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Um assassino especial

Daniel Silva inverte os papéis: nos seus livros, somos nós os perseguidos.
Francisco José Viegas 26 de Abril de 2020 às 12:00
Daniel Silva
Daniel Silva FOTO: Direitos Reservados

Há sempre – pelo menos eu tenho – um secretíssimo prazer em gostar de coisas de caráter duvidoso: filmes, música, programas de televisão, até livros. Os deuses me julgarão. Há dias em que apetece – um belo mau filme, cheio de diálogos realmente maus, de situações previsíveis e de personagens que dizem e fazem coisas inenarráveis.

Os livros do americano Daniel Silva (o nome não engana, é mesmo de origem portuguesa muito difusa) podiam, para o sistema dominante de preconceitos culturais e políticos, encaixar-se nessa categoria de livros medíocres mas fascinantes; não é o caso da ‘série Gabriel Allon’, um conjunto de mais de uma dezena de livros em que o personagem principal é o ‘kidon’ (‘baioneta’) e líder operacional dos serviços secretos israelitas: Daniel Silva, que foi jornalista no Médio Oriente e produtor de televisão, passou a dedicar-se inteiramente aos seus livros – e a construir, em redor de Allon, um universo ficcional absolutamente notável.

Falar de "universo ficcional" é aqui uma trapaça: por um lado, são romances; por outro lado, Daniel Silva empresta a cada história e a cada personagem um fundo de verosimilhança e fundamento histórico. Desde o próprio Gabriel Allon (cuja biografia o indica como tendo participada na operação Ira de Deus, criada pela primeira-ministra Golda Meir contra os cérebros do Setembro Negro, responsáveis pelos assassínios dos Jogos Olímpicos de Munique) até Ari Shamron, seu chefe dos serviços secretos (que terá sido o responsável pela captura, em Buenos Aires, do nazi Adolf Eichmann), passando por tantos outros, reconhecíveis ou identificáveis, a galeria funciona em cenários dominados pelo extremismo islâmico e pelos oligarcas russos, por exemplo. Allon é um assassino – a realidade cruel do Médio Oriente transformou-o num operacional impiedoso, muitas vezes cruel, solitário e vingativo como um lobo que escolhe bem os seus inimigos, e com uma relação conflituosa com a moral ou o sentimento de piedade; ele sabe, até pela história do seu povo, que não há uma segunda oportunidade para sobreviver.

No novo livro, ‘A Rapariga Nova’, Gabriel Allon regressa ao mundo da Arábia Saudita, que já tinha visitado em ‘A Mensageira’ e ‘Retrato de uma Espia’. Prodigioso no catálogo de conhecimentos e no arsenal de combate, Daniel Silva inverte os papéis: somos nós os perseguidos, da primeira à última página. 

Disco: Melancolia de primavera
Um disco de Mélisande Corriveau e Eric Milnes com peças de Marin Marais (1652-1728) para viola da gamba lembrou-me o filme ‘Todas as Manhãs do Mundo’ – e as aulas de Monsieur de Sainte-Colombe (1640-1693) e as suas filhas; ora, acaba de sair esta preciosidade que transporta a sua altíssima melancolia. Não se arrependerão.

Livro: Bandoleiros e ignorantes
Lilia Moritz Schwarcz é autora de alguns belos livros sobre história do Brasil. Neste, tenta mostrar como há uma linha condutora do autoritarismo local, da escravatura a Bolsonaro, passando por Vargas e pelo Estado Novo. O último capítulo força a nota, mas o conjunto vale a pena e é esclarecedor.

Série de televisão: Conflitos sem fim
Já deixei há muito de comentar o chamado conflito israelo-árabe (fi-lo durante muito tempo, até estar farto de território minado). ‘Fauda’ (em árabe, ‘caos’) não poupa nada, não esconde nada. Sendo israelita, a série não recria ilusões sobre bondade nem sobre inocência. É de ver, até porque estreou a terceira temporada.

Fugir de… Casa de Papel
Na quarta temporada da série ‘Casa de Papel’ há um acontecimento digno de relevo: há menos personagens a dizer ‘polla’ e ‘coño’, e mais
a dizer ‘gilipollas’ e ‘joder’. Essa é a principal alteração e corresponde a um sobressalto filosófico de primeira ordem. Claro que as personagens mudam muito e o assalto lá continua, e Nairobi, coitada, e Tóquio só com dois estalos, e Arturo com uma bigorna em cima, e Espanha é chata que nem vos digo – tudo bem. Não digo para não verem a nova temporada, claro, porque eu também vi, como um viciado. Mas depois fujam sem dizer ‘polla’, ‘coño’, ‘gilipollas’ e ‘joder’. Ou digam.

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