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“Tenho recordações e marcas para a vida”

Estive na Índia, em Angola e na Guiné. Não esqueço o soldado que esfaqueou um nativo e com a mesma faca comeu a ração de combate.
5 de Novembro de 2013 às 17:46
Junto ao rio Zaire, entre 1963 e 1965. Numa pose para a produção fotográfica, a simular a matança de jacarés, que abundavam no local
Junto ao rio Zaire, entre 1963 e 1965. Numa pose para a produção fotográfica, a simular a matança de jacarés, que abundavam no local FOTO: D.R.

Por informação que me foi dada, nasci na aldeia de Picoto e dei por mim aos 11 meses a viver com os meus padrinhos de batismo, os primeiros a quem tratei por pais, na aldeia de Andreus, distrito de Leiria. Cresci num ambiente pobre, andava descalço, frequentava a escola primária a sete quilómetros mas sentia-me feliz e brincava. Mais tarde, explorado no trabalho do campo, quis aprender um ofício, e como não me deixaram tornei-me rebelde e incitava outros à desordem, fazendo-me de "comandante militar organizando grupos de guerrilheiros".

Quando tinha 15 anos, a minha mãe, que servia em casa da família do general Vassalo e Silva, chama-me para trabalhar numa tipografia em Lisboa. Devido à minha rebeldia, fui internado numa instituição do Estado, na Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória, onde fiquei até 1956. Em novembro desse ano fui recrutado para o quartel de Alunos Marinheiros em Vila Franca de Xira, onde me sentia privilegiado pois era tratado por sr. Aluno, recebia suplemento especial alimentar e o pré-superior aos recrutas. Ingressei na especialidade de Artilheiro e frequentei o curso no Alfeite.

A 18 de dezembro de 1958, com 19 anos, embarco para comissão de serviço na Índia, no paquete ‘Pátria' até Lourenço Marques, aguardando integração na guarnição do Aviso de 2ª Classe ‘João de Lisboa'. Percorri todo o território, incluindo ilhas e zonas de Dadrá e Nagareveli. Estive destacado em três lanchas de fiscalização (Antares, Vega e Sirius) e por fim no Aviso de 1ª classe ‘NRP Afonso de Albuquerque'. Regressei a Lisboa em 1961 a bordo do paquete ‘Índia', que fez rota pelo canal do Suez.

FUZILEIRO EM ANGOLA

Frequentei novo curso na Escola de Artilharia e fui promovido a Marinheiro Artilheiro. Embarquei num caça-minas e depois num draga-minas. Em 1962 inscrevi-me no curso de Fuzileiros Especiais, fui nomeado para o destacamento de Fuzileiros Especiais Nº 4 com destino a Angola (fevereiro de 1963 a março de 1965). Nesta comissão passou-se de bom, menos bom e mau, e fiquei com recordações e marcas para a vida.

Recordo uma operação conjunta com um Grupo de Combate do Exército, onde se fizeram prisioneiros. Um elemento do exército agarrou um pescador nativo afeto à UPA, e levou-o para o interior da mata. De regresso, o soldado, glorificando-se do seu ato, exibiu sem pudor os intestinos do guerrilheiro e, como manifestação da sua ‘heroicidade', com a mesma faca com que o matou abriu as latas e comeu a sua ração de combate. Como seria de esperar, passado pouco tempo as nossas tropas foram atacadas com intenso tiroteio.

Regressei à metrópole, fui promovido a sargento e nomeado para mais uma comissão de combate. Na Guiné, integrei o Destacamento de Fuzileiros Especiais Nº 7, de 1966/1968. Participei em várias operações de combate em zonas controladas pelo PAIGC. E em junho de 1967, numa emboscado a norte do rio Cacheu, entrámos em contacto de fogo cruzado com o IN (PAIGC), e fui atingido no pé direito. Levado de helicóptero para o hospital de Bissau e depois para o Hospital da Marinha em Lisboa, fui operado e, ainda em convalescença, convocado para as cerimónias do 10 de Junho de 1968, onde recebi a condecoração da medalha de ‘Serviços Distintos com Palma'.

Passei à reforma extraordinária por incapaz ao serviço do ativo em maio de 1971, passando mais tarde ao estatuto de deficiente das Forças Armadas.

JOSÉ ALVES

Comissões

Índia (1958-61) Angola (1963-65) Guiné (1966-68)

Força

Fuzileiros Especiais

Atualidade

Reformado, 74 anos

 

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