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Um ano à volta do mundo a tirar medidas aos oceanos

Navio-Escola ‘Sagres’ participa em projetos científicos para ver o estado do clima.
Manuela Guerreiro 12 de Janeiro de 2020 às 12:00

Janeiro de 2020. Dia 12. O Navio-Escola ‘Sagres’, da Armada Portuguesa, cumpre hoje o seu sétimo dia de viagem. Está a fazer a quarta volta ao Mundo.

O mar tem estado calmo e o veleiro está agora em águas espanholas. Deverá largar amanhã de Tenerife, nas ilhas Canárias, o primeiro dos 22 portos, de 19 países, por onde irá passar em 371 dias de viagem. Segue em direção a Praia, em Cabo Verde, de onde largará para a primeira travessia oceânica da viagem, em direção ao Rio de Janeiro, no Brasil.

Pela primeira vez, o navio participará em vários projetos científicos, recolhendo amostras de água e de peixes e medindo a temperatura e a salinidade que vão permitir à comunidade científica perceber a qualidade do ambiente marinho, as correntes, a influência do clima, a biodiversidade e a poluição criada por plásticos e microplásticos.

"Vamos medir o estado dos oceanos e da atmosfera. Vamos rebocar um pequeno aparelhómetro que vai fazer as medições no mar e recolher água para perceber a quantidade de microplásticos. Vamos recolher também peixes para perceber o seu estado de saúde. Esta é uma atividade que se vai fazer pela primeira vez e que me satisfaz bastante." A satisfação é de Maurício Camilo, 51 anos, 32 dos quais na Marinha. É o comandante deste grande veleiro e está a fazer a sua primeira circum-navegação, que classifica como "um grande desafio". É casado e tem dois filhos.

No âmbito de uma dessas missões científicas, o Projeto Rota dos Microplásticos, serão efetuadas colheitas diárias de amostras de água que vão ser filtradas de modo a que os microplásticos fiquem retidos nos filtros. A rota do navio vai permitir, precisamente, recolhas em zonas muito distintas à volta do Mundo, alguma das quais remotas e de difícil amostragem.

A rota da Sagres foi definida em função das comemorações do V Centenário da Circum-Navegação de Fernão de Magalhães e tem de estar em Punta Arenas, no Chile, a 18 de outubro, para os 500 anos da descoberta do Estreito de Magalhães. Durante mês e meio vai partilhar os mares com o navio-escola espanhol. Mas outros desígnios se impõem neste trajeto e o veleiro tem mais prazos a cumprir: a 18 julho, por exemplo, tem de estar em Tóquio, no Japão, para os Jogos Olímpicos.

Regressará a casa a 10 de janeiro de 2021. Vai passar seis vezes a linha do equador e atravessar os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Leva tonelada e meia de bacalhau, três toneladas de batata, 500 quilos de arroz. Tem autonomia em termos de alimentação para um mês e toda a guarnição está preparada para enfrentar os grandes desafios: tempestades no mar, ondulações e ventos fortes mas também assaltos à mão armada. E saudades. Um mar de saudades.

Preparados para tudo
"O navio está preparado para tudo. Nós estamos preparados para tudo. Estamos a fazer uma viagem com uma duração de 371 dias, um misto de emoções domina os militares. Entusiasmados por uma grande aventura e, ao mesmo tempo, organizando as saudades deixadas para trás", refere o comandante Maurício Camilo referindo que uma das partes mais difíceis da viagem, são, precisamente, as saudades de casa.

"Temos dois picos de saudade. Os dias próximos da partida e, na parte final, aquela sensação de nos estarmos a aproximar de Portugal. Cada um de nós vai ter momentos melhores e momentos piores. Somos 142, mas não vamos sozinhos. As famílias ficam, mas nós levamos tudo aquilo que se vai passar em casa. Ao contrário do Magalhães, há 500 anos, vamos estar quase em permanência com notícias de casa e isso reflete-se no dia a dia a bordo."

