã do ex--primeiro-ministro apeado por golpe militar em 2006, ganha, a 3, as eleições na Tailândia.

- No dia 9 proclama-se a independência do Sudão do Sul, país com 90% de pobres.

- A 22, bomba em Oslo e tiroteio na ilha de Utoya matam 77. Obra de Anders Breivik

AGOSTO

- O papa Bento XVI celebra missa, a 23, para milhão e meio nas Jornadas Mundiais da Juventude, em Madrid.

- Com principal incidência nos dias 6 a 10, várias cidades do Reino Unido são cenário de tumultos desencadeados por jovens delinquentes.

SETEMBRO

- Associação de vítimas de padres pedófilos faz, a 13, queixa no TPI contra o Vaticano.

- Coligação liderada pela social-democrata Helle Thorning-Schmidt ganha eleições, dia 15, na Dinamarca.

- A UE rejeita, a 22, entrada da Roménia e Bulgária no Espaço Schengen.

- Mahmoud Abbas apela, dia 23, na ONU, ao reconhecimento do estado palestiniano.

OUTUBRO

- Hamas dá militar Gilad Shalit por mil presos em Israel.

- A ETA anuncia, a 20, ‘o fim definito da luta armada’.

- Terra com sete mil milhões de habitantes.

- A guerra na Líbia termina com a morte de Kadhafi

NOVEMBRO

- Incêndio destrói, na noite de 2, a se-de do semanário francês ‘Charlie Hebdo’ após edição ‘Charia Hebdo’.

- A 6, Daniel Ortega vence presidenciais na Nicarágua.

- Berlusconi perde a 8 a maioria parlamentar e demite-se. No dia seguinte, o presidente de Itália chama Monti a formar governo.

- Legislativas em Espanha dão, a 20, a maioria absoluta ao PP de Rajoy.

DEZEMBRO

- Após 589 dias de governo de gestão, Elio Di Rupo é o novo primeiro-ministro da Bélgica.

- Partido de Putin e Medvedev ganha as eleições russas, mas a oposição aponta fraudes.

- Belga mata cinco pessoas a tiro e granadas em Liége.

POSITIVO

CHRISTINE LAGARDE

Apesar das dúvidas suscitadas pelo caso Tapie, a chegada desta advogada de 54 anos à direcção-geral do FMI marca a estreia feminina no lugar de topo mundial.

ELLEN JOHNSON SIRLEAF

A presidente reeleita na Libéria, com 90,8%, repartiu o Prémio Nobel da Paz com a sua compatriota Leymah Gbowee e a jornalista iemenita Tawakul Karman.

ANNA HAZARE

Activista indiano de 74 anos segue a não violência de Gandhi no combate à corrupção. Em 2011 esteve duas vezes em greve de fome indefinida pela promulgação de leis.

FATHI TERBIL

Advogado líbio de 39 anos, activista dos Direitos Humanos, foi preso a 15 de Fevereiro, em Benghazi, pelo poder de Kadhafi. Provocou a revolta que acabou com o ditador.

AI WEIWEI

Artista plástico de 54 anos foi, em 2011, um dos mais destacados rostos da luta pela liberdade na China.

NEGATIVO

BASHAR AL-ASSAD

Presidente sírio, de 45 anos, herdou o poder do pai. O reino dura desde 1970. Matou este ano mais de cinco mil sírios.

MARA CARFAGNA

De 36 anos, ex-modelo topless e com um diploma mínimo em leis, foi ministra de Berlusconi durante três anos e só sobressaiu numa homenagem de mulheres a Kadhafi.

MAHMOUD AHMADINEJAD

Com 55 anos, presidente do Irão desde 2005, foi em Setembro à ONU dizer que o 11 de Setembro é um mistério criado pelos EUA para atacar o Afeganistão e o Iraque.

KARL-THEODOR ZU GUTTENBERG

O ex-ministro alemão da Defesa, de 39 anos, elegante e rico, demitiu-se após se verificar que plagiara 324 das 393 páginas da tese de doutoramento na Universidade de Bayreuth.

GEORGES PAPANDREOU

Grego de 52 anos, neto e filho de primeiros-ministros, deixou o país afundar.

2012 EM ANTEVISÃO

OBAMA OU OUTRO

A mais longa disputa política de 2012 será a corrida à Casa Branca, que se decidirá a 6 de Novembro. Barack Obama espera pelo adversário escolhido nas primárias republicanas, ainda muito abertas. Por enquanto, sofre porque só o comparam com um ideal que não existe.

PUTIN FAZ EXAME

Marcadas para Março, as presidenciais da Rússia apresentam-se como teste à ‘nomenklatura’ de Putin e Medvedev. Eles organizaram uma dança de cadeiras no Kremlin, mas estão em xeque com os protestos de fraude nas recentes legislativas.

DISPUTA POR PARIS

A 1.ª volta das presidenciais em França será a 22 de Abril, com Sarkozy a tentar a reeleição frente ao socialista François Hollande. As sondagens dão vantagem a este, mas até lá muita crise correrá na política europeia.

A VEZ DO EGIPTO

As revoltas árabes continuam em ebulição e nunca se sabe o que se segue. Espera-se que o marechal Tantaoui, chefe supremo das forças armadas do Egipto, cumpra a promessa de eleições presidenciais em Junho.

ATÉ A ÍNDIA MUDA

Em 2012 chega ao termo o mandato da presidente da Índia, Pratibha Patil, de 78 anos, mas é no primeiro-ministro Manmohan Singh, de 80 anos, que se centram as atenções. Tem mais do que idade para se retirar.

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