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Correio da Manhã

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Subir montanhas para manter os pés na terra

Um grupo de principiantes inicia-se na montanha com o alpinista João Garcia.
João Cortesão 12 de Abril de 2020 às 13:00
FOTO: João Cortesão

Nuno Pinto ajeita o casaco e prepara-se para sair da tenda. São 05h40, o sol ainda não nasceu e a temperatura está abaixo dos zero graus na serra de Gredos, uma cadeia montanhosa a duas horas de Madrid. O nervoso miudinho vai crescendo, afinal é a primeira vez que vai subir um cume com neve. Com ele, estão mais 10 pessoas, uns mais iniciantes que outros. Todos são formandos do experiente alpinista João Garcia no curso de Iniciação ao Alpinismo, que decorreu ao longo de fevereiro.

A formação prática começou há 24 horas, num ambiente mais aconchegante do que o despido vale glaciar. O ponto de partida foi a Bodeguilla, um restaurante que junta nas paredes fotografias de cumes cobertos de neve e das férias do proprietário, normalmente em ambientes tropicais. Fica a 500 metros do monumento à cabra-montês, ponto de entrada do Parque Natural da Serra de Gredos e local de paragem obrigatória para os alpinistas que rumam à montanha. João Garcia, sorridente numa das fotografias expostas na parede do café, é o mesmo que observa o grupo e dá as últimas recomendações de segurança antes da saída. Pontualmente às 9 da manhã. É confirmada a temperatura na estação meteorológica colocada estrategicamente junto à porta: zero graus e previsão de queda de neve durante toda a manhã.

Fim da rede móvel
Depois de sair do restaurante segue-se uma estrada vazia que permite o acesso ao estacionamento na plataforma de Gredos. Fim do asfalto e início de uma longa caminhada até ao "campo base" do fim de semana, uma zona plana com vista para a Laguna Grande, uma massa de água congelada e que, por estes dias, é pisada por caminhantes e alpinistas.

A caminhada não é difícil, partilhada com algumas famílias espanholas em passeio de fim de semana, mas pede alguma cautela. O piso irregular, o peso da mochila e o ritmo imposto pelo líder João Garcia obrigam a atenção redobrada numa altura em que a previsão de queda de neve se torna realidade. Clara Henriques tem 38 anos, trabalha na área da comunicação, e já conhece este percurso de viagens anteriores, com piores condições. A paixão pela montanha começou há vários anos e vê esta formação como um certificado de garantia para quem "ser parte da solução e não um problema" nas viagens com guia que costuma realizar. Por agora, volta a colocar a mochila e prepara-se para atravessar a zona dos Barrancones, a cerca de dois mil e duzentos metros, e iniciar a descida até à Laguna Grande.

Aprender a cair
Na montanha, as quedas acontecem quando menos se espera, avisa João Garcia. "Quando paramos para tirar uma fotografia, ajeitar a mochila ou corrigir um problema nos crampons [picos de metal presos às botas]. " Por isso, a primeira formação consiste em deslizar na neve e aprender a parar. De frente, de costas e com ou sem piolet - pequeno "machado" de gelo que é essencial na montanha -, todos repetem as quedas até o movimento ser automático e os dedos começarem a arrefecer. Nessa altura, são divididos em cordadas, grupos de várias pessoas unidas pela mesma corda que progride em conjunto e garante proteção acrescida. Funcionam como um só corpo que se desloca ao ritmo do mais lento, mantendo as distâncias e bloqueando pés e piolets na neve de cada vez que alguém cai.

Com um sorriso, a dupla de formadores da Associação Desnível, António Afonso e João Garcia, assistem às manobras dos futuros alpinistas até ao pôr do sol, altura de recolher ao acampamento e preparar o jantar. Com a queda da noite as atividades que obrigam a retirar as luvas são lentas e penosas, mas a boa-disposição mantém-se. O fogão ajuda a aquecer e discutem-se receitas de comida liofilizada. Quando a lua cheia começa a iluminar o vale é tempo de entrar nas tendas e experimentar a neve de Gredos como colchão. Nuno Pinto lamenta o frio dentro da tenda, mas também isso é parte da experiência.

Último dia
Ainda antes de o sol nascer, os frontais começam a iluminar as tendas. O grupo tenta acelerar os preparativos para subir ao ponto mais alto do fim de semana, enquanto a neve se mantém nas condições ideais.

A progressão na montanha é lenta, feita de passos curtos em degraus escavados na neve dura que são marcados pelo primeiro elemento da cordada e usados por todos. Quarenta minutos depois, a chegada ao Cerro de los Huertos é um duplo prémio: tempo de ver o sol aparecer na linha do horizonte e de, finalmente, aquecer os pés.

O resto da manhã faz-se de repetição dos procedimentos e correção de falhas, uma e outra vez até que todos os movimentos sejam automáticos para minimizar riscos na montanha. É essa a mensagem de humildade que João Garcia tenta passar aos alunos enquanto percorre com à-vontade a encosta vertiginosa. Nos cumes da serra de Gredos como no topo do Mundo é essencial manter os pés no chão, respirar uma e outra vez antes de dar um passo e "nunca esquecer o lugar que ocupamos na montanha", frisa o líder ao grupo.

De novo no acampamento, é altura de  preparar a mochila para o regresso aos carros. Tal como na véspera, são três horas de caminhada num trilho bem marcado. Mas o ritmo  parece mais lento, a excitação deu lugar ao cansaço e parece que o único alento para continuar é o bife com batatas fritas que espera o grupo na Bodeguilla. Numa das paragens , os alunos refazem o percurso da manhã com a ponta do indicador e, com orgulho evidente, confirmam que as encostas que atravessaram parecem maiores e mais difíceis à distância. Sorriem, e Clara lembra a lição da manhã: "Na montanha somos sempre iniciados."

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