"A expectativa que tenho é que seja uma viagem extremamente desafiante e única. Embora seja a quarta viagem de volta ao Mundo da ‘Sagres’ em 56 anos, todas elas tiveram contextos e itinerários diferentes, com alguns pontos em comum", refere o capitão-de-fragata Maurício Camilo, adiantando que as dificuldades que vão enfrentar estão relacionadas com o facto da viagem durar um ano. "Há uma gestão interna, da própria guarnição, há dificuldades que têm a ver com a meteorologia e com a dificuldade de algumas tiradas que são mais desafiantes. É uma viagem cheia de eventos e de acontecimentos."

O comandante da Sagres não gosta de falar dos maus momentos e prefere destacar a missão do veleiro enquanto embaixada de Portugal. "Os momentos no mar são difíceis e é mais fácil falar dos momentos em terra, os que têm a ver com a forma como o navio é recebido e como os portugueses nos recebem. Sentem que está aqui um pedacinho do País. Alguns choram porque não vêm a Portugal há muitos anos".

Mas há partes da viagem perigosas, tal como descreve Maurício Camilo: "A etapa mais desafiante – porque é também a mais longa, de 32 dias – é a chegada ao Estreito de Magalhães, na zona do Cabo Horn, em outubro. É também a mais perigosa, embora andar no mar seja perigoso em qualquer circunstância."

Mas esta quarta circum-navegação da ‘Sagres’ não vai ser uma repetição da travessia iniciada por Fernão de Magalhães em 1519 e terminada pelo espanhol Juan Sebastian Elcano, três anos depois, em 1522. "Temos uma vantagem relativamente ao Magalhães. Eu sei para onde vou, tenho capacidade, tenho informação dos locais e, melhor do que isso tudo, vou receber informação meteorológica com alguma antecipação, coisa que ele não tinha e que vai permitir fugir algumas vezes ao mau tempo."

A gestão do espírito da guarnição é também um desafio a ter em conta. "O ócio é o pior inimigo do marinheiro, que, quando tem tempo livre, começa a pensar no que não deve. As pequenas coisas tornam-se grandes, começamos a pôr defeitos em tudo, a interagir de forma mais agressiva. Por isso temos muitas atividades e o desporto é essencial para o bem-estar individual e para a coesão da guarnição." As palavras são do tenente David Morgado, chefe do serviço de comunicações e também da equipa de fuzileiros, que ‘passa a bola’ para o cabo manobrador Carlos Santos. Tem 35 anos, é um dos monitores de Educação Física e árbitro certificado numa modalidade muito querida a bordo: ‘futebol convés’. Mas o que é isso? "São quatro jogadores em campo, por equipa, duas balizas, e bolas feitas com cartão ou meias."

Carlos Santos vai na sua segunda viagem à volta do Mundo. E desta vez está preocupado. "Temos malta muito nova, sem experiência, que nunca embarcou na vida. A juventude de hoje é diferente." A idade média na ‘Sagres’ é de 26 anos.

Na primeira viagem de Carlos Santos, em 2010, o filho tinha pouco mais de um ano. Agora tem 11, mas há outro bebé de um ano que vai crescer na ausência do pai. "Quando regressar já terá dois anos. Vou ter muitas saudades de casa."

Quem também já sabe o que vai enfrentar é o primeiro-sargento Johnny Teixeira. É o mestre do navio, tem 36 anos e gosta de surf. Está na Marinha desde os 18 anos.

"A meio da viagem já sabemos que os ânimos podem estar um bocadinho em baixo. São muitos meses longe da família. Não me preocupam as tiradas maiores, mas os sítios por onde vamos passar, sobretudo aquela parte do Chile e depois na África do Sul. A fase do Japão também não vai ser fácil porque é altura de tufões e tempestades." Quanto à segurança perante ataques – da entrada no estreito de Malaca até norte das Filipinas são áreas propícias a assaltos à mão armada – o mestre está confiante: "O navio está preparado, em termos de pessoal e de material para evitar possíveis ataques."

Ao longo da viagem vão entrando e saindo convidados. Os cadetes, por exemplo, só embarcam em Timor.

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